Cada um no seu ritmo

Respeitar a evolução de todos os estudantes é fundamental para garantir o avanço deles nas diversas áreas

POR:
Giselle Hirata
MARACATU ATÔMICO: Juliana (no canto direito) aprendeu a dançar sentindo a vibração dos ritmos pernambucanos
MARACATU ATÔMICO Juliana (no canto direito) 
aprendeu a dançar sentindo a vibração dos ritmos 
pernambucanos. Foto: Bárbara Wagner

"Quando a vi no palco, senti muito orgulho e me emocionei. Tudo o que ela faz eu acho maravilhoso, ainda mais quando fica empolgada por aprender com os colegas." A autora da frase, Miriam da Silva Costa, é uma dona de casa do Recife. A filha dela, Juliana da Silva Costa, 15 anos, é uma das alunas com necessidades educacionais especiais atendidas pela EE Governador Barbosa Lima, na capital pernambucana. 

Juliana não ouve, mas a deficiência não a impediu de participar, em abril passado, de uma apresentação de dança montada pelas professoras de Educação Física Selma Xavier e Patrícia Galvão da Silva Jota, em conjunto com a responsável pelo atendimento especializado no contraturno, Tarcila Azevedo Mendonça. A chave para o sucesso da inclusão de Juliana no Projeto Manifestações Culturais foi a capacidade das educadoras envolvidas em flexibilizar o tempo de aprendizagem. "Elas tiveram a preocupação de elaborar uma proposta coletiva de trabalho, com a participação efetiva de todos, com e sem deficiência", elogia Liliane Garcez, coordenadora da área de Educação e do Serviço de Apoio à Inclusão Escolar da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), na capital paulista.

Frevo e maracatu na Educação Física

O objetivo principal do projeto era incentivar a garotada a conhecer mais sobre a cultura pernambucana. Parte do trabalho incluía a apresentação de danças tradicionais, como o frevo e o maracatu. O desafio era fazer isso sem deixar de fora os 22 matriculados nas várias séries da escola que têm deficiência auditiva. 

O número alto de crianças e jovens com necessidades especiais na unidade - 308 dos cerca de 2 mil matriculados - está ligado à história da Barbosa Lima, uma das primeiras a trabalhar com inclusão na região. "Há mais de 30 anos, atendemos os que têm deficiência auditiva. A procura por um ensino para eles era muito grande e naquela época abrimos classes especiais", lembra a diretora, Magaly Mendonça. 

Hoje, a Barbosa Lima já inclui nas turmas regulares os que apresentam deficiência. "Nossa escola faz a inclusão a partir do 6º ano do Fundamental", explica a diretora. "Estamos aguardando a determinação do governo para acabar com as turmas especiais de Educação Infantil e do 1º ao 5º ano que ainda existem, mas isso só deve ocorrer no próximo ano letivo." 

No caso de Juliana, a dança foi trabalhada dentro da disciplina de Educação Física como conteúdo de cultura corporal. Selma e Patrícia se uniram a Tarcila, do atendimento especializado, para montar o projeto garantindo a inclusão de todos. Elas dividiram as aulas e adaptaram os horários. O objetivo era oferecer atendimento individualizado para os que têm deficiência auditiva, de forma que eles pudessem participar como os demais. "Não queríamos simplesmente passar a coreografia, mas toda a emoção das músicas e das danças", relata Patrícia. 

No contraturno, sob supervisão de Tarcila, crianças e adolescentes com deficiência aprenderam a identificar diferentes ritmos. Como não podem ouvir, sentiam as vibrações do som colocando as mãos sobre as caixas acústicas. Distinguiam dessa forma o tempo musical em que deveriam realizar a coreografia. "Nessas aulas, também aproveitei para ensaiar com eles os passos detalhados da dança, antes do ensaio geral com todos", conta.

Além da flexibilização de tempo, contribuiu para o aprendizado dos que têm deficiência auditiva a flexibilização de recursos. Durante as aulas, as atividades eram explicadas verbalmente e, em seguida, apresentadas em fotos e vídeos. As imagens ajudavam os não ouvintes a perceber os movimentos que deveriam ser realizados, mas foram igualmente de grande valia para os alunos ouvintes que sentiam alguma dificuldade na apreensão dos conteúdos. 

Os passos da coreografia foram montados com base na troca de conhecimentos, ou seja, todos contribuíram para a criação. "Nos últimos dias de ensaio, trouxemos um grupo de frevo para fazer um espetáculo, o que ajudou muito na compreensão", lembra Selma. "A proposta foi excelente, formulada em torno do tema da cultura pernambucana, com estratégias para que todos e cada um tivessem acesso a esse conhecimento, que é muito importante dentro do currículo escolar", afirma Liliane Garcez. 

Juliana da Silva Costa, a filha de Miriam, participou do evento e aprendeu esse conteúdo básico da Educação Física da mesma forma que os alunos ouvintes. Em Libras, com a tradução da mãe, ela disse que achou as roupas diferentes e bonitas e adorou dançar com os colegas. Destacou, porém, o que mais lhe agradou em todo o projeto: "O importante foi conhecer melhor a cultura da minha terra".

Monitoria auxilia quem tem baixa visão

A estratégia de flexibilizar o tempo é muito útil nos casos em que, em função da deficiência, é necessário um período maior para aprender um determinado conteúdo. Assim como aconteceu no Recife, onde os alunos com deficiência auditiva da Barbosa Lima precisavam de mais tempo para construir o conceito de ritmo, em Pará de Minas, a 84 quilômetros de Belo Horizonte, a professora de Geografia Márcia de Azevedo Oliveira também estica prazos e organiza extensões das aulas para que Alexandro de Quadros Silva, 13 anos, aprenda o mesmo conteúdo do restante da turma do 8º ano da EE Professor Pereira da Costa. Alexandro tem baixa visão. 

Um atendimento individualizado é oferecido ao aluno em todas as disciplinas. E quem o acompanha, quase sempre, são os próprios colegas de classe. Eles se revezam para ajudá-lo na hora de copiar textos ou resolver exercícios. "Nas aulas de Geografia, utilizamos muitos textos", conta Márcia. "Quando o Alexandro não consegue enxergar o que está escrito no quadro ou o que a atividade pede, alguém dita para ele e explica o que deve ser feito." 

A flexibilização entra também no estabelecimento dos prazos de entrega das atividades. Se ele não as conclui no tempo regular das aulas, pode terminá-las no Projeto de Educação de Tempo Integral (Proeti), no contraturno, ou em casa, com o auxílio da família. "Minha irmã, Alessandra, me ajuda lendo os textos que eu não consigo enxergar", explica Alexandro. "Depois que ela lê, eu faço anotações." 

Além do sistema de monitoria organizado com os colegas em sala de aula, a escola também flexibiliza recursos quando, por exemplo, providencia que os textos trabalhados em sala de aula sejam previamente digitados no computador com letras maiores para que Alexandro possa colá-los no caderno. Ou quando Márcia amplia os mapas que vai usar em classe para que ele possa acompanhar melhor as tarefas. "Fizemos isso nas aulas sobre a formação das placas tectônicas, por exemplo", lembra a professora. 

"A escola leva em conta as dificuldades do Alexandro. Fica clara ainda a preocupação dos educadores para que os colegas o apoiem", avalia a consultora Liliane Garcez. "As flexibilizações permitem ajustes no cotidiano para que ele tenha acesso ao conhecimento que está sendo ofertado a todos os alunos." Esse acesso já rendeu os primeiros frutos.

Alexandro adora a escola, como conta sua tia, Virgínia Ferreira da Silva. "Ele está aprendendo mesmo. Tanto que ganhou uma medalha de melhor aluno da turma", comemora. Além de frequentar as aulas da EE Professor Pereira da Costa e o reforço no contraturno, o garoto ainda conta com um atendimento especializado na Apae de Pará de Minas.

Percepção tátil para ler mapas

Sistema de monitoria: Além de mais tempo para as tarefas, Alexandro conta com a ajuda dos colegas
SISTEMA DE MONITORIA  Além de mais tempo para as
tarefas, Alexandro conta com a ajuda dos colegas. 
Foto: Léo Drumond

Na mesma cidade mineira, só que em outra escola, estuda mais um jovem com baixa visão, Valmir Bernardes da Silva Jr., também de 13 anos. Diante da necessidade de auxiliar o estudante da 8ª série na aprendizagem cartográfica, Mauricelia Ribeiro de Oliveira, que leciona Geografia na EE Francisco de Assis Viana, acrescentou um novo elemento aos mapas ampliados, como faz Márcia: o alto-relevo. 

"Foi a maneira que encontramos para que ele acompanhasse o conteúdo com o restante da sala. Os mapas em alto-relevo possibilitam que, pela percepção tátil, o Valmir identifique os detalhes da divisão dos continentes", explica. Depois de tirar cópias ampliadas das cartas, Mauricelia contorna as divisões do Brasil por região e do planisfério completo por continente com cola e barbante. 

Atualmente, bibliotecas especializadas para pessoas com deficiência visual, espalhadas por alguns estados, já disponibilizam esse tipo de material pronto. Além dos mapas em relevo, os professores e todos os visitantes têm acesso ao acervo, que proporciona àqueles que têm deficiência momentos de lazer e de instrução. Estão à disposição livros, jogos, máquinas de escrever especiais com adaptação para o braile e outros aparelhos para o uso de deficientes visuais, como calculadoras e computadores.

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CONTATOS
Biblioteca Campus Senac, Av. Eng. Eusébio Stevaux, 823, 04696-000, São Paulo, SP, 
tel. (11) 5682-7450,
bibliotecacampussenac@sp.senac.br
EE Francisco de Assis Viana, Pça. Nossa Senhora da Conceição, s/nº, 35661-072,
Pará de Minas (MG), tel. (37) 3233 -9149
EE Governador Barbosa Lima,
Av. Agamenon Magalhães, s/nº, 52010-903, Recife, PE, tel. (81) 3222-1597
EE Professor Pereira da Costa,
R. Antônio Praxedes, 390, 35660-054, Pará de Minas, MG, tel. (37) 3232-1495

INTERNET
Em www.bengalalegal.com/biblio.php, indicações de bibliotecas para cegos em várias capitais do Brasil

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