Autoridade autoritária

POR:
Telma Pileggi Vinha, NOVA ESCOLA
Ao entrar em sala após o intervalo, para dar aula no 8º ano, o professor depara-se com brincadeiras comuns entre os adolescentes. Alguns imitam os outros e remedam gestos e falas. Borrachinhas e papéis voam na busca de alvos móveis que tentam se defender com cadernos e livros. Outros três jogam uma bolsa para lá e para cá, entre eles, enquanto uma garota tenta pegá-la, pedindo em vão para que a devolvam e parem com aquela "brincadeira idiota". Assim, entre risadas e protestos, o professor dá um grito exigindo que parem, manda devolver a bolsa para a aluna, ameaça colocar um ou dois para fora da sala e rapidamente os estudantes se sentam e fazem silêncio.

Pouco depois, no decorrer da explicação, um celular toca e o professor ordena que o aparelho seja entregue. O dono diz que tinha se esquecido de acionar o modo silencioso, que "foi mal" e que não iria entregá-lo. O professor insiste, dizendo que eram as regras da escola, ameaçando enviar um bilhete aos pais e encaminhar o garoto à direção. O aluno responde que ele não tem esse direito e, exaltado, insulta-o. Diante disso o professor expulsa o garoto da sala, que se retira dizendo um palavrão entre os dentes. Disfarçadamente, alguns colegas conferem se os celulares estão devidamente silenciados.
A ação
Estudos indicam que os professores empregam quase 1/3 do tempo de aula administrando conflitos interpessoais. Em uma pesquisa, acompanhamos inúmeras escolas visando compreender quais eram as concepções sobre essas situações e, em decorrência delas, quais intervenções eram feitas. A maioria dos educadores consultados concebe os conflitos como negativos e danosos ao bom andamento das relações, sentindo-se insegura, angustiada ou irritada quando se depara com casos de furto, dano ao patrimônio, agressão... E os esforços são empregados em três direções.

A primeira é evitar os conflitos. Para isso, elaboram-se regras e mais regras. Controla-se o comportamento por meio de filmadoras ou de vigilância sistemática dos alunos; armários e salas são trancados; atividades estéreis e destituídas de significado pedagógico, como cópias em lousa, ocupam o precioso tempo da aula; avaliações são aplicadas de forma indevida, com objetivo de conquistar obediência; um "bode expiatório" é eleito para servir de exemplo aos demais; mapeiam-se as turmas; bons comportamentos são recompensados. Dessa maneira, a escola promove a regulação exterior e esquiva-se da responsabilidade educativa, de formar os futuros cidadãos de nossa sociedade... Por certo, onde precisamos de controle, de vigilância, significa que não há Educação.

A segunda direção é a contenção. Desse modo, os educadores "terceirizam" o problema transferindo-o para o diretor ou o orientador, para a família, para os especialistas; procuram soluções prontas; utilizam punições e censuras vexatórias; incentivam a delação; culpabilizam; admoestam; associam a obediência à regra ao temor da autoridade, ao medo da punição, da censura e da perda do afeto. Esses mecanismos de controle - utilizados cotidianamente na escola - funcionam temporariamente. Mas, além de reforçar a heteronomia, agravam o problema.

Uma terceira direção é ignorar os conflitos quando eles ocorrem entre os alunos, como aqueles presenciados pelo professor, na descrição do início deste artigo. Várias pesquisas têm mostrado que a escola considera mais grave o embate com a autoridade, ou seja, quando se trata de indisciplina. Se a transgressão não atinge o professor, é vista como brincadeira da idade ou desavença de menor importância. Não nos surpreende quando encontramos essa mesma crença entre jovens de diferentes idades, que consideram pior desrespeitar um professor do que um colega. Como se vê, o problema não é o desrespeito a uma pessoa (qualquer que seja) e sim à determinada pessoa. Longe de pensar nos princípios das suas ações morais, tais alunos e educadores parecem acreditar que a regra existe em função de uma autoridade.

O professor, em geral, intervém mais e de forma mais firme no caso do desrespeito à autoridade, omitindo-se, por não estar envolvido, no caso de problemas entre os alunos como ilustram as reações desproporcionais do docente diante da infração do aluno com o celular. Com isso, ele perde valiosas oportunidades de trabalhar os valores e as regras e permite que ocorram numa instituição educativa situações que ferem explicitamente os princípios morais. Os resultados são claros: crianças e adolescentes são impedidos de prosperar numa moral que reconheça aos outros como seus iguais. O professor que age assim também não contribui para o desenvolvimento de um sentimento indispensável à vida em sociedade: a simpatia. Entre iguais, é preciso que crianças e jovens possam COM-viver. E, ao terem a oportunidade de se sentir valorizados, possam se CO-mover com os outros. Do que estamos falando? Da generosidade, virtude que não necessita de um poder de autoridade para existir e, sim, de experiências em que se possa sentir valorizado para valorizar o outro. Fato também não observado no exemplo dos colegas remedados.

Nas situações descritas no inicio deste artigo, os conflitos foram "solucionados" na perspectiva do adulto, mas na verdade apenas se eliminou temporariamente a situação-problema. Na prática, os comportamentos foram contidos por meio da submissão às regras impostas pela autoridade sem ter havido a compreensão dos princípios que as sustentam ou dos motivos pelos quais são necessárias nas relações. Não houve intervenção para revalidar os princípios que tinham sido desrespeitados, que ajudasse esses jovens a verbalizar seus sentimentos e desejos, que promovesse a interação de forma que pudessem escutar uns aos outros, que se sentissem encorajados para colocar sugestões e soluções.

Sem se dar conta das consequências, os educadores deixam essas crianças e jovens à própria sorte ao ser bem mais condescendente quando o conflito ocorre entre os pares. Com isso, transmitem a mensagem subliminar de que o respeito e a justiça devem ser dedicados às autoridades e não a qualquer ser humano. Essa atitude resulta em um ambiente propício para a ocorrência de situações de bullying, de cyberbullying, de maus tratos ou de intimidações entre eles.

Quando solicitados pelos adolescentes, os educadores realizam intervenções que não raro aumentam ainda mais o problema. Um estudo realizado em escolas de Ensino Fundamental e médio comprovou que, com o passar da idade, os adolescentes relatam cada vez menos aos adultos os conflitos que vivenciam, pois, além da vergonha e do receio de serem censurados ou punidos, consideram que a forma como os adultos lidam com essas situações, em geral, só pioram o problema, gerando novos desentendimentos entre eles e, não raro, fazendo com que se sintam expostos, que decaiam aos olhos dos colegas, provocando ainda mais vergonha.

Somente 3% de universitários responderam em uma recente investigação que aquilo que aprenderam na escola foi de alguma forma útil para resolver os conflitos que vivenciam cotidianamente. Apesar de boas intenções e nobres objetivos, a forma como a escola tem lidado com os conflitos interpessoais tem contribuído para formar jovens despreparados para a vida social. A resolução punitiva ou vinda diretamente dos adultos e a utilização dos mecanismos de regulação exterior acabam por impedir as desavenças naturais decorrentes das interações sociais e a vivência das consequências dos atos. Quase inexistem intervenções que promovam a reflexão sobre as ações que tiveram, sobre os sentimentos envolvidos e sobre a necessidade de princípios e das normas para se viver bem. Assim são perdidas oportunidades que poderiam ter sido valiosas para favorecer a construção da auto-regulação, tão necessária para a moralidade autônoma, para a vivência numa sociedade democrática.
A reação
Diversos estudos nacionais e internacionais indicam que essa forma de lidar com os conflitos contribuem, em longo prazo, para formar jovens com baixo índice de habilidade social, apresentando dificuldades para emitir opiniões, argumentar, ouvir perspectivas diferentes sem que se sintam ameaçados, tomar decisões, expor e discutir sentimentos e coordenar perspectivas em ações efetivas. Na resolução de seus próprios conflitos, empregam mecanismos ainda primitivos, entre eles, as reações impulsivas, submissas ou agressivas, a não interação, as soluções unilaterais, a mentira...

Em uma investigação com estudantes brasileiros de 2ª a 7ª séries do Ensino Fundamental encontrou-se a predominância de tendências submissas de resolução de conflitos, seguidas de agressivas. As tendências assertivas apareceram somente em terceiro lugar. Esses resultados são coerentes com os encontrados em uma pesquisa com mais de cinco mil jovens em que cerca de 90% deles disseram que os conflitos de hoje são resolvidos mais com agressão do que com diálogo.

Adolescentes aparentemente afáveis agem de forma impulsiva e violenta longe dos olhos dos adultos. Outros empregam formas submissas para resolver seus problemas, curvando-se à vontade de um terceiro, desconsiderando os próprios sentimentos, valores e perspectivas. Muitos utilizam os meios de comunicação eletrônica para insultar, vingar-se ou intimidar os colegas. Pesquisas internacionais recentes indicam que por volta de 23% dos alunos de 11 a 19 anos já foram intimidados ou ameaçados pela internet (em 2000, eram apenas 6%).

É isso que queremos para nossa sociedade? Até quando vamos adotar esse modelo de Educação que em nada contribui para que nossos jovens aprendam a se relacionar de forma mais respeitosa e satisfatória? Até quando vamos abrir mão de ajudá-los a desenvolver a capacidade de expressar perspectivas sem causar dano aos outros e de buscar soluções não violentas e cooperativas para seus conflitos?

Diante da notícia recente de duas adolescentes que se agrediram fisicamente tendo o incentivo da mãe de uma delas, muitas pessoas ficaram perplexas e espantadas... As questões que apareceram nas reportagens demonstravam preocupação com a forma como nossos jovens estão resolvendo conflitos. Por que parecem utilizar cada vez mais estratégias violentas para lidar com as desavenças? O que está acontecendo com as famílias? Como uma mãe pode estimular sua filha a bater diante de um conflito? Deve-se retirar a guarda da mãe?

Esse tipo de questão reflete um paradigma ainda bastante presente entre os profissionais de Educação, de que a escola é vítima de uma sociedade violenta, de famílias permissivas ou negligentes... Então a escola se isenta de responsabilidade sentindo-se impotente para lidar com tais problemas, ainda mais quando ocorrem "fora dos muros da instituição". Como colocamos anteriormente, apesar de contribuir expressivamente com tais situações, a escola não se dá conta desse fato, impossibilitando-a, devido à força dessa crença, de realizar uma séria revisão interna, de transformar-se.

Anos de estudo sobre conflitos interpessoais indicam que o desenvolvimento de estratégias de negociação mais cooperativas, respeitosas, justas e eficazes não são ensinadas por meio de mecanismos punitivos ou por transmissão direta, discursos, palestras, campanhas ou cartilhas bem intencionadas. Por outro lado, a criança ou o jovem não irá aprender por si mesmo algo que é muito complexo e para o qual não foram previstas boas intervenções e oferecidas situações que o auxiliam nessa aprendizagem.
É preciso que a criança possa ter experiências de vida social para aprender a viver em grupo. A escola é um local muito apropriado para isso. Esses meninos e meninas não têm oportunidade de discutir seus problemas, de compreender a necessidade das regras para o bem estar de todos, como algo que organiza as relações e auxilia a convivência. Infelizmente, os esforços da escola na área ainda parecem estar mais voltados para conseguir um bom comportamento do aluno e uma fugaz e artificial harmonia nas relações. Lamentavelmente, é essa mensagem que estamos passando aos nossos jovens: a de que os conflitos são desviantes e que devem, portanto, ser disfarçados, evitados, contidos, ignorados...
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