O que é aprendizagem evolutiva e como ela pode ajudar na Educação

O professor da Universidade de Columbia James Liebman defende que todos os envolvidos em um problema sejam responsáveis por construir soluções mais efetivas

POR:
Laís Semis
O trabalho em equipe e coordenado entre os diferentes atores do problema é essencial na aprendizagem evolutiva. Crédito: Josh Calabrese/Unsplash

James Liebman define aprendizagem evolutiva como “uma maneira disciplinada de melhorar”. Diferentemente de outras abordagens, esse conceito se traduziria em uma maneira de aprender rápido com a experiência das pessoas próximas ao problema que precisa ser resolvido. Liebman é professor da Universidade de Columbia, em Nova York, nos Estados Unidos. Apesar de ser da área do direito, seu trabalho tem como foco a formulação institucional e mudanças na Educação pública.

De 2006 a 2009, ele integrou o Departamento de Educação da cidade de Nova York e foi premiado pelo redesenho do sistema de dados educacionais. O trabalho consistiu em fornecer informações e ferramentas a educadores e pais para ajudar a melhorar os resultados dos estudantes, além de responsabilizar a escola pelo progresso acadêmico de sua comunidade interna.

A aprendizagem evolutiva consiste, basicamente, em envolver nas decisões aqueles que serão impactados por ela. Assim, a construção de uma política pública ou um plano de ação em uma escola são mais efetivos quando saem do papel para a prática. Ao estabelecer uma meta – seja ela em maior ou menor escala, como uma meta relacionada à implementação da BNCC ou a melhora da proficiência dos alunos –, secretarias e escolas estariam (juntas) no centro desse processo. Entre essas duas pontas haveria facilitadores pedagógicos com a responsabilidade de trazer da secretaria informações a serem usadas para estabelecer as metas e estratégias e oferecer apoio com formações e ferramentas para que as escolas façam melhor uso de sua autonomia na escolha e no teste dessas estratégias. Das escolas, o facilitador pedagógico colhe feedbacks, resultados e boas práticas efetivas que serão compartilhadas com outras escolas. A troca entre secretarias e escolas é constante ao longo do processo.

James Liebman no evento "Redes que Transformam". Crédito: Fundação Lemann/Produtora Maica

Na ponta, as gestões escolares trabalham em conjunto com os professores para que as estratégias atinjam a sala de aula. Nesse momento, as estratégias estabelecidas entram em ação, assim como o processo constante de resolução de problemas, que se divide em cinco etapas:

  1. Refinamento do problema a ser resolvido;
    2. Determinação da “causa raiz” (a raiz do problema);
    3. Geração de soluções;
    4. Elaboração, execução e monitoramento das intervenções;
    5. Avaliação dos resultados.

Quando algo não sai como o esperado, é possível rever o processo com a resolução de problemas.

A aprendizagem evolutiva estuda as lacunas entre expectativas e resultados para encontrar formas de melhorar o processo e multiplica as oportunidades de sucesso ao contemplar a participação dos atores interessados. James Liebman esteve no Brasil para o evento “Redes que transformam”, iniciativa da Fundação Lemann, mantenedora de NOVA ESCOLA. Em entrevista exclusiva, Liebman explora a diferença entre a aprendizagem criativa e outros modelos, quando a metodologia deve ser utilizada e como ela pode ajudar na equidade educacional.

Por que a aprendizagem evolutiva é mais indicada do que um modelo mais burocrático ou hierárquico?
JAMES LIEBMAN Basicamente, a burocracia começou no século 19 e há um número limitado de situações e ferramentas que você pode, de fato, afirmar: “Vamos fazer desse jeito para todo mundo e vai funcionar”. Se pensarmos no modelo de trabalho das fábricas, um grupo de funcionários se concentrava em uma tarefa específica, enquanto o próximo no processo se focava em fazer outra tarefa bem delimitada e tudo funcionava bem. Você raramente redesenhava seus produtos – talvez uma vez a cada 20 anos –, então, não tinha necessidade de mudar a regra.

Hoje, é tudo diferente. Tudo muda tão rápido que nós temos que redesenhar carros todo ano para torná-los melhor a partir da tecnologia disponível. Então, seus trabalhadores não podem ser apenas fazer a mesma coisa todo dia por vários anos. Eles precisam se adaptar constantemente, aprender e saber como realizar diferentes tarefas. A mesma coisa acontece com as escolas.

Nós costumávamos pensar que bastava treinar as crianças para serem bons trabalhadores, mas agora sabemos que precisamos prepará-las para muitas outras coisas. Hoje também se sabe que precisamos educar todas as crianças – inclusive aquelas que representam os maiores desafios na aprendizagem. Há muita diversidade e não dá pra dizer “Olha, aqui há um único jeito de ensiná-las, use dessa forma e funcionará para todo mundo”. Trabalhando no departamento de Educação de Nova York, eu percebi que poderia aparecer com a melhor ideia do mundo, mas que provavelmente ela se perderia no caminho porque não funcionaria de forma uniforme para todas as escolas.

Você acredita que a aprendizagem evolutiva pode ajudar na equidade educacional?
Acredito que pode ajudar, sim. No início da minha carreira eu era um advogado que processava sistemas escolares que segregavam crianças – escolas que tinham, por exemplo, crianças negras em um espaço e brancas em outro. O que eu vejo é que o único caminho para tratarmos as crianças da forma que elas precisam é dando atenção às necessidades individuais de cada grupo ou criança. Pode parecer estranho, mas para termos equidade, temos de fazer diferente para cada uma delas. Equidade não é o mesmo para todo mundo. Isso não funciona mais.

A jornalista Marta Avancini mediando perguntas no bate-papo com James Liebman. Crédito: Fundação Lemann/Produtora Maica

Recentemente, o Brasil aprovou a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Tivemos uma grande participação de professores e outros grupos ligados à Educação em diferentes momentos do processo por mais de três anos. O governo coletou sugestões em uma plataforma online, os estados organizaram seminários e também houve consultas públicas. Apesar disso, muitos professores dizem que não se reconhecem no documento e até mesmo alegam ser um processo falso. Como nós podemos colocar os professores no centro desse processo? Você acredita que é necessária uma mudança de cultura?
Mudar a cultura é muito importante. Mas antes de qualquer coisa, queria dizer que o Brasil fez um trabalho muito melhor do que os Estados Unidos no sentido da participação dos professores. Eu sei que há reclamações e preocupações, mas posso afirmar que foi muito mais inclusivo. Há muitos professores que já se sentem parte desse processo. É preciso fazer com que todos compreendam o que é uma Base Nacional Comum e porque ela é boa para os professores e para a Educação. Precisamos fazê-los se sentir como parte das etapas que ainda virão desse processo, como o currículo, materiais didáticos e instrucionais e mesmo o escopo do conteúdo que será dado. Assim, eles poderão mudar suas práticas e ter mais flexibilidade no que estão aprendendo sobre o tema para implementá-lo. Por isso, as equipes docentes são tão importantes para a implementação.

Precisamos reunir os professores e fazê-los conversar, apontar coisas que não entendem no documento e não sabem como ensinar. Isso foi algo que aconteceu em Nova York. Trabalhamos juntos em estratégias de ensino e observamos os resultados. Depois de um tempo, eles retornaram dizendo: algumas dessas coisas funcionam, outras não funcionam tão bem nessa ou naquela situação. Os próprios professores sentaram para discutir os problemas levantados e descobriram melhores formas de colocar em prática o que havíamos pensado. Hoje, eles estão realmente comprometidos com os padrões estabelecidos porque acreditam que fazem parte desse processo.

Em que políticas públicas é possível aplicar a aprendizagem evolutiva?
Minha teoria é que quanto mais políticas usarem essa prática, melhor. Mas isso não significa aplicar em tudo. Tem algumas coisas que funcionam realmente bem para todo mundo. Por exemplo, nos Estados Unidos todos são obrigados a colocar em seus carros um conversor catalítico [dispositivo usado para reduzir a toxicidade das emissões dos gases de um carro]. Com isso, reduzimos a poluição. Todo mundo usa basicamente o mesmo tipo básico de motor de combustão, coloca o conversor e está tudo bem. É ótimo para você e é ótimo para todo mundo. O que sabemos fazer bem, podemos continuar fazendo desse jeito. Aquilo que não sabemos, é para isso que precisamos desenvolver estratégias e aplicar a aprendizagem evolutiva. É um mix interessante porque você não se rende totalmente à burocracia e ganha com a aprendizagem evolutiva.

É algo que funciona tanto em nível de políticas públicas quanto nas escolas, com a participação de gestores e professores. É como a matriosca, aquela boneca russa que tem versões menores uma dentro das outras. Cada nível hierárquico tem seus objetivos dentro da aprendizagem evolutiva e os sistemas podem trabalhar melhor com todos os lados olhando para isso.

Como o governo e a gestão escolar podem dar autonomia aos professores?
Dando a eles confiança. Pessoas costumam nos dizer: “Ah, é claro que você pode fazer isso em Nova York! Mas nós não podemos fazer porque não dá para confiar em nossos professores ou diretores, eles não são bons o suficiente”. Mas nós não tínhamos apenas os melhores professores em Nova York. Nós tínhamos professores que se importavam e queriam aprender. O que descobrimos é que quanto mais flexibilidade você dá aos gestores e professores, mais coisas eles conseguem fazer. Nós subestimamos o que as pessoas podem fazer quando não confiamos nelas. Dê a eles as ferramentas, diga que vão discutir e que serão elas a tomar as decisões e seja transparente. Não é só apresentar uma proposta e dizer “Seja lá o que fizerem, vai ficar bom ou vai ficar tudo bem”. Transparência é muito importante para que a comunidade escolar possa se ver, de fato, melhorando. E os dados vão confirmando a melhora.

E precisamos dar alguma formação para que os professores possam ser autônomos e fazer um bom uso dessa autonomia?
Sim. Os professores precisam estar aptos a trabalhar em times. Eles costumam ter medo de mostrar a outros professores onde estão falhando. Nós temos a expectativa de que os professores sejam perfeitos, mesmo que a gente não espere isso de mais ninguém. E os professores temem tanto mostrar o que não sabem, que precisamos treiná-los para que estejam aptos a fazê-lo e acreditar que trabalhar seus pontos fracos pode torná-los profissionais melhores.

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