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Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Alfabetização: ensinar a ler e escrever é libertar o aluno

O analfabetismo é uma das primeiras e talvez uma das mais duras formas de exclusão de nossa cidadania

POR:
Mara Mansani
Crédito: Reprodução/Facebook

Professor, você sabia que hoje, 14 de novembro, é o Dia Nacional da Alfabetização? Todo ano, quando se aproxima essa data, tiro um tempo para refletir sobre meu trabalho como alfabetizadora. Não que eu não faça isso durante o ano, mas nessa data é inevitável. É o momento de fazer uma autocrítica, uma avaliação do meu trabalho.

Ao longo dos anos, minha metodologia e minha didática na Alfabetização estão melhorando, ficando mais aprimoradas, ou seja, com mais qualidade e focadas nas necessidades de aprendizagem de meus alunos. Só que esse trabalho não ficou mais fácil ou menos complexo. Tenho clareza de que essa melhora é fruto de muito estudo, além do apoio que recebo em minha escola.

Mas ainda não tenho as condições ideais para alfabetizar. São muitos alunos em sala de aula, e isso dificulta o trabalho individualizado, exigência desse período de alfabetização. Mas apesar desse e de outros entraves, os resultados de minha turma esse ano foram bons. Fico imaginando como seria, então, se eu tivesse tudo o que preciso para fazer o meu trabalho.

Acredito que a alfabetização tem o poder de transformar pessoas. Quando você sabe ler e escrever, descobre um novo mundo de oportunidades e participação, passa a ter visibilidade na sociedade. O analfabetismo é uma das primeiras e talvez uma das mais duras formas de exclusão de nossa cidadania.

São muitas as histórias de transformação que pude presenciar proporcionadas pela alfabetização. Tanto na EJA quando na Educação dos pequenos. No início do ano, recebi uma nova aluna transferida de outra escola. Percebi a preocupação do pai e a aflição da menina logo quando ela foi recepcionada. Logo ela me avisou o motivo: "Só tem um probleminha, eu não sei ler e escrever ainda!"

No primeiro momento, confesso que não segurei o riso, mas depois a tranquilizei e disse que estávamos lá, na escola, justamente para isso, para que todos pudessem aprender a ler e escrever. Quando ela ouviu isso, abriu um sorriso de alívio.

O ano se passou e eu pude acompanhar todo o processo de alfabetização dessa aluna, que hoje lê e escreve apresentando muita desenvoltura. Recentemente, ela escreveu uma cartinha ao Papai Noel sem intervenções. Ao ler, percebi a qualidade de sua escrita no uso das palavras e no uso correto dos tempos verbais. Sem contar a clareza de suas colocações (e a habitual sinceridade) em sua mensagem:

“PAPAI NOEL

EU GOSTARIA DE GANHAR UMA RIBORNE.

AGORA VAMOS FALAR DO MEU COMPORTAMENTO. EU NÃO VOU MENTIR. CONFESSO QUE EU NÃO ME COMPORTEI MUITO BEM. POR ISSO ACHO QUE NÃO TENHO QUE GANHAR PRESENTE

PARA VOCÊ PAPAI NOEL. BEIJO.”

Sua escrita revela a apropriação do sistema de escrita e a compreensão do gênero textual bilhete. Agora, no final do ano, ela se sente capaz de fazer todas as atividades, participar das discussões dando suas ideias e opiniões. Contrariando a autoanálise franca sobre seu comportamento, acho que ela merece, no mínimo, um grande parabéns!

Da EJA, guardei várias histórias de transformação pela Alfabetização.

Uma de minhas alunas havia passado grande parte de sua vida no analfabetismo. Lembro quando ela escreveu o primeiro bilhete aos filhos, em casa. Precisava sair e deixou o bilhete na porta da geladeira. Naquele mesmo dia, chegou na escola diferente, com uma felicidade difícil de disfarçar. Perguntei o motivo e ela me disse: "Hoje eu precisei sair e deixei um bilhete em casa para os meus filhos. Tinha uns errinhos, eles riram e me corrigiram, mas todo mundo entendeu a minha ordem!"

Uma outra aluna, também da EJA, ia ao culto em sua igreja semanalmente. Sendo analfabeta, ela fingia que sabia ler o livro de hinos, mas a verdade é que ela sabia cantar todos de memória. Um dia, foi surpreendida pelo pastor, que virou o livro de suas mãos, pois ele estava "de cabeça para baixo". Na escola, aprendeu a ler e escrever, e passou a ter uma participação real em sua comunidade.

Uma das coisas que mais me emocionaram em minha carreira foi ter alfabetizado duas crianças de uma mesma família que, até então, era inteira de pessoas analfabetas. Lembro da alegria da mãe e das crianças, vislumbrando possibilidades de mudar os rumos da família. Também pude ver muitos alunos conseguindo vagas de trabalho, tirando a carteira de habilitação, entre outras coisas a partir da aprendizagem da leitura e da escrita.

Para mim, alfabetização é isso. É empoderar, libertar das dificuldades e dos cerceamentos que a vida impõe. É descobrir um novo mundo. Por isso que eu amo alfabetizar!

Vamos comemorar o dia de hoje, o Dia Nacional da Alfabetização!

Um grande abraço a todos e até semana que vem,

Mara Mansani

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