Em busca do corpo perfeito

Desde a Grécia Antiga, os homens correm atrás de um corpo ágil, capaz de alcançar cada vez mais velocidade, força e destreza. Mas a história do esporte, escrita pelos Jogos Olímpicos, mostra diferentes motivações para essa conquista

POR:
Ricardo Falzetta, NOVA ESCOLA, Paola Gentile, Carlos Eduardo Matos

Antiguidade - A perfeição dos Deuses

No discóbolo de Myron, um ideal olímpico da Grécia Antiga: o corpo nu é mais ágil, forte e próximo dos deuses. Foto: Gianni Dagli/Stock Photos
No discóbolo de Myron, um ideal olímpico da Grécia Antiga: o corpo nu é mais ágil, forte e próximo dos deuses
Se vivesse na Grécia Antiga, o velocista Eronilde Araújo, 79 kg, 1,82 m, além de atleta, seria um poderoso guerreiro. Foto: Eduardo Monteiro
Se vivesse na Grécia Antiga, o velocista Eronilde Araújo, 79 kg, 1,82 m, além de atleta, seria um poderoso guerreiro
Maila Machado, 65 Kg, 1,67 m, corre os 100 metros com barreiras na casa dos 12 segundos: é o tempo que você demora para ler esta legenda. Foto: Wander Roberto/COB/Divulgação
Maila Machado, 65 Kg, 1,67 m, corre os 100 metros com barreiras na casa dos 12 segundos: é o tempo que você demora para ler esta legenda

Na Grécia Antiga, os homens - só eles tinham esse direito - malhavam por um físico ideal de inspiração divina Atleta, ginástica, estádio, pentatlo - ligadas ao esporte, todas essas palavras são de origem grega. Na Grécia Antiga, berço da civilização ocidental, surgiu a idéia do corpo perfeito conquistado por meio da atividade física. Os homens helênicos não se envergonhavam de exibir-se despidos em jogos e danças. Mais do que isso, gostavam de se admirar. Eles perceberam que a nudez, além de bela, melhorava o desempenho do atleta, sobretudo nas competições periodicamente disputadas na península grega, os Jogos Olímpicos.

Deuses e homens
A celebração das divindades por meio de provas físicas expressava as concepções politeístas dos gregos. Eles consideravam os deuses semelhantes aos homens em virtudes e defeitos, sujeitos às mesmas paixões e impulsos, embora dotados de imortalidade e de força, velocidade e beleza superiores. Assim, desejar um corpo belo, forte e rápido era um meio de se aproximar dos deuses e, com isso, da perfeição.

Não era somente essa busca divina que fazia os gregos dedicar especial atenção ao corpo. Para a Grécia, ter bons atletas entre os cidadãos significava contar com soldados fortes e resistentes, preparados fisicamente para combater os exércitos das cidades-estado vizinhas. Não por acaso, provas como a corrida e o lançamento de dardo tiveram origem no treinamento militar, que era feito dentro do gymna-syum, a academia da época.

Os mais famosos e importantes jogos esportivos eram os que ocorriam a cada quatro anos em Olímpia, na cidade-estado de Elis, para homenagear Zeus, o deus supremo do Olimpo. Os primeiros registros dos vencedores datam de 776 a.C., mas há indícios de que as competições já eram realizadas 500 anos antes. Os Jogos Olímpicos assumiram tamanha importância que os antigos gregos os utilizaram como medida de tempo: a palavra olimpíada designava o intervalo de quatro anos entre dois períodos de competição - e até hoje é assim. Além disso, durante as provas, realizadas em agosto e setembro, qualquer guerra em curso na região era suspensa para que os cidadãos pudessem se deslocar até Olímpia a fim de aplaudir seus campeões. Se as guerras eram precedidas de sentimentos de tristeza, inquietação e medo, a disputa dos jogos gerava disciplina, método, respeito e uma alegre expectativa. Toda essa movimentação amargava um detalhe: as mulheres não participavam das competições nem podiam assistir a elas.

Força e velocidade
As primeiras competições olímpicas se limitavam a corridas. Ao longo do tempo, foram introduzidos o pentatlo - no qual um atleta disputava em um mesmo dia provas de salto, lançamento de dardo e de disco, corrida e luta - e as corridas de biga. Também surgiu uma forma primitiva de boxe, em que tudo era válido a não ser mordidas e dedos nos olhos. Inicialmente, os vencedores recebiam apenas a coroa de louros. Com o tempo, viraram profissionais disfarçados, com direito a prêmios e privilégios.

O surgimento da filosofia, no final do século 7 a.C., colocou as crenças religiosas tradicionais em segundo plano e enfatizou a importância da construção de um corpo perfeito. Dessa vez, o modelo não eram os deuses mas o próprio homem, qualificado como "medida de todas as coisas". Platão sustentava que "ginástica e música, uma intercalada com a outra", eram a fórmula do equilíbrio entre corpo e espírito. Ele próprio foi um lutador, e o nome pelo qual ficou conhecido se originou da palavra platys (largo). Tudo por causa dos ombros fortes do filósofo, cujo verdadeiro nome era Arístocles.

Conquistadores da Grécia e herdeiros da cultura helênica, os romanos não mantiveram o ideal olímpico dos gregos. A qualidade física e a técnica apurada perderam importância, abrindo espaço para disputas quase circenses e cada vez mais violentas. O objetivo dos governantes era distrair o povo com espetáculos grandiosos. Buscando a liberdade, escravos confinados e submetidos a rígido treinamento tornaram-se astros - os gladiadores. Provas puramente atléticas, como as corridas rasas e o arremesso de dardo e disco, chegaram a ser alvo de zombaria dos espectadores.

Nesse cenário, que atingiu seu ápice no século 2, o poeta satírico Juvenal mencionou a máxima mens sana in corpore sano. Dada a personalidade irônica atribuída ao autor, nunca se soube exatamente qual sentido ele pretendeu dar a essas palavras.

Na escola

Proponha aos alunos que recortem de revistas imagens de atletas de provas rápidas e de fundo e que as comparem. Leve-os a notar a diferença na massa muscular e nos tipos de roupa e acessórios.

Conte à turma uma das versões da história da maratona, prova que exalta o soldado grego Fidípedes. Diz a lenda que, na guerra contra os persas, em 490 a.C., ele correu 40 quilômetros, da cidade de Maratona a Atenas, pedindo reforços pelo caminho. Voltou com 10 mil soldados, que venceram a batalha. Inflamado, o comandante ordenou ao esforçado Fidípedes que voltasse a Atenas (correndo!) para dar a notícia. Extenuado, Fidípedes deu o recado, mas caiu morto.

Sugestões do professor Laércio Pereira, do Centro Esportivo Virtual

Renascimento - A arte para exaltar a beleza

A Vênus retratada por Boticelli recupera depois de séculos o ideal dos dilósofos gregos: o ser humano como medida de todas as coisas. Foto: Gianni Dsgli/Corbis/Stock Photos
A Vênus retratada por Boticelli recupera depois de séculos o ideal dos dilósofos gregos: o ser humano como medida de todas as coisas
Larissa Barata, 42,5 kg, 1,58 m, estica ao máximo cada uma de suas fibras musculares. Tudo isso sem perder o charme e, é claro, seguindo à risca a sensível coreografia de seus movimentos. Foto: Evandro Teixeira/COB
Larissa Barata, 42,5 kg, 1,58 m, estica ao máximo cada uma de suas fibras musculares. Tudo isso sem perder o charme e, é claro, seguindo à risca a sensível coreografia de seus movimentos

Era Moderna - O corpo a serviço do esporte

Murilo Fischer, 66 kg, 1,70 m, mostra concentração: o esforço, aliado à tecnologia dos acessórios, da roupa e da bicicleta, faz o atleta se superar na prova de estrada. Foto: Wander Roberto/COB
Murilo Fischer, 66 kg, 1,70 m, mostra concentração: o esforço, aliado à tecnologia dos acessórios, da roupa e da bicicleta, faz o atleta se superar na prova de estrada

Atitudes campeãs - O importante é viver bem

Foto: Approach/Divulgação
Foto: Masao Goto Filho

Uma história de conquistas

Foto: Focus

Ouro para um pastor
As poucas modalidades olímpicas disputadas nos Jogos de 1896, em Atenas, são praticadas por amadores. O vencedor da maratona é um pastor de ovelhas, o grego Spiridon Louis, que vira herói.

 
Foto: Bettmann Corbis/Stock Photos

Da paralisia ao pódio
Ray Ewry teve pólio e, até os 8 anos, se locomoveu em cadeira de rodas. Nos jogos de 1900, com 26 anos e a força que adquiriu nas pernas depois de muita terapia, "voa" na pista de Paris e ganha ouro nas três provas de salto parado (sem corrida).

 
Foto: Bettmann Corbis/Stock Photos

Mulheres na jogada
Paris, 1900: começa a participação feminina e 11 elegantes senhoritas disputam os torneios de tênis e de golfe. A inglesa Charlotte Cooper é a primeira mulher a levar a medalha de ouro, ao vencer a final de simples, no tênis.

 
Foto: Bettmann Corbis/Stock Photos

Velozes na raça
1904, Saint Louis: o americano Thomas Poage, bronze nos 400 metros com barreira, sobe no pódio e marca outro tento. Ele é o primeiro negro a receber uma medalha olímpica.

 

Recordes femininos
Em 1928, as mulheres já estão competindo pesado. Representam agora 10% dos atletas participantes e quebram recordes mundiais nas cinco provas de atletismo disputadas em Amsterdã. A canadense Ethel Catherwood salta 1,59 metro e bate o recorde do salto em altura.

Apesar de Hitler
1936, Berlim: o nazismo tenta provar pelo esporte a "superioridade" dos arianos. Mas os negros vencem todas as corridas nas distâncias entre os 100 e os 800 metros, ganhando oito medalhas de ouro (quatro para Jesse Owens), três de prata e duas de bronze.

Tênis para quê?
Correndo por fora - descalço! -, o etíope Abebe Bikila vence pela primeira vez a maratona, em Roma (1960), mostrando que os negros, além da supremacia nas provas de velocidade, se destacam também nas corridas de fundo.

Menores e melhores
Olga Korbut, 17 anos, e Nadia Comaneci, 14, ambas com 1,49 m, derrubam o padrão das competidoras de ginástica olímpica, até então mais velhas e corpulentas. Olga (Munique, 1972) ameaça o ouro, mas escorrega nas barras assimétricas. Quatro anos depois, Nadia honra as baixinhas: leva três ouros, uma prata e um bronze. É eleita a ginasta mais completa da competição.

A escalada do doping
Em Seul (1988), o canadense Ben Johnson consagra-se o homem mais veloz do mundo. Mas sua glória é efêmera: o antidoping revela uso de anabolizantes. Hoje, o doping químico corre o risco de se tornar obsoleto, dando lugar ao doping genético. A nova versão se caracteriza pelo uso de um vírus sintetizado em laboratório que altera a informação genética das fibras musculares sem deixar vestígio no sangue ou na urina do competidor.

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