Cinco perguntas sobre consumo de drogas na escola. Como reagir?

Comportamento

POR:
Wellington Soares

Não são raras as ocasiões em que alunos levam substâncias ilícitas para o ambiente escolar. Flávia Vivaldi, especialista em Educação Moral, destaca os procedimentos ideais para lidar com esse tema

Como lidar com a questão da maconha e outras drogas no ambiente escolar. Ilustração: Vilmar Oliveira/Editoria de Arte

Tráfico nos arredores da escola, alunos carregando maconha na mochila, repassando-a a colegas ou a consumindo dentro da instituição. É provável que alguma dessas situações faça parte da realidade de sua escola. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 7,3% dos alunos de 9° ano já consumiram drogas ilícitas. O tema faz parte do cotidiano dos alunos e, por isso, também deve ser discutido na escola. Mas como fazer isso?

A pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem) da Universidade de Campinas (Unicamp) e coordenadora na rede municipal de Poços de Caldas, a 465 km de Belo Horizonte, Flávia Vivaldi acredita que o trabalho sobre o assunto não deve se basear apenas em palestras ou discursos sobre os malefícios dessas substâncias. "Os jovens não se interessam por esse modelo e acabam não sendo atingidos", explica. Abaixo, ela pontua as ações necessárias para lidar com essa questão.

Quando um funcionário flagra um aluno consumindo uma substância ilícita na escola, como ele deve lidar com essa situação?
FLÁVIA VIVALDI A primeira coisa a se ter em mente em um caso como esse é a necessidade de evitar escândalos. Quem vir a situação deve primeiramente informar os gestores da instituição, que vão investigar e, depois, chamar o aluno envolvido para conversar. Nesse momento, deve ser ressaltado ao aluno que ele estava fazendo algo proibido pela lei. Também é importante que ele apresente sua visão sobre o ocorrido. Se a instituição tiver evidências fortes, o estudante raramente negará seu envolvimento. É importante lembrar que, nos casos em que ele não admitir o porte de substâncias ilegais, a escola não pode fazer revistas nos objetos da criança.

E quanto à família, ela deve ser informada?
FLÁVIA Nos casos envolvendo menores de idade, os pais devem sim ser informados. É importante deixar que o próprio estudante decida se quer contar o ocorrido a seus familiares antes que a escola entre em contato com eles ou se prefere que a instituição os informe. Durante o encontro com a família, no qual o aluno deve estar presente, o gestor deve dar orientações sobre maneiras de agir: medidas como trancar o aluno ou retirá-lo da escola não são eficientes. O jovem deve ser orientado e convidado a refletir sobre o ato de consumir essas substâncias e as possíveis consequências. Nos casos mais graves, a instituição pode apontar as possibilidades de tratamento disponíveis na região.

A maneira de agir nesses casos deve estar prevista no regimento da instituição?
FLÁVIA Em geral, os regimentos preveem apenas as punições a quem cometeu o ato, como suspensões ou transferências da instituição. Essas sanções só devem ocorrer em casos muito graves, como quando se comprova a existência de tráfico de drogas dentro da instituição. Fora isso, as ações precisam ter caráter educativo, quase nunca explorado no regimento.

Muitas vezes registra-se a ocorrência de tráfico nas escolas. Como agir nesses casos? Deve-se abordar diretamente o aluno suspeito de envolvimento ou denunciar?
FLÁVIA Não tem como se omitir perante a lei, senão a escola passa a ser cúmplice de uma infração. Essa situação é bastante séria e delicada. Na escola em que trabalho, nunca houve caso de tráfico, mas sim de alunos entregando maconha aos colegas, e nós acionamos outras instâncias. O primeiro a ser acionado é o aluno, dentro da própria escola, ele precisa ter o seu direito à fala. Depois chamamos a família e, em último caso, a polícia.

É importante dar enfoque à questão das políticas públicas porque a escola tem ficado muito sozinha. Tem a parte da assistência social, que tem que estar junto, não para a sanção, mas para a recuperação que estão nesse caminho.

E quais são as ações recomendadas para o resto da comunidade escolar?
FLÁVIA Para os alunos, tratar do assunto somente em palestras não é muito efetivo. Muitas vezes, as instituições convidam ex-usuários, policiais e outras entidades que tratam do tema para fazer apresentações, mas os jovens não se interessam por esses "sermões". É como se não estivéssemos nem falando com eles. Para contornar isso, é importante falar sobre o tema em diversas disciplinas, abordando diversos aspectos, saciando as curiosidades dos estudantes. Assim, há um efeito mais significativo. É claro que, nessa abordagem, podem acontecer imprevistos. Na adolescência, é comum querer discutir, argumentar, então sempre surgem, por exemplo, alunos que defendem o uso, levam pesquisas mostrando que algumas drogas podem trazer benefícios. Aí, o professor não pode se apavorar. Precisa analisar o caso sob o viés que a sua disciplina impõe: cientificamente, historicamente ou por meio da construção dos argumentos, por exemplo. É claro que nenhuma abordagem garante que não ocorrerão casos de consumo de drogas. O trabalho precisa ser feito para levar os alunos a refletirem sobre as possíveis consequências de suas escolhas. Mas, no fim das contas, é ele quem toma a decisão.

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