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Fundamental 2: uma etapa esquecida

Estudo coloca luz sobre as particularidades dos anos finais do Ensino Fundamental

por:
EM
Elisa Meirelles

Ao fazer uma busca na internet ou nas bibliotecas de grandes universidades, é fácil encontrar inúmeros estudos sobre os primeiros anos da Educação Básica e sobre os jovens que cursam o Ensino Médio. Mas experimente procurar informações sobre a etapa de ensino que está entre esses dois extremos: os anos finais do Ensino Fundamental. Certamente será bem mais difícil.

Deixada de lado pelos estudiosos da área, essa fase da escolarização enfrenta hoje uma série de desafios na tentativa de encontrar uma identidade própria, capaz de atender de maneira eficiente o aluno que está deixando de ser criança, mas ainda está muito longe da idade adulta. Como mostra a pesquisa da Fundação Victor Civita (FVC) Anos Finais do Ensino Fundamental: Aproximando-se da Configuração Atual, realizada pela Fundação Carlos Chagas (FCC), "não se produziram estudos nem sobre a especificidade dessa fase de ensino na escola nem sobre como essas transições afetam meninos e meninas" (leia o estudo na íntegra).

Para começar a preencher essa lacuna, os pesquisadores fizeram um grande levantamento de dados sobre o período que vai do 6º ao 9º ano, analisaram as políticas públicas voltadas a ele, foram atrás de informações sobre as transformações pelas quais os alunos passam dos 11 aos 14 anos e conversaram com estudantes e professores de quatro escolas - duas em São Paulo e duas em Maceió. "A intenção foi colocar luz em algumas das especificidades e dos desafios dessa fase e, igualmente, subsidiar novas pesquisas", explica Marina Muniz Rossa Nunes, pesquisadora da FCC, uma das autoras do estudo e orientadora educacional do Colégio Santa Cruz, em São Paulo.

Para entender os anos finais do Ensino Fundamental, vale observar quem são os alunos que por eles passam e quais os desafios dos professores (veja um panorama numérico da área na página seguinte).

 

Nem crianças nem adultos

Olhando para trás, muitos de nós lembramos como foram intensas as mudanças e as descobertas surgidas na transição da infância para a adolescência. De um ano para o outro, o estudante se vê diante de uma realidade escolar bem diferente daquele cenário seguro com o qual estava familiarizado. Não há mais um único professor, que o acompanha ao longo do dia e ajuda a guiar seus passos. No lugar dele, chegam docentes de diferentes disciplinas, novas regras e muito mais responsabilidade. 

Ao mesmo tempo, o aluno se depara com os desafios de deixar de ser criança. "É um choque porque essa é uma época em que a gente gosta de brincar, mas, ao mesmo tempo, não quer mais fazer isso. É muito difícil", comenta um dos ouvidos para a pesquisa. Começam a sair de cena as brincadeiras infantis e ganham espaço os amigos, a turma, os primeiros relacionamentos amorosos e uma gama gigantesca de descobertas. O corpo se transforma e os interesses mudam, mas tudo isso acontece em ritmos diferentes para cada um. Enquanto uma parte da turma já amadureceu física e psicologicamente, outra ainda sofre para deixar de lado as práticas infantis.

Se as diferenças já são grandes entre estudantes da mesma idade, elas se tornam ainda maiores com a presença de gente mais velha na sala. Atualmente, quase 30% dos adolescentes que cursam os anos finais do Ensino Fundamental apresentam atraso escolar, estando matriculados em séries diferentes das que seriam recomendadas a eles. "Quando há alunos mais velhos em uma mesma classe, misturam-se maturidades e interesses diferentes. Isso dilui as especificidades da etapa e fica mais difícil trabalhar o que é próprio de cada idade", comenta Marina.
 

Os desafios de quem leciona 

Os docentes precisam lidar com esse frenesi de transformações, o que fica ainda mais complicado quando não recebem apoio para isso. A pesquisa relembra que os cursos de licenciatura - responsáveis por formá-los - trazem pouca ou nenhuma informação sobre a prática de sala de aula. Quase não se discute no meio acadêmico sobre como formar um profissional que vai dar aulas tanto para um garoto de 10 anos, que acaba de deixar o 5º ano, como para um de 17 ou 18, que já faz planos para entrar na faculdade. 

Essa falta de orientação contribui para que o professor se decepcione com os estudantes que encontra nos anos finais do Ensino Fundamental. A maioria dos que foram ouvidos para o estudo reclama da imaturidade da turma, das brincadeiras, da falta de atenção e, em muitos casos, de dificuldades em entender o que é explicado (leia abaixo as declarações de docentes e estudantes) . "Esses alunos ainda não estão prontos para aprender como os educadores gostariam", explica Bernardete Gatti, pesquisadora-colaboradora da FCC e consultora técnica da FVC.

Paralelamente a esse déficit inicial, está o pouco investimento em uma formação continuada que abarque as particularidades do trabalho com o público de 10 a 14 anos. "Os educadores sentem falta de mais espaços de conversa para trocar informações. Cabe aos gestores criar esses momentos e garantir que aconteçam", defende Ana Maria Falcão de Aragão, psicóloga e professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
 

O espaço dessa etapa nas políticas

Por fim, vale observar como os anos finais do Ensino Fundamental aparecem nas políticas públicas nacionais. Embora existam muitas propostas federais voltadas à Educação Básica como um todo, não há uma preocupação com etapas específicas.

O resultado de tudo isso é uma ruptura considerável na rotina escolar da primeira para a segunda fase do Ensino Fundamental e muita indefinição sobre como organizá-la. Resolver essas questões exige conhecer mais a fundo as particularidades dessa etapa da Educação. Como aponta a pesquisa da FVC e da FCC, é indispensável aproximar os estudos acadêmicos e as políticas públicas dos temas que de fato angustiam professores e alunos.
 

Em números 

Entenda quem são os alunos e os professores que fazem parte dessa fase do Fundamental


Distribuição
Número de estudantes e docentes que fazem parte dos anos finais do Ensino Fundamental, dividido por região

Regiões
Alunos
Professores
N
1.347.576
77.192
NE
4.162.861
249.194
CO
1.022.649
113.646
SE
5.572.841
297.636
S
1.891.943
113.646
BR
13.997.870
793.889

Fonte MEC - Censo escolar 2011
 

Localização
Maioria dos alunos estuda na zona urbana

Fonte MEC - Censo Escolar 2011 

Atraso escolar
Distorção idade-série é um problema nessa etapa

Fonte MEC - Censo Escolar 2010

Faixa etária
Os professores dessa etapa têm idades variadas

Fonte MEC - Censo Escolar 2011 

Formação
A maior parte dos docentes tem curso superior completo

Fonte MEC - Censo Escolar 2011
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