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Como organizar o ensino em classes multisseriadas?

POR:
Neurilene Martins

Como organizar o ensino em classes multisseriadas? Crédito: Shutterstock

Crédito: Shutterstock

 

Hoje vou responder à pergunta acima, enviada por Senilita Maxwell Mulele.

Ao pesquisar sobre letramento e formação de leitores em escolas rurais por meio de relatos pedagógicos, aprendi com professoras de turmas multisseriadas que o principal caminho para organizar o ensino nessa modalidade é abordar a diferença como vantagem pedagógica, à luz do que defende Emilia Ferreiro, e realizar uma intervenção pedagógica compartilhada com a classe.

Seja em classes multisseriadas ou não, para oferecer desafios sob medida e favorecer que todos os estudantes façam progressos, precisamos romper com o ideal da homogeneidade da turma e também com as aulas centradas na exposição do docente que ensina a todos como se ensinasse a um só. As rotinas diárias na sala de aula são complexas e singulares e nos obrigam a uma compreensão ampliada dos processos de ensino e aprendizagem em uma perspectiva colaborativa e que desenvolva a autonomia dos estudantes.

Alguns educadores consideram que a multisseriação é resultado da precariedade da Educação. Mas especialistas como Rui Canário e pesquisas acadêmicas, como Escola em meio rural: uma escola portadora de futuro?, da Universidade Federal de Santa Maria Santa Maria (UFSM), ressaltam os benefícios do trabalho nessas classes. Esses ambientes heterogêneos colaboram para a inovação pedagógica desde que não estejam associados à más condições de trabalho e à degradação dos prédios escolares. Além disso, estudantes de idades e saberes diferentes têm a oportunidade de aprender uns com os outros.

Uma das preocupações do professor que atua nesse contexto deve ser a gestão do tempo didático. É importante garantir que o planejamento contemple:

  • Propostas em que todos os estudantes trabalham com a mesma atividade, para tirar proveito dos diferentes saberes circulantes na sala;
  • Tarefas distintas, em pequenos grupos, dessa vez para focalizar aprendizagens específicas, a exemplo do sistema de escrita alfabético para um grupo e o sistema ortográfico para outro;
  • Produções individuais, em que o professor pode diversificar ainda mais as tarefas, contando com a produção mais autônoma dos estudantes.

Podemos pensar, por exemplo, em um trabalho de leitura para casos em que temos crianças alfabéticas dividindo o espaço com outras que possuem hipóteses anteriores de escrita. Aqui, seria possível pedir para que as que ainda não estão alfabéticas escrevam uma lista dos títulos dos livros de contos disponíveis no canto de leitura, enquanto as demais realizam a edição do catálogo de resenhas dos livros preferidos da turma. No fim da atividade, todos se encontram na roda de apreciação para a leitura de um conto pela professora. Essas situações contemplam os diferentes níveis de conhecimento e podem ser apoiadas pela atuação de estudantes tutores, que fortalecem as possibilidades de trocas entre pares, com o acompanhamento do professor.

Dissertações, teses e artigos sobre a multisseriação podem ser encontradas no site do Grupo de Pesquisa (Auto)biografia, Formação e História Oral (Grafho), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Educação e Contemporaneidade, da Universidade do Estado da Bahia (PPGEduC/UNEB) e na Biblioteca Digital da UNEB. Como sugestão para ampliar as reflexões sobre esse universo, indico as pesquisas:
- Professoras de classes multisseriadas: condições de trabalho docente no território de identidade do Baixo Sul Baiano
- O tempo escolar e o encontro com o outro: do ritmo padrão às simultaneidades
- Histórias cruzadas de professores: memórias de letramento e de práticas pedagógicas em escolas rurais
- E o livro Educação e ruralidades: memórias e narrativas (auto)biográficas (465 págs., Editora EDUFBA, (11) 4772-0101, R$42,50)

Segundo o Censo Escolar de 2010, cerca de 93.623 turmas no Ensino Fundamental funcionam como multisseriadas, o que representa uma média de 18,14% da realidade nacional nesta etapa de ensino. Portanto, este modelo está longe de ser extinto. Que tal, então, falar mais sobre ele? Você já trabalhou com turmas multisseriadas? Que estratégias você utiliza? Para você, essa forma de organização é um problema ou uma solução? Deixe seu comentário abaixo e envie suas perguntas sobre ensino e sala de aula aqui.

Um abraço e até logo,
Neury