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Aula expositiva: o professor no centro das atenções

Essencial para apresentar um tema, sintetizar informações já trabalhadas ou fechar um conceito, a aula expositiva é o momento em que você tem a palavra. Saiba por que esse recurso deve ser valorizado e aprenda com quem já o inclui de forma produtiva no planejamento

por:
EF
Elisângela Fernandes
BS
Beatriz Santomauro
NE
NOVA ESCOLA

Durante muito tempo, a aula expositiva foi o único procedimento empregado em sala de aula. No século passado, no entanto, ela perdeu espaço na escola e até passou a ser malvista por muitos educadores, já que se tornou a representação mais clara de um ensino diretivo e tradicional, que tem por base a transmissão do conhecimento do mestre para o aluno. Não é bem assim. Se bem planejada e realizada, essa estratégia de ensino - em que você é o protagonista e conduz a turma por um raciocínio - pode ser o melhor meio de ensinar determinados conteúdos e garantir a aprendizagem da turma. Mas atenção: ela nunca pode ser o único recurso usado em classe e deve sempre fazer parte de uma sequência de atividades (leia como quatro professores utilizam a aula expositiva em diferentes momentos nas páginas a seguir).

A aula expositiva se consolidou como prática pedagógica na Idade Média pelas mãos dos jesuítas, se transformando na estratégia mais utilizada nas escolas - quando não a única. A transmissão do conhecimento, sobretudo pela linguagem verbal, era uma corrente hegemônica. Acreditava-se que bastava o mestre falar para as crianças aprenderem. O século 20 trouxe luz sobre o processo de ensino e aprendizagem, e pesquisadores como Jean Piaget (1986-1980), Lev Vygotsky (1896-1934), Henri Wallon (1879-1962) e David Ausubel (1918-2008) demonstraram a importância da ação de cada indivíduo na construção do próprio saber e o papel do educador como mediador entre o conhecimento e o aluno. Com base nisso, a escola passou a valorizar outras formas de ensinar, como aquelas que envolvem a resolução de problemas, os trabalhos em grupo, os jogos e as pesquisas.


A disseminação dessas práticas e o fato de a aula expositiva ser associada a uma didática ultrapassada fizeram com que ela - injustamente - fosse ficando de fora do planejamento de muitos docentes. Não é a atividade em si que indica se o professor segue uma ideia tradicional de ensino, mas a forma como ele atua em todos os momentos. Aqueles que ainda trabalham com a perspectiva de transmissão do conhecimento não necessariamente usam só a aula expositiva. Eles podem até propor atividades práticas no laboratório de Ciências, por exemplo, e mesmo assim cobrar apenas a memorização dos alunos. Por outro lado, há os que passam uma significativa parte de seu tempo apresentando uma série de informações em frente à classe e estão, sim, interessados na aprendizagem de cada um dos estudantes.

Levar em consideração os conhecimentos prévios das crianças. Relacionar os conteúdos ao cotidiano delas, problematizá-los e sistematizá-los. Tornar a aprendizagem significativa. Essas são algumas das premissas que devem estar presentes em todas as atividades planejadas, e com a aula expositiva não é diferente. Quando esses aspectos são levados em conta, ocorre um distanciamento do modelo tradicional e uma aproximação da aula expositiva dialogada. "A troca com os estudantes nem sempre é explícita. Eles podem participar oralmente ou apenas refletir, em silêncio", explica Jesuína Lopes de Almeida Pacca, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP). De acordo com ela, para que isso ocorra, dois aspectos são fundamentais. Primeiro, o que está sendo apresentado precisa fazer sentido para a garotada e mobilizar seus conhecimentos. Segundo, é essencial que o professor conheça todos muito bem. Isso porque, enquanto fala, ele deve observar a reação deles, ver se estão atentos, com expressão de dúvida e estranhamento ou se demonstram interesse.

Levantar questões e incentivar a participação de todos, quando necessário, por vezes é um desafio. Há crianças e jovens que ficam mudos por timidez ou medo de falar algo errado. De acordo com Ana Lúcia Souza de Freitas, da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), há também os que temem as gozações dos que acreditam ser uma perda de tempo ouvir uma pessoa que não seja o professor. "Mudar esse quadro leva tempo. É no dia a dia que essa confiança do grupo é construída." Para tanto, a saída é não recriminar os falantes e questionadores e valorizar o que dizem, comentando e incorporando suas ideias ao que está sendo exposto. Isso nem sempre é simples, mas um bom preparo e muito conhecimento sobre o assunto facilitam a tarefa (leia outros segredos da boa aula expositiva no quadro abaixo).

 

 
=== PARTE 2 ====
=== PARTE 3 ====
=== PARTE 4 ====
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=== PARTE 6 ====
=== PARTE 7 ====

Quando a aula expositiva é a melhor saída

Não existe fórmula para determinar o momento de optar por essa estratégia de ensino. Ela pode abrir um assunto, ser usada no meio de uma sequência ou no fim dela. Isso é definido no planejamento, quando se avaliam os procedimentos a ser utilizados, de acordo com a disciplina, o conteúdo e os objetivos a ser alcançados, como nos exemplos a seguir:

- Apresentar informações. Essa utilização é importante quando novos dados sobre um tema que está sendo estudado se tornam essenciais para cumprir as atividades propostas. Em Ciências, por exemplo, isso funciona após um experimento, quando os jovens não conseguem explicar o que ocorreu apenas pela observação dos resultados. Para que avancem, o professor apresenta conhecimentos que eles não seriam capazes de encontrar e compreender sozinhos.

- Relacionar dados sobre um tema. Em História, por exemplo, a discussão sobre uma situação vivida no passado serve como base para compreender fatos atuais, suas causas e suas consequências. Nem sempre um texto lido ou uma atividade são suficientemente completos a ponto de levar a garotada a analisar diferentes contextos que atendam ao planejamento. A forma como o professor desenvolve o raciocínio, estabelecendo conexões entre dados aparentemente sem ligação, faz com que se torne uma referência. "O bom educador é o que consegue, enquanto fala, trazer o aluno até a intimidade do movimento de seu pensamento", diz Paulo Freire em Pedagogia da Autonomia: Saberes Necessários à Prática Educativa.

- Expor um repertório novo. Isso ocorre quando o tema em questão é algo tão distante do dia a dia dos alunos a ponto de eles serem incapazes de elaborar hipóteses. Em Língua Portuguesa, um exemplo é o momento de iniciar o trabalho com gêneros e autores não estudados. Como pedir que os jovens deem uma opinião sobre o trabalho de um ícone da literatura sem conhecer a época e o local em que viveu, a sociedade de que fazia parte e as influências que seu trabalho sofreu? Uma boa aula introdutória é capaz de envolver a sala e instigar todos a pesquisar mais sobre o escritor e a ler vários de seus textos.

- Sistematizar conteúdos já trabalhados. Funciona bem nas aulas de Matemática, por exemplo, quando as crianças já fizeram atividades de cálculos ou participaram de jogos e são capazes de compreender um conceito, como o de subtração. Muito diferente, portanto, de introduzir o conteúdo escrevendo no quadro uma definição dele.

- Retomar conceitos não compreendidos. Se após uma avaliação fica constatado que muitos na sala não entenderam um assunto, a aula expositiva se transforma em opção para revisar e refletir sobre os erros cometidos. A estratégia é útil em todas as áreas.

O nível de atenção muda com a idade

É muito difícil delimitar a duração de uma aula expositiva ou quando ela começa e termina. Ela pode se restringir à fala que antecede a apresentação de um filme ou à discussão sobre as conclusões a respeito dele. Frequentemente, as mais extensas ocorrem nas séries finais do Ensino Fundamental e no Médio. Não é à toa. A capacidade de manter-se atento e sobretudo de fazer da linguagem um instrumento de pensamento é construída ao longo do desenvolvimento, como explica Marta Kohl de Oliveira no livro Vygotsky: Aprendizado e Desenvolvimento de um Processo Sócio-Histórico. Segundo ela, com o passar do tempo o indivíduo se torna cada vez mais apto a dirigir sua atenção a aspectos definidos como relevantes. É por isso que os maiores conseguem se concentrar por mais tempo e refletir sobre o que é dito em sala.

A autora diz ainda que o aluno vai se apropriando do conhecimento à medida que o transforma em linguagem, isto é, quando consegue expressar o que aprendeu. Isso não significa, no entanto, que quem leciona para as primeiras séries do Ensino Fundamental deva excluir as aulas expositivas. A criança - apesar de se dispersar com mais facilidade - aprende ao longo da escolarização a ter uma escuta mais atenta e eficaz. Apesar de esses momentos não poderem ser muito longos, eles também são fundamentais para o polivalente, ao expor as regras de um jogo para a sala ou estabelecer relações entre diferentes versões de um mesmo conto lido, por exemplo.

Independentemente do nível em que se leciona, é preciso se preocupar sempre com o que vem após a aula expositiva. Mesmo que ela tenha sido bem planejada, contado com variados recursos e abordado informações relevantes, o trabalho não está concluído. É impossível garantir que os estudantes compreendam sempre tudo o que é exposto, como em qualquer outra situação de comunicação. "A estratégia é provocativa e promove reflexões, mas o resultado dela não é homogêneo", pondera Sueli Furlan, do Departamento de Geografia Física da USP.

Por isso, é necessário ter o cuidado de investigar o que ficou do que foi dito. "Uma coisa é como gostaríamos de ser compreendidos e outra o que dizemos efetivamente. Outra ainda mais distinta é o que foi entendido", explica Cláudio Bazzoni, assessor de Língua Portuguesa da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo. Para se certificar do sucesso da empreitada, inúmeras estratégias são válidas, como pedir a síntese individual dos aspectos mais importantes discutidos em sala e a comparação desses registros com os dos colegas. "O aluno demonstra que aprendeu quando consegue verbalizar o conhecimento", diz Bazzoni. Esse material, aliás, pode ser uma valiosa ferramenta de avaliação não só da garotada mas também do próprio trabalho docente.

Segredos da boa aula expositiva
Veja do que você precisa para garantir o sucesso dessa importante estratégia de ensino

- Dominar o conteúdo. Para demonstrar segurança e conduzir bem a atividade, estude o assunto a fundo.

- Planejar bem. Leve em consideração os conhecimentos prévios da turma sobre o tema e tenha clareza sobre o que os alunos vão aprender. Depois, articule essa estratégia a outras.

- Esquematizar as ideias a ser apresentadas. Isso ajuda a gerir o tempo da aula e a não se perder.

- Escolher os suportes mais adequados. Pode ser simplesmente o quadro - ou filmes, imagens, mapas e documentos históricos, por exemplo.

- Antecipar as dúvidas da turma. Pense em como articular a sua fala e a dos alunos ao objetivo principal da aula.

- Avaliar o que foi aprendido. Faça isso por meio de outras atividades, como uma síntese individual ou em grupo sobre o que foi discutido.

- Aprender com a prática. Busque reconhecer quando a garotada ficou mais atenta ou se se dispersou para corrigir possíveis erros de encaminhamento.

- Melhorar sua capacidade comunicativa. Avalie as próprias aulas com recursos como o vídeo e o gravador, prestando atenção em gestos e tom de voz.

Quando o tema é novo 

Alice Yoko Horikawa. Fotos: Ramón Vasconcelos e Raoni Maddalena

Ao introduzir um conteúdo desconhecido, é preciso apresentar informações essenciais à sua compreensão

A professora de Língua Portuguesa Alice Yoko Horikawa acha importante que os estudantes conheçam vários autores e sua biografia e aproveitem as sensações que a leitura traz. Com esse objetivo, ela propôs à turma do 9º ano da EMEF Dona Jenny Gomes, em São Paulo, estudar a escritora Clarice Lispector (1920-1977) e suas obras. Como o tema era totalmente novo para os jovens, ela optou por iniciar com uma aula expositiva utilizando recursos variados e enfatizando a mediação das discussões.

Após uma rápida pesquisa sobre a biografia da autora feita em sala, como uma "preparação do ambiente", a professora distribuiu um dos contos de Clarice, Felicidade Clandestina. Terminada a leitura, ela sugeriu que todos ouvissem uma gravação com a narração do mesmo texto. "Eles ficaram muito envolvidos por causa da entonação", lembra. Em seguida, mostrou em vídeo uma performance com base no conto em questão. "A atividade levou os estudantes a compreender que a autora construiu o texto com o objetivo de causar determinados efeitos."

Por meio da aula expositiva, Alice apresentou informações sobre Clarice que foram essenciais para que os jovens se aprofundassem na obra dela. A leitura simples de um de seus contos, mesmo que acompanhada por características do estilo que empregava, não teria surtido o mesmo efeito que o material selecionado por ela e sua mediação nas discussões. Nas aulas seguintes, Alice explorou outros textos da autora, agora não mais uma desconhecida para a turma.

Alice Yoko Horikawa, da EMEF Dona Jenny Gomes, em São Paulo, SP

Mais dados para a turma

Adriana Becker Conceição. Fotos: Ramón Vasconcelos e Sergio Vignes

Nem sempre basta o aluno pesquisar, fazer experimentos e questionar. Ele precisa das informações passadas pelo professor

Os estudantes do 4º ano do Colégio da Lagoa, em Florianópolis, têm um contato intenso com a natureza. Levando em conta esse contexto, a professora Adriana Becker Conceição preparou uma sequência didática de Ciências sobre o processo de desenvolvimento vegetal. Ela começou perguntando quais sementes eles conheciam e onde eram encontradas. Na próxima atividade, levou sementes de garapuvu (árvore típica da região) para análise no laboratório: todos usaram a lupa para observá-las, notaram sua textura, as mediram e depois se divertiram ao fazê-las rodopiar.

Ao discutir sobre como se cultiva uma árvore, as crianças disseram que bastava água, terra e sol. Obedecendo a essas indicações, as sementes foram plantadas. "Elas esperavam ver o resultado da germinação logo, como nas experiências com feijões." Mas algumas sementes mofaram e nenhuma brotou. "Estamos frustrados!", resumiu um garoto. Para que a turma não desanimasse e entendesse o motivo de as sementes não irem adiante, Adriana propôs uma pesquisa na internet e, em seguida, deu uma aula expositiva sobre germinação, dormência e escarificação. "Eu já tinha mobilizado e desafiado os alunos. Eles não podiam ficar sem respostas e não conseguiriam descobri-las, sozinhos, em material científico."

Nesse dia, ela explicou que a semente de garapuvu tem uma camada externa dura e que, para plantá-la, é necessário acelerar o processo de germinação retirando essa casca. Em frente à escola, todos observaram Adriana raspar a semente no chão até deixá-la no ponto certo e a plantaram novamente. "No dia seguinte, os alunos já observaram mudanças, comprovando o que tínhamos visto em sala." No fim da sequência, eles fizeram um relatório com as conclusões e os procedimentos realizados.

Adriana Becker Conceição, do Colégio da Lagoa, em Florianópolis, SC

No fim das contas

Maristela Mosca. Fotos: Ramón Vasconcelos e Augusto Ratis

Os alunos fazem exercícios, refletem, discutem e voltam à atividade para, enfim, o professor sistematizar o conteúdo estudado

As crianças do 3º ano do Núcleo de Educação da Infância - Colégio de Aplicação, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal, dominavam a adição e estavam se familiarizando com os desafios da subtração. Para que avançassem, as professoras Maristela Mosca e Ruth Regina Lima prepararam uma sequência didática que incluiu jogos, registros e sistematização dos conhecimentos construídos. Em duplas, os alunos disputaram várias partidas do jogo Batalha da Subtração (em que tinham de dizer o resultado da subtração de duas cartas do baralho) para experimentar diferentes estratégias. Enquanto isso, as professoras observavam e intervinham quando necessário.

Todos registravam os pontos ganhos e o raciocínio feito para chegar ao resultado. No fim das partidas, alguns desses textos foram discutidos coletivamente em uma aula expositiva, em que as professoras apresentaram no quadro as diferentes maneiras de resolver os problemas e elegeram as respostas mais adequadas - ou próximas do que é considerado o correto no conhecimento formal. Ao comparar respostas e discuti-las com a sala, as educadoras sistematizaram o que foi aprendido. "Se tivéssemos apenas jogado e depois partido para outra atividade, perderíamos a oportunidade de compartilhar os conhecimentos sobre a subtração. Dessa forma, os alunos não só aprenderam a fazer os cálculos de maneira correta como também as estratégias mais econômicas", afirma Maristela.

Maristela Mosca, do Colégio de Aplicação da UFRN, em Natal, RN

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