Entrevista com Ana Luiza Carvalho da Rocha

Conhecer a cultura e as relações sociais da comunidade ajuda a entender seus alunos e a ensinar melhor

POR:
Paola Gentile

Formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Ana Luiza Carvalho da Rocha dedica-se a analisar as relações humanas dentro da escola e da sala de aula. Interessada nas características socioculturais do homem urbano, realizou suas pesquisas de mestrado, doutorado e pós-doutorado em antropologia. É presidente do Grupo de Estudos sobre Educação, Metodologia e Ação (Geempa), organização não governamental de Porto Alegre dedicada à formação docente.

Para muita gente, o antropólogo é aquele profissional que passa uma parte de seu tempo pesquisando comunidades perdidas em regiões inóspitas e a outra na universidade, defendendo teses e criando teorias. Ana Luiza Carvalho da Rocha, porém, não se encaixa nesse perfil: ela exerce a profissão em grandes cidades, estudando as relações entre as pessoas nas escolas. Mais especificamente, no interior da sala de aula.

Seu interesse pela Educação começou em meados dos anos 1980, quando foi chamada pelo Geempa para realizar uma pesquisa com turmas de alfabetização formadas na periferia de Porto Alegre. Sua missão era relacionar a cultura escolar com a de classes trabalhadoras urbanas. Ao mergulhar no mundo das relações entre alunos e educadores, Ana Luiza percebeu que muitos conflitos que prejudicam a aprendizagem podem ser solucionados se o professor tiver conhecimentos mínimos sobre a organização da sociedade e sobre o relacionamento do ser humano com as várias comunidades das quais faz parte. "A sala de aula é constituída pelos mesmos sujeitos que vivem na comunidade, por isso torna-se um reflexo dos aprendizados e dos relacionamentos sociais que acontecem fora dela", justifica.

Em sua opinião, a visão que o educador tem de si próprio e a imagem que ele faz dos estudantes produz reflexos em sua atuação em sala de aula. E, em conseqüência disso, pode comprometer o desempenho da turma ou de alguns estudantes. Sua experiência permite afirmar que os estudos de antropologia deveriam fazer parte da formação superior do docente. Nesta entrevista à ESCOLA ela destaca que o professor deve procurar conhecer sua própria condição e cultura para não fazer julgamentos preconceituosos sobre seus alunos.

Como um antropólogo atua na escola?
Nossa função básica é observar as características socioculturais do ser humano e refletir sobre elas. Como ele se comporta, se relaciona e se organiza em sociedade. Minhas primeiras pesquisas nessa área visavam compreender por que integrantes de classes populares demoram mais para ser alfabetizados. Levantei informações sobre as condições de vida dessas comunidades na periferia de Porto Alegre e sobre a representação que a escola faz delas.

Os estudos de antropologia podem ajudar a resolver um caso de dificuldade de aprendizagem? Como?
Durante minhas pesquisas, percebi que os educadores entenderiam muitas situações que interferem no aprendizado se conhecessem um pouco de antropologia. Isso porque parte do que se ensina em classe os alunos já aprenderam na comunidade em que vivem, ainda que não tenham consciência disso. Muitos desses aprendizados precisam ser desconstruídos. Fui solicitada para resolver o problema de uma professora que não conseguia formar equipes, por causa de brigas. Isso refletia no desenvolvimento dessas crianças, que tinham dificuldade de aprendizagem.

O que pode levar crianças a ter problemas de socialização?
A educadora da qual fui auxiliar alegava que os pobres não eram sociáveis. Assisti algumas aulas antes de partir para o estudo com as famílias. Descobri que na vila popular onde viviam existiam grupos distintos: um era formado pelos moradores mais antigos; outro, pelos mais recentes; e um terceiro composto por invasores de uma área vizinha. Eles acusavam uns aos outros de roubo e de violência, animosidades que eram reproduzidas na escola: os que moravam há mais tempo na vila recusavam-se a trabalhar com os filhos dos invasores, e a professora desconhecia essa realidade.

Como as informações sobre a origem dos alunos pode auxiliar a organizar a classe em grupos?
No caso de Porto Alegre, a professora colocou juntos membros dos vários grupos sociais em jogos que exigiam a cooperação entre eles. Para vencer, os membros de cada equipe precisavam trabalhar em sintonia, fazer acordos. Dessa forma, foi anulada uma aprendizagem adquirida na sociedade que prejudicava a aquisição do conhecimento. As crianças perceberam que a escola é um lugar onde todos têm a mesma condição e que quando se quer aprender é preciso haver tolerância com a diversidade e com a heterogeneidade.

Conhecer a realidade em que vivem os estudantes ajuda o professor a ensinar melhor? Sem dúvida. Muita gente pensa que a origem social é um obstáculo natural para a aprendizagem. Mas classes populares são formadas por uma diversidade enorme de culturas, valores e etnias. É impossível tirar uma conclusão e generalizar. Com a pesquisa, a professora gaúcha descobriu a verdadeira origem e a formação da turma para a qual lecionava. De posse das informações, começou a trabalhar com ela de outra maneira.

Como deve ser o relacionamento do educador com a família dos alunos?
Quando famílias simples são procuradas pela escola logo pensam tratar-se de mau comportamento ou de notas baixas dos filhos. Ao educador cabe explicar aos pais como as crianças aprendem e se desenvolvem cognitivamente. Até para pais analfabetos isso tem significado, pois é uma forma de levar até eles o conteúdo do aprendizado. Infelizmente, reuniões desse tipo são ritualizadas e vazias. Muitas vezes a escola vai até a família para descobrir como ela vive, o que ela come etc. Isso não é necessário. O fundamental é saber como a criança adquire conhecimentos na comunidade para escolher as interferências que transformarão tudo isso em aprendizado.

Por que é comum associar dificuldade de aprendizagem com pobreza?
Geralmente o professor é de classe média, camada social que costuma ter preconceitos contra classes populares. Essa prevenção se agravou nos últimos anos com o aumento da violência. Por falha em sua formação, ele não aprendeu a se aproximar do estudante de origem simples. Então, usa o discurso da mídia sobre o aumento da violência para tentar justificar essa falta de habilidade. Quando isso já está incorporado na prática docente é necessário desconstruir esse preconceito. Também é necessário mostrar à criança que ela não é o pivete em potencial que a acusam - indiretamente - de ser.

Como é possível acabar com preconceitos que o educador tem com relação ao aluno de baixa renda?
Desvendando com ele o que está por trás de seus atos. Costumo analisar suas anotações, os cadernos de freqüência e os diários de classe. Peço para escreverem sobre os conflitos que os incomodam, narrando os fatos e os seus sentimentos em relação a eles. Quando um aluno falta muito, recorro a esses textos e percebo que os que mais faltam são aqueles sobre os quais o professor fez mais apontamentos negativos. Eles não mostram evolução no aprendizado, não mudam de grupo ou de função na equipe e a eles não são propostos novos desafios. Deve haver algo pessoal com relação a essas crianças... Então vamos procurar saber as representações simbólicas que esse professor construiu sobre elas.

O professor pode criar imagens irreais sobre determinados estudantes?
Sim. Essas imagens são produzidas e reproduzidas social e culturalmente. Começa pela imagem que o professor tem de si mesmo e de sua profissão. O de séries iniciais geralmente sente-se menos profissional que os outros, por não ter especialização. Isso o leva a reproduzir o discurso de especialistas - fonoaudiólogo, nutricionista - para justificar o fracasso do aluno e escamotear suas próprias limitações. O alfabetizador sente-se um pouco babá, por mais que se diga que seu papel vai muito além do ensinar a ler e a escrever. Ele não percebe a sua importância. Somente se conscientizando de sua identidade social e profissional ele estará apto a ajudar o estudante a descobrir a dele. É exatamente como trabalha o antropólogo: seu estudo sempre tem como referência sua própria cultura.

O fato de reconhecer preconceitos que tem com relação aos estudantes ou à família deles já faz o professor mudar sua prática?
Com certeza faz com que ele reflita sobre seu lugar no mundo e critique sua atuação. Quando ele começa a compreender as relações pessoais e sociais, começa a dizer "eu não ensinei'", em vez de "ele não aprendeu". A diferença é enorme entre as duas sentenças: uma envolve culpa; outra, responsabilidade. O professor tem dificuldade em perceber a diferença. Culpa é um problema moral e religioso. Ética e responsabilidade são questões profissionais.

O professor recebe bem análises sobre seu trabalho e sua postura dentro de sala de aula?
Fazemos provocações e às vezes pode haver resistência. Se ele levanta uma dificuldade, ou fala sobre um "aluno-problema", primeiro pergunto o que ele pensa sobre a criança. Da resposta surgem diversos preconceitos sociais e culturais que a rotulam de fracassada. Uma vez ouvi uma professora culpar as famílias desestruturadas e numerosas pela não aprendizagem. "Essas mulheres têm um monte de filhos!", ou "A mãe é prostituta e o pai, alcoólatra". Então procurei saber como eram as famílias dessas educadoras. A que falou na família numerosa havia tentado engravidar durante anos antes de descobrir sua esterilidade. Pode parecer um problema psicológico, mas é social. Toda cultura cria e reproduz valores e significados. O sujeito só consegue entender e romper determinados padrões quando ele reconhece sua cultura e os valores por ela produzidos e reproduzidos.

Cada escola deve fazer o seu próprio estudo antropológico para resolver seus problemas?
Não é preciso. A antropologia já tem grande conhecimento acumulado sobre a vida urbana. Existem vários livros e estudos nessa área. Os professores podem ler e refletir sobre esses temas e relacioná-los à sua realidade de sala de aula. 

Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA

Na Sociedade dos Indivíduos, Norbert Elias, 204 págs., Ed. Jorge Zahar, tel. (0_ _ 21) 3240-0226, 27 reais

Desvio e Divergência, Gilberto Velho, 146 págs., Ed. Jorge Zahar, 24 reais

Individualismo e Cultura, Gilberto Velho, 149 págs., Ed. Jorge Zahar, 19 reais

Para uma Escola do Povo, Celestin Freinet, 144 págs., Ed. Martins Fontes, tel. (0_ _11) 3241-3677, 21,50 reais 

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