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“Foi a melhor nomeação de Bolsonaro”, diz filósofo liberal

Filósofo e escritor, Martim Vasques da Cunha conhece obra de futuro ministro da Educação e afirma: “ele não vai ser Olavette”

POR:
Pedro Annunciato
O filósofo Martim Vasques da Cunha durante entrevista
Foto: Reprodução Youtube

Se, por um lado, a indicação de Ricardo Vélez-Rodrigues para o Ministério da Educação (MEC) despertou reações negativas e incertezas entre especialistas em Educação, por outro, representou uma vitória dos setores mais conservadores que apoiam o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).

O escritor e jornalista Martim Vasques da Cunha é um destes intelectuais que gostou da escolha de Bolsonaro. Doutor em Ética e Filosofia Política pela USP e professor da Escola Austríaca, ligada ao Instituto Ludwig von Mises Brasil, Martim garante que Ricardo possui conhecimento e vivência suficiente para o cargo, mas se mostra cético ao analisar as chances de que o futuro ministro consiga colocar em prática suas ideias para a Educação. Leia a seguir trechos da entrevista da NOVA ESCOLA com o escritor e jornalista.

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NOVA ESCOLA: Como o senhor vê a nomeação do Ricardo Vélez-Rodriguez?

MARTIM VASQUES DA CUNHA: Não conheço o Ricardo pessoalmente, mas sempre ouvi excelentes palavras sobre ele, de muitas pessoas. E eu conheço [a obra de Ricardo] porque ele faz parte de uma linha do liberalismo clássico que quase desapareceu no Brasil. Ele faz parte de uma geração de pessoas como [o diplomata e escritor] José Osvaldo de Meira Penna, [o advogado e filósofo] Paulo Mercadante, [o economista] Roberto Campos, [o historiador] Antônio Paim.

Mais do que isso, ele sabe como a Educação é estruturada. Não faz muito tempo, ele escreveu o livro Da Guerra à Pacificação - a Escolha Colombiana, que é uma coletânea de textos que explicam como a Colômbia venceu o narcotráfico por meio da disseminação da cultura com a Educação. Por isso, eu acho que de todas as escolhas [do Bolsonaro], essa foi a melhor. Nesse aspecto é melhor que o Moro [Sérgio Moro, futuro ministro da Justiça e da Segurança Pública]. E ele tem um temperamento independente pra não ficar refém. Ele não vai ser Olavette [referência aos seguidores do filósofo Olavo de Carvalho]. Apesar de defender o Escola Sem Partido, ele não é a favor desse autoritarismo no qual o projeto se transformou.

No texto em que ele elenca o que pretende fazer no MEC, Ricardo diz que vai criar um sistema descentralizado, a partir dos municípios. O senhor acha que isso é possível?

Não tem como saber porque isso não aconteceu no Brasil. O MEC de hoje ainda é muito influenciado pelo espírito do Estado Novo. O Capanema [Gustavo Capanema (1900-1985), ministro da Educação entre 1934 a 1945] centralizou todo o processo educativo. Então, se ele conseguir implantar isso, será uma coisa nova. E é um pouco o que o Bolsonaro quer fazer em todas as áreas.

Uma das coisas que eles precisam saber é que ele é um dos maiores especialistas em Tocqueville [Alexis de Tocqueville (1805-1859), pensador liberal francês]. Ele é referência internacional nesse assunto e em América Latina. A ideia de descentralização está bem baseada nas ideias liberais.

O novo ministro faz muitas críticas a essa burocracia. Como ele vê o estado?

Uma coisa que você tem que entender é que ele não está falando do patrimonialismo do Raimundo Faoro, [que tem] um conceito vago, e sim do Antônio Paim. O Faoro entende que patrimonialismo é transformar a coisa pública em privada, e vê nisso o principal motivo do nosso atraso. Já o Paim vai um pouco além. Ele argumenta que existem o patrimonialismo tradicional, dos senhores de engenho, o tecnocrata que seria representado por PMDB, PSDB e similares, e o socialista, que é o PT. Na realidade, essa ideia se baseia muito em Weber [Max Weber (1864-1920), sociólogo alemão], que está falando do estado alemão da sua época. O Paim e esses intelectuais vão transpor esse conceito para o Brasil.

Mas sendo intelectual que nunca ocupou cargos, como ele vai lidar com a estrutura administrativa?

O Ricardo é um acadêmico que não vive num mundo abstrato. Não é um intelectual de gabinete. Ele é um cara muito respeitado, ele trabalha na Universidade de Juiz de Fora (UFJF). Isso não exclui a possibilidade do rigor acadêmico. O que ele não tem é trânsito na USP, na Unicamp, nas faculdades que são esquerdistas. Mas transitar bem na universidade não é garantia de nada. O Janine [Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação] também tinha toda a bagagem e não conseguiu administrar nada.

Agora, o estado é quase um ser vivo orgânico. O Ricardo explica isso muito bem nos livros dele. Mas eu não sei dizer se ele vai conseguir fazer o que pretende porque não tenho intimidade com a estrutura burocrática. Se eles [os funcionários da burocracia do MEC] não estiverem unidos ao Ricardo, não adianta nada ele querer influenciar o MEC. Não é nem uma questão de maldade, é de cultura. Esse é o modo como Brasília funciona.

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