Aula de História a bordo do navio-escola Amistad

Cópia do navio negreiro mostra como 53 escravos de Serra Leoa conquistaram a liberdade em 1839

POR:
Carla Ruas, NOVA ESCOLA
VIAGEM NO TEMPO Réplica do navio Amistad conta a saga de negros em busca de liberdade no século 19. Associated Press]
VIAGEM NO TEMPO 
Réplica do navio Amistad conta a saga de 
negros em busca de liberdade no século 19. 
Associated Press

O famoso navio negreiro Amistad está de volta aos mares. Será miragem? Delírio de marinheiro? Nada disso. Em 2008, uma cópia fiel da embarcação que foi palco de uma importante revolta de escravos no século 19 viajou pelo mundo como navio-escola, mostrando a crianças, jovens e adultos as desventuras e o triunfo de 53 africanos sequestrados em Serra Leoa em 1839 - apesar de a captura de escravos estar proibida desde 1807 - e comprados por espanhóis em um leilão em Cuba.

O projeto educativo, batizado de Atlantic Freedom Tour, foi promovido pela Amistad America, organização não-governamental dos Estados Unidos que iniciou o roteiro em junho de 2007 em terras americanas, em homenagem aos 200 anos da abolição da escravatura na Inglaterra. Desde então, o Amistad visitou os países que participaram ativamente do comércio escravista do século 16 ao 19, como Canadá, Inglaterra, Portugal, Serra Leoa, Cabo Verde e Barbados.

Trabalhei como voluntária a bordo por três semanas. Embarquei em Cabo Verde, rumo a Barbados, pronta para cumprir funções comuns aos tripulantes: receber as pessoas e ajudar na navegação.

Durante a viagem, o que mais me chamou a atenção foi a emoção dos visitantes, especialmente dos que moram em locais onde a influência do tráfico de escravos foi intensa. Em Barbados, por exemplo, não raro apareciam estudantes com sobrenomes idênticos aos dos tripulantes do Amistad do século 19.

Assim que o navio chegava a terra firme, todos os compartimentos ficavam à disposição para receber visitantes ávidos por conhecer sua estrutura e ouvir a história do Amistad original. A tripulação tem na ponta da língua datas, nomes e passagens corajosas vivenciadas pelos africanos escravizados - dentre elas, o levante em alto-mar comandado por Sengbe Pieh, nativo de Serra Leoa. Para saber tudo isso e aprender mais, sempre estávamos às voltas com livros, estudando.

A fim de incrementar as apresentações, alguns tripulantes trajavam roupas típicas da África antiga; outros, como o marinheiro Johny Camara, apresentavam hábitos da época para despertar ainda mais o interesse dos visitantes. Rodeado por ouvintes curiosos, ele ensinava a contar os números em mende, dialeto que ainda é falado em alguns pontos do continente africano. "Eta, fili, kian-wa, naeni... ('um, dois, três, quatro...')."

Durante os meses de agosto e setembro, que marcaram o fim do tour, o navio regressou aos Estados Unidos. Encerrar a empreitada nesse ponto do globo fez todo o sentido: foi lá que a aventura dos escravos se encerrou. Depois de ficarem presos por dois anos em solo americano, aguardando julgamento pela rebelião, eles comoveram o então presidente John Quincy Adams, que lutou por sua libertação e obteve autorização da Justiça para que voltassem a Serra Leoa em liberdade.

Quer saber mais?

INTERNET
Mais informações sobre o navio, a viagem e a organização não-governamental Amistad America (em inglês)

FILMOGRAFIA
Amistad, Steven Spielberg, 152 min., Paramount
Jornada pela Liberdade, Michael Apted, 117 min., Swe Filmes

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