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Saiba | Coluna Felipe Bandoni


Por: Felipe Bandoni

O que as provas falam de nossas aulas?

A forma como dois professores cobram um mesmo conteúdo revela diferentes visões de ensino

A maioria dos colegas com quem convivo usa provas como principal instrumento de avaliação. Certa vez, presenciei um debate entre um professor e uma professora, ambos de Geografia, que foi revelador sobre a maneira como cada um trabalhava um mesmo conteúdo. Eles decidiam como abordar o tema po- pulação em uma prova. Ele propunha uma questão bem direta: “O que é população absoluta? E população relativa?”. Ela defendia algo mais analítico: colocou no enunciado uma tabela que apresentava o número de habitantes, a área territorial e a população relativa (número de habitantes dividido por quilômetro quadrado) do Brasil e Chile, e perguntava por que os dois países têm a mesma população relativa – de 24 habitantes/km² – se no Brasil vivem muito mais pessoas.

Um aluno que tenha apenas decorado as definições certamente se sairia bem na avaliação do professor. Já a prova da professora exigiria uma operação mental mais sofisticada que envolve não apenas conhecer as definições mas também ler a tabela e aplicar os conceitos em uma situação específica, articulando com outros conhecimentos, como o matemático, por exemplo.

Ficou claro para mim que, no fundo, as propostas refletiam a aborda- gem de cada docente na sala de aula. O professor segue um modelo que valoriza a memorização das definições e cobra a repetição delas nas provas. Ao defendê-lo, ele afirmava que os estudantes que aprendiam assim saberiam resolver diferentes situações. Mas minha experiência contradiz essa afirmação. Raramente vi alunos capazes de dar esse salto – passar de uma definição para uma operação com o conceito.

Essa abordagem também revela uma visão de ensino como mera transmissão de informações, o que, em tempos de internet, torna o professor totalmente dispensável.

Já a prova da professora indica que sua aula é mais investigativa. O papel da docente, nesse caso, é propor ques- tões que coloquem em jogo os conceitos. Esse é um caminho muito mais frutuoso e que, definitivamente, transforma o docente em peça fundamental na aprendizagem. É ele quem seleciona os desafios e conduz a discussão, diferente a cada aula.

Felipe Bandoni é professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

Foto: Tomás Arthuzzi/Nova Escola