Sete perguntas e respostas sobre a política econômica brasileira atual

Explique aos alunos por que o governo decidiu mudar os rumos da economia

POR:
Aurélio Amaral

Contas de luz | Crédito Ricardo Correa

 

Durante seu primeiro mandato, a presidente Dilma Rousseff implantou uma série de medidas para estimular o crescimento do país, como a isenção de tributos e a redução da taxa de juros. Em entrevista a VEJA (VEJA 2417, 18 de março de 2015, disponível no Acervo Digital a partir de 20 de março de 2015), o economista venezuelano Ricardo Hausmann, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, afirma que o governo gastou mais do que deveria - já que a perda de arrecadação não foi acompanhada por uma redução de despesas. Sua opinião parece coincidir com a do próprio Planalto, que, no começo de 2015, anunciou um pacote de austeridade, ou seja, de controle do orçamento e da inflação, capitaneado por Joaquim Levy, novo Ministro da Fazenda. Entenda a seguir porque a política econômica brasileira mudou.


1. Como era a política econômica do primeiro mandato de Dilma?
Ela foi marcada por um pacote de estímulo à economia brasileira. Na época, o objetivo era o crescimento  de 4% por ano, mas essas medidas não tiveram o resultado esperado - em 2014 foi pouco acima de zero (0,2%, de acordo com as estimativas do Banco Central). Primeiramente, a instituição afrouxou a política monetária. A taxa básica de juros (Selic) saiu de 12,50% em 2011 para 7,25% em 2012, atingindo o menor patamar da história. Juros mais baixos estimulam o consumo e o investimento - pois fica mais barato pegar dinheiro emprestado - e, consequentemente, impulsionam a economia e a geração de empregos. Além disso, o governo, por meio dos bancos públicos (Caixa, Banco do Brasil e BNDES) aumentou muito o volume de crédito com taxas mais baixas e concedeu muitos empréstimos subsidiados. Também adotou uma série de isenções, como o IPI (sobre produtos industrializados), Cide (sobre o combustível) e IOF (sobre movimentação financeira).

2. Qual foi o balanço dessa política econômica?
Ela fez com que o desemprego ficasse abaixo dos 5%, chegando ao que pode ser considerado pleno emprego. No entanto, com juros pequenos e crédito farto, a economia sofreu uma pressão inflacionária - ou seja, um movimento de subida de preços. Isso porque, quanto maior o consumo, maior é a demanda por produtos e serviços. Se a oferta se mantém no mesmo patamar, a tendência é de escalada dos preços. Além da inflação, as contas governamentais ficaram em desequilíbrio. Com a isenção de impostos, houve perda de receita. Para compensar, seria necessário cortar despesas. Porém, pelo contrário, a administração federal aumentou os gastos públicos, principalmente para a manutenção e expansão de programas sociais. Por fim, o crescimento do produto interno bruto (PIB), conjunto das riquezas nacionais, ficou muito abaixo do esperado. A equipe econômica atribuiu a culpa ao impacto da crise financeira internacional, que impôs estagnação econômica a muitos países desenvolvidos. Críticos, no entanto, refutam o argumento comparando o Brasil a outras nações da América Latina, que tiveram desempenho superior nos últimos anos, como Chile e Colômbia.

3. Por que o aumento da inflação é prejudicial?
Porque o poder de compra das pessoas fica reduzido. Se a inflação é de 6,5% ao ano (em 2014, o índice acumulado foi de 6,41%), um trabalhador que gasta 500 reais por mês no supermercado precisará, ao fim de 12 meses, de 532,5 reais para comprar os mesmos produtos. Vale lembrar que o índice é um cálculo que acompanha as variações durante o periodo em múltiplos setores da economia. Ou seja, isso não quer dizer que todos os produtos, ao fim do ano, custam 6,5% mais. O preço de um determinado produto podem variar bruscamente de um mês para o outro - no caso de um vegetal cuja produção tenha sido prejudicada por chuvas muito fortes, por exemplo - e se estabilizar ao longo dos meses seguintes. Da mesma forma, é possível que em alguns setores, a inflação fique acima dos 6,5% - como os custos da Educação particular, que chegou a 8% - e abaixo dessa média em outras áreas, como o de transportes, que subiu menos de 4%.

4. O que o governo fez para conter a inflação?
Para impedir que a inflação estourasse o teto da meta (a meta, de 4,5% tem uma margem de tolerância para mais ou para menos de dois pontos percentuais. O teto, portanto, corresponde a 6,5%), o Brasil começou, em 2013, a subsidiar os preços do qual tem controle direto. O exemplo clássico é a Petrobras, que passou a vender combustível abaixo do valor pelo qual importava. Na energia elétrica e no transporte, reajustes foram postergados.

5. Por que, no segundo mandato, a política econômica, agora sob responsabilidade de Joaquim Levy, Ministro da Fazenda, mudou?
Apesar dos esforços, a inflação quase ultrapassou o teto da meta no ano passado e a economia pouco cresceu - a última projeção do Banco Central para 2014 foi de uma taxa de apenas 0,2%. Esse cenário trouxe desconfiança a investidores internacionais. Especulou-se, por exemplo, que o Brasil perdesse o "investment grade" - uma espécie de selo de qualidade que atesta que os fundamentos da economia do país são sólidos. Sem essa certificação, muitos investimentos feitos aqui poderiam migrar para outras nações com nível de confiança mais elevado. Foi aí que, no começo de 2015, Dilma e Joaquim Levy lançaram o ajuste fiscal.

6. Qual é o impacto do ajuste fiscal no nosso cotidiano?
Os preços administrados pelo governo deixaram de ser controlados artificialmente. Isso explica o aumento  da gasolina e da conta de luz, por exemplo. A elevação dos produtos consumidos no dia a dia, como os alimentos, é reflexo da pressão inflacionária mencionada anteriormente e tende a se estabilizar caso o pacote de medidas da atual equipe econômica seja bem sucedido. Para controlar a inflação e balancear as contas, foram anunciados o acréscimo de impostos e o corte de gastos públicos em vários setores, incluindo áreas como saúde e Educação.

7. Quais os riscos dos ajustes?
O corte de gastos é muito delicado, pois o país ainda carece de serviços públicos de qualidade em diversas regiões. Na Educação, a medida surpreendeu a todos, principalmente porque a presidente reforçou no seu discurso de posse que ela seria a prioridade das prioridades. O governo reduziu não apenas despesas correntes no setor, mas também programas sociais importantes, como FIES e Pronatec, o que tem sido criticado até por economistas mais ortodoxos.

Fonte: Bernardo Ridolfi, economista

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