1º Congresso Nacional Cidade Escola: derrubando as paredes da escola

Evento em São Bernardo do Campo, em São Paulo, mostra experiências e práticas de sucesso para integrar escolas e comunidades

POR:
Gustavo Heidrich

 

Meninos do projeto Sucantando. Foto: Divulgação
Meninos do projeto Sucantando

Com uma batucada comandada por 55 alunos do projeto Sucantando, de escolas municipais de Educação Básica da rede municipal de ensino de São Bernardo do Campo, começou nesta quinta, dia 13, o 1º Congresso Nacional Cidade Escola. Durante dois dias, a cidade que fica a 20 km da capital recebe cerca de 5 mil educadores e gestores de várias partes do país para discutir estratégias de integração da escola com a sociedade.

Durante o evento, o prefeito Willian Dib assinou decreto oficial que torna São Bernardo uma cidade escola. O conceito surgiu a partir da criação da Associação Internacional de Cidades Educadoras (AICE) em Barcelona na Espanha em 1990 e reúne cidades em 35 países, signatárias do compromisso de elaborar e gerir políticas públicas que visem à integração de diversos setores da sociedade com o processo educacional.

"A palavra-chave do conceito de cidade escola é ampliação. É fazer parte de uma verdadeira sociedade da informação, acessível ao conjunto dos cidadãos, às comunidades e povos do mundo, sem nenhum tipo de distinção", afirma o coordenador do projeto cidade escola de São Bernardo, Admir Ferro.

Além da apresentação do conceito e do projeto cidade escola, o congresso reúne um diversificado conjunto de experiências de sucesso em todo país. No primeiro dia, foram mostradas três práticas. O projeto Centro São Paulo envolve alunos da rede municipal de ensino em visitas à monumentos, museus e outros pontos culturais do Centro de São Paulo. Já o projeto Heliópolis mostra o caso de sucesso na integração da EMEF Campos Salles com a comunidade carente de Heliópolis, na periferia de São Paulo. Outra experiência relatada foi o projeto Escola Aberta da Secretaria Estadual de Educação de Pernambuco, que oferece oficinas profissionalizantes, de arte e entretenimento para alunos da rede pública pernambucana.

Boa prática - O mais aplaudido pela platéia de educadores foi projeto Heliópolis. Iniciado em 1995, na comunidade da maior favela da capital paulista - que reúne 125 mil habitantes em um milhão de m² - o projeto integrou as lideranças comunitárias com a gestão da EMEF Campos Salles, uma das maiores da região, com 1.800 alunos.

Hoje, entre as conquistas do projeto, está um complexo educacional em construção nos arredores da escola. O espaço vai contar com quadras de esportes, um centro de formação profissionalizante e creches. As paredes da Campos Salles foram demolidas e as salas estão integradas. "Temos uma ala com quatro turmas de terceiro ano, conduzidas por quatro professores", exemplifica o coordenador do projeto, Braz Nogueira. O diretor da Campos Salles explica que, nesse contexto, o papel do educador muda, pois ele tem de ser um orientador que consiga ultrapassar os limites físicos de sua sala de aula. "Numa realidade difícil, como a que enfrentamos diariamente - de violência, baixos índices de aprendizagem, evasão e criminalidade - o jeito é não ter raiva ou se deixar levar pelo desânimo. Só assim se mantém o vivo o processo da educação", ensina Braz, que acumula 19 anos no magistério.

Todo o ano a escola lidera, também, uma passeata pela paz, que acontece desde 1999, quando uma estudante foi assassinada a tiros na saída de uma aula. "Sempre me perguntam como posso explicar essa integração que conseguimos. Aí eu conto a história da vez que roubaram 21 computadores que a escola tinha recém-adquirido. Todas as lideranças de Heliópolis se uniram e passamos na favela toda explicando que os computadores tinham sido roubados não da escola, mas de toda a comunidade e todos seriam prejudicados. Os ladrões foram até a escola e me pediram para devolver tudo na frente de todos", conta Braz Nogueira.

Iniciativa municipal - Para colocar o conceito em prática, a prefeitura de São Bernardo se aliou à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pretende por meio de ações integradas de esporte, cultura, saúde e bem-estar social criar uma rede cujo fim maior é a educação. "Em um contexto como brasileiro, onde temos uma parcela significativa da população que tem apenas 4 a 8 anos de estudo, precisamos descobrir estratégias de continuar o processo educacional fora das paredes da escola. E integrar ações e transformar a cidade como um todo em uma grande escola é uma saída para vencer esse déficit", acredita o professor José Roberto Perez, responsável na Unicamp pelo projeto.

Segundo a prefeitura, o programa visa um público de 1,5 milhão de pessoas e vai envolver 465 espaços públicos da cidade, em um investimento estimado em R$ 460 milhões. Estão previstas obras, como a criação de um parque educativo para crianças, a formação grupos de trabalho e ações coordenadas entre as diversas secretarias da prefeitura.

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