10 desafios sobre sexo

As situações que envolvem a sexualidade exigem jogo de cintura e franqueza. Veja como dez professores lidaram com elas

POR:
Bruna Nicolielo
As situações que envolvem a sexualidade exigem jogo de cintura e franqueza. Foto: Dercílio

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) de orientação sexual foram lançados em 1998, num contexto em que crescia a gravidez entre as adolescentes e a contaminação pelo HIV era um dos grandes temores. Cerca de 15 anos depois, esses problemas estão longe de ser superados: 19,3% dos partos realizados no país são de garotas até 17 anos e o número de jovens com Aids cresceu 33% só nos últimos cinco anos segundo o Ministério da Saúde.

As velhas questões, agora, dividem espaço com novas. A flexibilização dos costumes colocou em xeque o papel do homem e da mulher. Hoje ambos trabalham e cuidam da casa e dos filhos. As famílias ganharam diversas configurações, sendo formadas, inclusive, por dois pais ou duas mães. A tecnologia mudou o comportamento dos adolescentes, que se relacionam e expressam a sexualidade também virtualmente.

É um desafio da escola lidar com situações tão diversas no que diz respeito à sexualidade. E os exemplos são vários: uma menina se masturba na turma da creche, um garoto é alvo de gozações porque gosta de brincar de boneca, uma aluna adolescente posta fotos sensuais nas redes sociais sem considerar as consequências. A melhor forma de agir nesses casos é entender o cenário atual e estimular todos a respeitar o próprio corpo, o corpo do outro e a diversidade no mundo.

Cada faixa etária exige um modo de abordar a sexualidade, mas vale sempre estimular a expressão de ideias. "O mais recomendado é não impor opiniões, mas, sim, incentivar a turma a pesquisar e refletir, deixando de lado a transmissão mecânica de informação", diz Elizabete Franco Cruz, professora da Universidade de São Paulo (USP) e integrante do Anahi - Grupo de Estudos Interinstitucional de Relações de Gênero e Sexualidade.

Numa conversa aberta, você cria uma relação de confiança com as crianças e os adolescentes. "Ao encontrar respostas às próprias indagações, eles passam a lidar com o tema de forma madura", explica Maria Helena Vilela, diretora executiva do Instituto Kaplan e autora do blog Direto ao Ponto, que trata do assunto, no site de NOVA ESCOLA.

Atuar dessa forma ainda é complicado para muita gente. "Os docentes reproduzem preconceitos e o senso comum ao tratar o tema em classe", diz Ana Claudia Bortolozzi Maia, da Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" (Unesp). Por isso, é preciso se esforçar para deixar de lado ideias preconcebidas e se preparar para abordar o assunto sem juízo de valor, buscando informações e referências para o trabalho.




Com o objetivo de ajudar você a enfrentar o desafio, selecionamos as dez maiores saias justas sobre sexo que ocorrem na escola e buscamos professores que se saíram bem delas, de acordo com o que indicam os especialistas. Ao conhecer melhor o tema e refletir sobre ele, você ganha condições de contribuir para que crianças e jovens vivenciem esse lado da vida de forma positiva, se tornando adultos bem informados e seguros.

* Os nomes das crianças e dos jovens foram trocados para preservar a identidade deles. O nome de algumas escolas foi omitido pelo mesmo motivo.

Agradecimentos Colégio Elcana e EMEF Henrique Felipe da Costa.

1 Uma menina não para de se masturbar

Júlia*, 5 anos, se masturbava movimentando os quadris num banquinho. Paula Guedes, que leciona em escolas de Barra Mansa e Rio Claro, a 135 quilômetros do Rio de Janeiro, descartou a hipótese de coceira, pois a menina só repetia os movimentos ao se sentar ali. Quando isso ocorria, a professora convidava Júlia a realizar as atividades propostas, tentando mudar seu foco. Dizia a ela que aquilo dava uma sensação gostosa, mas que havia outras coisas para fazer na escola. Como não adiantou, Paula falou com a mãe da criança. Explicou que se tratava de uma manifestação da sexualidade infantil e sugeriu que ela negociasse com a filha quando e onde ela poderia se masturbar. A conversa surtiu efeito. Maria Helena, do Kaplan, dá outra sugestão: "É possível explicar que os genitais são uma parte privada do corpo e não devem ser tocados em público. Por isso mesmo fazemos xixi no banheiro e não em sala".

2 Vi dois garotos se acariciando no banheiro

Fátima Maria Monteiro Santos, da EMEI Amácio Mazzaropi, em São Paulo, soube por uma colega que dois meninos de 5 anos haviam trocado carícias no banheiro. Gabriel* tinha pedido para "colocar o pipi no bumbum" de João*. Ela conversou com os garotos e, sem repreendê-los, explicou que o corpo do amigo deve ser respeitado e não pode ser tocado sem permissão. Numa roda de conversa, lembrou que o uso do banheiro era individual, mas dias depois uma mãe relatou que o filho contara que Gabriel tinha pedido que "chupasse o pipi dele". Fátima a tranquilizou e disse que conversaria com as crianças e com a família de Gabriel. A ele, perguntou: "Por que você pediu isso?" e "Alguém faz isso em você?". Ele não respondeu. Ao pai, ela indagou se Gabriel tinha contato com meninos maiores, mas ele negou.

Fátima disse a todos que crianças maiores não podiam tocá-los. Na roda de conversa, perguntou quem dormia com os pais para entender se a sexualidade de Gabriel estava mais aflorada por presenciar a intimidade deles, o que se confirmou. Os pais se comprometeram, então, a tomar cuidado. Claudia Maria Ribeiro, da Universidade Federal de Lavras (Ufla), afirma que jogos sexuais são comuns nessa fase, mesmo que a criança não seja exposta a cenas de sexo. "Eles devem ser encarados como uma brincadeira. Não causam danos físicos ou psicológicos e não têm a conotação que o adulto dá." Cabe à escola definir o que é aceitável.

3 Os pequenos querem saber de onde vêm os bebês

"Estou grávido", disse um menino de 4 anos para a educadora Kátia Batista Martins, da EM Itália Cautiero Franco, em Lavras, a 243 quilômetros de Belo Horizonte. Quando ela perguntou quem cuidaria do bebê, ele respondeu: "A mãe. Tenho de trabalhar". Ela, então, retrucou: "Por que você não pode ajudar a cuidar dele?". Kátia levou a discussão para a sala toda, já que o interesse pelo tema era grande: "De onde vêm os bebês?" e "Como eles vão parar na barriga da mãe?" eram algumas das dúvidas. "Entrei pela boca e fiquei lá dentro" e "Corta a barriga, coloca uma semente lá dentro e ele cresce" foram explicações apresentadas.

A professora mostrou desenhos infantis sobre o corpo masculino e o feminino disponíveis num material de um curso de formação que havia feito e bonecos de homem e de mulher com os órgãos genitais visíveis. Em seguida, convidou: "Vamos conhecer o corpo?". Enquanto todos manipulavam os objetos, ela pediu que nomeassem cada parte e foi apresentando os nomes corretos. "O nenê pode nascer pela perereca", disse uma menina. "Isso aqui se chama vagina", ela ensinou. Depois de aprender que é possível nascer também de cesárea, saindo por um corte na barriga, a turma matou a curiosidade. "Em geral, os professores evitam falar do parto natural para não ter de mencionar a vagina. Isso é um erro. É fundamental ser claro, explicando as duas possibilidades", afirma a professora Elizabete, da USP.

4 Há indícios de que meu aluno sofreu abuso

José*, 11 anos, que tem síndrome de Down, estuda numa instituição pública de Gama, cidade-satélite de Brasília. Lívia Lima de Moraes, que lecionava para ele no ano passado, identificou mudanças bruscas no seu comportamento: ele passou a gemer e tentar passar a mão no corpo dela. Também encostava na boca uma revista em que havia a foto de uma modelo e ficava mexendo a língua. Lívia ficou aflita. "Desconfiei de abuso. É comum a criança com deficiência, nessa situação, reproduzir o que ocorre com ela própria."

A professora questionava José: "Por que você está fazendo isso?" e "Alguém faz isso com você?". O menino, que fala com dificuldade, não respondia. Ela chamou os pais várias vezes, mas eles não foram conversar com ela. Lívia, então, levou o caso à coordenação. A direção foi comunicada e a orientadora educacional os chamou novamente.

José repetia o comportamento e Lívia mudava o foco de atenção dele para outras atividades. Um tempo depois, a família o tirou da instituição e, após denúncia de um parente, a suspeita de abuso foi confirmada. O autor era o pai. O caso foi para o Conselho Tutelar e segue sob investigação. José voltou a frequentar a escola e já não apresenta o mesmo comportamento de antes.

Jovens com deficiência são mais suscetíveis ao abuso sexual e precisam receber orientações sobre sexualidade como os demais. Lívia sempre explicava a José que ninguém poderia mexer no seu corpo pedindo segredo. "O trabalho com alunos com deficiência pode ser demorado, mas surte efeito", afirma Ana Claudia, da Unesp. Ela sugere: "Com a ajuda de bonecos sexuados, eles aprendem a nomear as partes do corpo. Assim, é possível ensinar a identificar situações de abuso".

5 Um dos estudantes tem duas mães

As situações que envolvem a sexualidade exigem jogo de cintura e franqueza. Foto: Reprodução

Quando Adriane Forster, do Colégio Elcana, em Palhoça, região metropolitana de Florianópolis, soube que um dos alunos que receberia na turma do 1º ano era adotado por um casal de mulheres, se preocupou. Como planejava trabalhar a identidade e a família das crianças, buscou informações e referências para poder lidar bem com a situação. Logo que iniciou as atividades, durante uma roda de conversa, o menino disse que tinha duas mães. Uma criança reagiu: "Duas mães? Isso está errado! A gente tem pai e mãe". O garoto rebateu: "Tinha um pai e uma mãe que não cuidavam de mim. Agora, tenho duas mães que me enchem de carinho e me dão tudo de que preciso".

Adriane continuou a conversa dizendo que havia famílias de vários tipos e levou à classe O Livro da Família (Todd Parr, 32 págs., Ed. Panda Books, 11/2628-1323, 29,90 reais), que trata do tema. "Li em sala e os alunos foram se identificando", diz. As discussões seguiram durante a produção da árvore genealógica de cada um e serviram também para que ela revisse os próprios conceitos. "As famílias chegam cada vez mais diversificadas à escola. Não podemos mais ignorar isso."

6 Gozam de um garoto que brinca de boneca

As situações que envolvem a sexualidade exigem jogo de cintura e franqueza. Foto: Reprodução

Ao ouvir uma algazarra na sala do 4º ano da EM Abel Freire de Aragão, em Campo Grande, a professora de Arte Lorena Silva Martins quis saber do que se tratava. Os estudantes disseram que um dos meninos gostava de brincar de boneca. Ela perguntou: "Há algum problema nisso?", "Por que menina pode e menino não?" e "Vocês não querem ser pais no futuro?". A garotada ficou pensativa. Em seguida, ela questionou: "Quem gosta de brincar de boneca?" Um aluno disse que gostava. E, em vez de rir, o grupo concordou que era bom aprender a cuidar de um bebê.

Comum, a situação é uma oportunidade para problematizar a divisão tradicional entre os gêneros. "Há um preocupação com gestos e brincadeiras que fogem do padrão, mas há muitas maneiras de ser homem e mulher, e o sexismo não pode ser reforçado", diz Elizabete. Cabe à escola tratar os brinquedos e as brincadeiras de forma flexível, sem estigmatizar a criança por suas preferências. "É precipitado fazer inferências sobre a sexualidade pela escolha de um brinquedo ou de uma brincadeira", explica Paulo Rennes, coordenador do mestrado em Educação Sexual da Unesp.

7 A turma pergunta a hora certa de transar

"Quando deve ser a primeira vez?" A pergunta era uma das mais ouvidas por Laureliane Sales, na sala do 7º ano do CM Professora Elza Ibrahim, em Macaé, a 184 quilômetros do Rio de Janeiro. A professora de Ciências sempre esclarece que as pressões - de namorados, no caso das meninas, ou para firmar a masculinidade, no caso dos meninos - devem ser ignoradas. "Digo que o melhor momento é quando cada um se sente seguro e confiante em relação ao corpo e ao parceiro." Além disso, instrui sobre métodos anticoncepcionais e sugere que os adolescentes procurem um posto de saúde. "O preservativo deve ser associado ao diálogo, e as meninas não devem ceder à pressões para não usá-lo", diz Maria Helena.

8 Minha aluna tem uma doença sexualmente transmissível (DST)

O professor de Ciências Marcus Magarinho, da EM Acerbal Pinto Malheiros, em Rio das Ostras, a 165 quilômetros do Rio de Janeiro, se acostumou a abordar a sexualidade em classe de maneira franca. "Construir esse tipo de relação leva tempo e depende da habilidade em estimular a expressão das ideias, dos medos e das angústias dos jovens", explica Maria Helena. Essa postura facilitou a aproximação de Joana*, 15 anos, aluna do 7º ano, que o procurou para contar que tinha contraído herpes genital do namorado, com quem morava, e não sabia o que fazer. Sem repreendê-la, Magarinho falou sobre a doença e o tratamento e sugeriu que conversasse com o namorado. Também recomendou que ela fosse ao ginecologista e reforçou a necessidade de usar preservativo. Joana se tranquilizou. "Fiquei preocupado com uma gravidez, pois a doença pode provocar aborto espontâneo. Além disso, ela é muito jovem."

9 Uma estudante está grávida

Durante uma aula sobre o sistema reprodutivo humano e métodos contraceptivos no 8º ano da EE Maria José Loureiro, em Maceió, Jeane Tenório ouviu risos e brincadeiras. Um estudante comentou: "Gabriela*, isso é pra você!" Discretamente, a professora foi conversar com a menina, de 14 anos, que confirmou estar grávida. A aula expositiva se transformou num debate sobre o poder de escolha dos jovens e o direito à sexualidade. "O desafio era conscientizar a turma sobre a importância da proteção e fazer Gabriela reavaliar seu projeto de vida, impedindo outra gravidez."

No debate, ela provocou: "Por que muitos jovens têm dificuldade de usar camisinha?", "Casais que se relacionam há muito tempo precisam usá-la?" e "Como uma gravidez não planejada pode mudar sua vida?". Algumas meninas viam o casamento e uma possível gestação como meios de mudar de vida, enquanto para os meninos a gravidez da parceira funcionava como uma afirmação da sua masculinidade. Nessas situações, é preciso evitar a prescrição mecânica das formas de prevenção. Além disso, deve-se mostrar que experimentar o prazer é válido, mas que isso tem de ser feito de forma responsável. "O recomendado é oferecer ao jovem a oportunidade de pensar sobre suas escolhas e os desdobramentos delas", diz Elizabete. "Muitos já têm informação, mas acham que nunca vai acontecer com eles." A professora estimulou Gabriela a fazer o pré-natal e a não abandonar os estudos. Ela passou direto, diferentemente dos anos anteriores. Saiu da escola para dar à luz e em breve vai retomar a rotina.

10 Fotos sensuais da minha aluna caíram na rede

As situações que envolvem a sexualidade exigem jogo de cintura e franqueza. Foto: Reprodução

Juliana*, 14 anos, do 9º ano da EMEF Henrique Felipe da Costa, em São Paulo, queria agradar ao namorado. Fez fotos em poses de apelo sensual, vestindo biquíni e lingerie e enviou a ele pelo bate-papo do Facebook. As imagens começaram a circular nas páginas dos amigos dele e chegaram a pessoas que ela nem conhecia. "Soube por uma amiga que recebeu as fotos. Fiquei constrangida e com medo de que meus pais descobrissem", conta Juliana, que tinha 13 anos na época.

O episódio é um exemplo de sexting, termo que vem da união de duas palavras em inglês: sex (sexo) e texting (envio de mensagens). Trata-se de uma tendência recente e cada vez mais comum entre os jovens, que usam celulares e recursos da internet para produzir e divulgar fotos ou vídeos de seu corpo, nu ou seminu.

Ao saber do caso, a professora Jane Cristina de Souza, responsável pelo laboratório de informática, conversou com a menina. Perguntou como ela se sentia e se tinha ideia de como as fotos enviadas somente ao namorado tinham vazado. Ela disse que estava arrependida e que não sabia como as imagens tinham circulado. "O mais recomendado é não fazer julgamentos morais, e sim amparar o jovem e dar espaço para que ele expresse o que sentiu", diz Rodrigo Nejm, diretor de Prevenção e Atendimento da ONG Safernet.

Juliana não quis levar a história adiante, mas há vários encaminhamentos possíveis para esses casos. Um deles é levar os envolvidos a refletir sobre a exposição virtual. Isso minimiza o trauma e evita reincidências. É importante ainda discutir as fronteiras do corpo de cada um, a imagem que se projeta dele, o que se pode mostrar e o que se deve proteger. Perguntas como "Você colocaria fotos íntimas (suas ou de outras pessoas) no mural da escola?" e "Por que fazer isso na internet, então, que também é um lugar público?" podem levar a garotada a pensar sobre as consequências de suas ações na rede.

A escola também deve promover uma conversa entre os potenciais envolvidos - se houver suspeita de que algum estudante repassou o conteúdo. O passo seguinte é comunicar os responsáveis por ambos. Outra medida essencial é entrar em contato com o site onde o material foi exibido, solicitando a retirada imediata do conteúdo.

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