Aprendiz profissional

Professores buscam em cursos stricto ou lato sensu oportunidades para aprofundar o conhecimento ou mudar de função na própria escola

POR:
Carolina Costa
"Muito do que aprendo no curso de pós tenho aproveitado em um projeto com estudantes do Ensino Médio"  Patrícia Crepaldi, 32 anos - Coordenadora - Rede estadual, São Paulo, SP

Aconteceu na 8ª série, no último dia de aula, quando Patrícia Crepaldi foi se despedir de uma de suas professoras. "Nunca mais vou sair da escola", sentenciou a garota, então com 13 anos. E ela praticamente não saiu mesmo - quase 20 anos depois, Patrícia se mantém aluna e é também coordenadora pedagógica e mestranda.

O dia dela é dividido em um entra-e-sai contínuo de escolas: as primeiras oito horas são dedicadas à EE César Donato Calabrez, na capital paulista, onde ela lecionava Arte no Ensino Fundamental e no Médio até o início deste semestre, quando assumiu a coordenação pedagógica. Depois de acompanhar o trabalho da equipe e receber os pais em sua sala, ela vai para a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) encontrar seu orientador no mestrado em Ciências Sociais. Entre leituras e trabalho de campo, ela dedica pelo menos três horas diárias a seu projeto de pesquisa sobre as relações raciais e o processo de embranquecimento na música popular brasileira. Quando chega em casa, no final do dia, a professora ainda tem mais um papel pedagógico a cumprir: o de estudante de Pedagogia, que ela faz em um curso a distância.

OBJETIVOS DE QUEM FAZ PÓS

Aprofundar o conhecimento em um tema específico.

Progredir na carreira ou passar a lecionar no Ensino Superior.

Se aperfeiçoar e até mudar de função.

 

 

 

Patrícia, 32 anos, não vê a hora de acabar o mestrado - mas não para ficar livre dessa agenda cheia, como muita gente poderia supor. É que ela já tem um olho no doutorado. "Sou viciada em sala de aula." Logo que começou a lecionar, ela sentiu que a graduação não tinha trazido a preparação necessária para que desenvolvesse um bom trabalho em classe. "Tenho aplicado em sala muito do que aprendo na pós." Desde 2004, ela desenvolve um projeto no Ensino Médio sobre a história de São Paulo e suas concepções estéticas: "A cada ano, montamos uma exposição sobre a cidade com uma abordagem diferente". O "vício" de Patrícia é cada vez mais comum entre os docentes brasileiros, que buscam uma formação continuada, um conhecimento mais aprofundado em algum tema de interesse específi co, um incremento no salário, a progressão na carreira ou simplesmente uma mudança na função que desempenham. Para todos esses aprendizes profi ssionais, a pós-graduação tem sido a escolha mais acertada.

Diferentes opções

Há dois tipos de pós-graduação no Brasil, stricto e lato sensu. Os termos em latim causam uma certa confusão inicial: embora stricto signifi que "restrito", é o lato sensu ("geral") que vai, de fato, promover uma formação menos abrangente. A primeira modalidade é a ideal para quem quer lecionar no ensino superior ou seguir a carreira acadêmica. E a segunda para quem quer se especializar numa área ou mudar de função - passar para um cargo de gestão, por exemplo. No entanto, há quem opte pelo stricto sensu e continue na Educação Básica - o que só faz melhorar a qualidade de nossa Educação. Na França, por exemplo, é necessário ter mestrado para dar aulas na Educação Infantil. Para não confundir, vale lembrar que o stricto concede os títulos de mestre e doutor, enquanto a lato (também conhecida como especialização) não outorga títulos. "A vantagem é o alto valor que o conhecimento proporciona para o profi ssional", diz Renato Janine Ribeiro, diretor de avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão do Ministério da Educação responsável pela avaliação dos cursos stricto sensu oferecidos pelas universidades.

 

"No mestrado, tive contato com conceitos de gestão compartilhada que comecei a aplicar ao me tornar diretora"  Luciana Marchesini Rosário Alves, 36 anos - Diretora - Rede municipal, Araraquara, SP

O mestrado e o doutorado trazem um alto nível de aprofundamento acadêmico, mas são mais demorados e dispendiosos. Se a procura é por uma especialização mais rápida e numa área bem específica, o lato sensu é o ideal. De acordo com Márcia Flaire Pedroza, vicecoordenadora da Coordenadoria Geral de Especialização, Aperfeiçoamento e Extensão (Cogeae) da PUC-SP, nessa modalidade há interessados de todo tipo: "Temos quem quer dar um upgrade na carreira, o que só almeja um aumento de salário e vê na especialização essa saída, o que deseja uma mudança de área e até aquele que é obrigado por exigência do mercado a se atualizar". Só a PUC-SP oferece 5 mil vagas para esse tipo de pós-graduação.

Para quem busca um meio-termo entre o aprofundamento acadêmico de um stricto sensu e a especificidade de um lato sensu, as universidades oferecem o chamado mestrado profissional, que desenvolve o potencial de pesquisa, mas com o objetivo de qualifi car o profissional para o mercado de trabalho. "O mestrado profi ssional forma alguém que sabe localizar, reconhecer, identifi car e sobretudo utilizar a pesquisa de modo a agregar valor a suas atividades, sejam elas de interesse mais pessoal ou mais social", pondera Janine Ribeiro. De acordo com a Capes, há 2 267 programas de pós-graduação no país, boa parte deles relacionada à área de Educação. Com tanta oferta, é natural que as pessoas fiquem meio perdidas na hora de fazer uma escolha.

BENEFÍCIOS PARA A PRÁTICA

Contato com experiências diferentes.

Possibilidade de aplicar no dia-a-dia as teorias aprendidas.

Preparação para os desafi os de uma nova função.

 

 

 

 

Por isso, os especialistas são unânimes em dizer que definir a área de interesse é o primeiro passo para tomar uma decisão. Afinal, o curso vai exigir muita dedicação, alguns anos de estudos e, se for realizado em uma universidade privada, boas quantias de dinheiro. Quem decide seguir um curso stricto sensu pode buscar uma das bolsas de iniciação científica oferecidas por órgãos como a Capes, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científi co e Tecnológico (CNPq), as fundações de amparo à pesquisa (como a Fapesp, em São Paulo, a Faperj, no Rio de Janeiro, e a Fapemig, em Minas Gerais) e, em alguns casos, as Secretarias Estaduais de Educação. "A maioria dos estudantes depende de bolsa de estudos porque os programas exigem muita dedicação", enfatiza Aline Maria da Silva, assessora da próreitoria de pós-graduação da Universidade de São Paulo (USP). O valor dessa ajuda de custo varia de acordo com o nível de especialização, mas, em geral, as bolsas de mestrado são de cerca de 900 reais, as de doutorado, 1394 reais, e as de pós-doutorado, 3,3 mil reais.

Novos rumos "É muito comum encontrar quem faz pós-graduação para mudar a área de atuação", afi rma Aline, da USP. Na Educação, é o que acontece quando um professor escolhe uma especialização em uma disciplina diferente daquela em que se graduou, por exemplo, ou faz mestrado e assume a direção de uma escola. Foi o que aconteceu com Luciana Marchesini Rosário Alves, 36 anos. Quem a vê hoje, feliz da vida na sala da diretoria da EM de Dança Iracema Nogueira, em Araraquara, a 288 quilômetros de São Paulo, não imagina que seu maior sonho já foi lecionar para universitários e não para crianças e jovens de até 14 anos, como os que ali estão matriculados. Em 1998, ela começou a dar aula para séries iniciais em uma escola pública recém-criada. Aos poucos, foi se habituando aos conteúdos de alfabetização, observando a evolução dos alunos e também a prática do corpo docente.

Cinco anos depois de ter se formado em Pedagogia, Luciana resolveu fazer um mestrado em administração escolar na USP. "A pós me deixou ainda mais apaixonada pelo ensino para crianças e adolescentes e o projeto de lecionar em faculdade ficou de lado." Ela conta que a decisão de se dedicar à gestão surgiu em uma reunião de pais, quando ensinava os pequenos: "É uma coisa marcante descobrir que a criança fala aos pais sobre o trabalho da escola". Com o título de mestre em mãos e a intenção de iniciar um doutorado em 2008, Luciana diz que se encontrou na direção. "Eu nunca fui uma diretora muito convencional, mas foi na pós-graduação que tive contato com conceitos de gestão compartilhada que hoje difundo." Ela explica que o mestrado a colocou em contato com várias experiências interessantes nessa área, em que funcionários, pais e educadores decidem em conjunto os rumos da escola. "Quando a gente fi ca só no âmbito da teoria, acaba perdendo o pé da realidade."

Quer saber mais?

Capes, www.capes.gov.br

CNPq, www.cnpq.br

PUC-SP, www.cogeae.pucsp.br

Fapemig, www.fapemig.br

Faperj, www.faperj.br

Fapesp, www.fapesp.br

Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da USP, sistemas.usp.br/apolo

Pró-Reitoria de Pós-Graduação da USP, sistemas.usp.br/fenixweb

Secretaria de Educação Superior do MEC, portal.mec.gov.br/sesu

 
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