Raio-x: Guiné Equatorial

Conheça a política, a economia e a cultura do país africano que foi tema do polêmico samba-enredo da Beija-Flor, a campeã do carnaval carioca

POR:
Aurélio Amaral

Malabo, capital da Guiné Equatorial. Foto: Embaixada da Guiné Equatorial/Flickr

Como mostra a reportagem de VEJA No Rio, Beija-Flor Vence com Carnaval do Ditador, a escola de samba foi campeã na avenida em 2015 homenageando a Guiné Equatorial - nação da África Ocidental que ostenta o maior PIB per capita do continente, sobretudo devido à extração de petróleo e gás e, ao mesmo tempo, alguns dos piores indicadores sociais do mundo. "O principal desafio do país é distribuir a renda que esses recursos geram e atentar para os impactos ambientais dessa exploração", diz Rosemberg Ferracini, professor associado dos Centros Estudos Africanos da Universidade de São Paulo (CEA/USP).

Para além do prisma ditadura-pobreza-exploração de recursos que costuma permear o estudo dos países africanos, a Guiné Equatorial tem uma cultura singular e uma história antiga, que se relaciona à Escravidão brasileira e à descolonização afro-asiática. E tudo isso merece ser problematizado em classe. "A relação com nosso país é um ponto importante a ser explorado, pois as parcerias econômicas entre as duas nações estão se estreitando - principalmente na área do petróleo, com a presença da Petrobrás na exploração de reservas no país. Vale discutir quais os interesses nacionais na Guiné Equatorial e como isso influencia as relações diplomáticas entre ambos", sugere Ferracini. A seguir, saiba mais sobre a nação africana que virou notícia no Brasil.

Dados gerais

Capital: Malabo
População: 757 mil pessoas (Fonte: Banco Mundial/2013)
PIB per capita: 22,3 mil dólares anuais, o maior da África, quatro vezes maior que o de África do Sul e equivalente ao de Portugal (Fonte: Fundo Monetário Internacional/FMI)

Indicadores sociais
Distribuição de renda: Cerca de 75% da população vive abaixo da linha da pobreza (com menos de 1 dólar por dia).
Expectativa de vida: 62 anos. (Fonte: ONU)
População urbana: 39.9%.
População rural: 60.1%.
Expectativa de vida: 61,8 anos (homens) e 63,8 anos (mulheres).
Índice de alfabetização (maiores de 15 anos): 97.1% (homens) e 90,6% (mulheres).
Liberdade de imprensa: 167º, em um ranking de 178 países. (Fonte: ONG Repórteres Sem Fronteiras)
Índice de Desenvolvimento Humano: 0,556, médio, ocupando a 144ª posição no ranking da ONU. (Fonte: ONU)
Mortalidade Infantil: 20% das crianças morrem antes de completar cinco anos.
Acesso à água: menos da metade da população tem acesso à água potável.
Liberdade: É um dos 10 países que lideram o ranking Worst of Worst, da ONG Freedom House. A Guiné Equatorial recebeu nota 7 (a pior avaliação) nos dois quesitos avaliados (liberdades civil e política).

Geografia física

Área: 28,051 mil km2.
Clima: Tropical.
Meses mais quentes: Janeiro-Abril (23-32°C); meses mais frios: Julho-Agosto (22-27°C).
Meses mais secos: Fevereiro-Março (media de precipitação 75 mm); meses mais úmidos: Maio-Setembro (média de precipitação: 350 mm).
Relevo: A parte continental do país consiste numa planície costeira com baixas montanhas - paisagem contrastante com a das ilhas, cuja formação é de vulcões extintos. O Pico de Santa Isabel, em Bioko, maior ilha do país, chega a uma altitude de 3 mil metros.
Vegetação: Floresta tropical, porém grande parte dela foi explorada pelo homem. O Parque Monte Alen é a maior reserva ecológica do país, abrigando gorilas, chimpanzés e centenas de espécies de pássaros.

Política
Embora oficialmente seja uma república semipresidencialista - em que o presidente divide com o primeiro-ministro e o seu gabinete a responsabilidade sobre o governo -, a Guiné tem, na prática, um presidente-ditador, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, no poder desde 1979. Aos 72 anos, tem na avaliação da revista "Forbes" uma fortuna pessoal de US$ 600 milhões - o que faz dele um dos chefes de estados mais ricos do mundo. Assumiu a Presidência do país após depôr Francisco Macías Nguema, seu tio. Uma nova constituição foi adotada em 1982. Ao mesmo tempo, Obiang era eleito para um mandato de 7 anos como presidente. Foi reeleito em 1989, sendo candidato único. Após a legalização de outros partidos, foi eleito em 1996, 2002 e 2009, em eleições consideradas fraudulentas pelos observadores internacionais, com um índice nunca menor que 95% dos votos.

Economia
A economia da Guiné Equatorial se baseia eminentemente na indústria de petróleo e gás, que responde por quase 95% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todas as riquezas do país, de acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo a Agência de Energia dos Estados Unidos (EIA, na sigla em inglês), o país é o 5º maior produtor de petróleo da África, atrás apenas de Nigéria, Angola, Sudão (incluindo Sudão do Sul) e Congo. Uma das empresas que explora petróleo na Guiné Equatorial é a estatal brasileira Petrobrás. A área de óleo e gás é a que mais interessa as empresas brasileiras, mas há também companhias nacionais que atuam no país na área de infraestrutura também têm negócios no país. Em 2013, a presidente Dilma Rousseff anistiou uma dívida de 27 milhões de reais que a Guiné tinha com o Brasil. A medida é vista por analistas como uma estratégia para expandir sua influência no país.

História
O país tem raízes históricas ibéricas. O navegante Fernando Pó descobriu o território em 1474 e até 1778 a região pertenceu à coroa portuguesa. Nesse ano, Carlos III da Espanha firmou um protocolo com Maria I de Portugal para trocar a Guiné por territórios brasileiros. Em 1969, a Guiné conseguiu a independência da Espanha sob o controle de Macías Nguema; dez anos depois, Teodoro Obiang Nguema assumiu o controle do país, que mantém até hoje.
Os Fang são a sub-etnia dominante, respondendo por mais da metade da população e controlando a política local. Grupos étnicos que habitam a região costeira, como os Kombe, os Mabea, os Lengi e os Benga, são os que tradicionalmente guardam contato com os europeus, devido às relações comerciais. Os Bubi, habitantes originais da região de Bioko, foram duramente perseguidos e mortos pelo governo de Macías Nguema e até hoje são acusados de sofrer discriminação. Todos esses grupos são parte da etnia Bantu, a mesma que veio ao Brasil durante o período do tráfico negreiro.

Religião
A principal  é o cristianismo (93%), dos quais 87% são católicos. A religião é herança da colonização espanhola. Cerca de 5% da população segue crenças locais. A participação de muçulmanos, menor que 1%, vem crescendo devido ao número crescente de imigrantes da África Ocidental e do Oriente Médio.

Língua
Cerca de 90% da população fala espanhol. O francês também é idioma oficial, assim como o português, desde 2011, e dialetos dos grupos étnicos também são falados por uma parcela da população. Na prática, no entanto, a língua portuguesa não é falada pelas pessoas nem utilizada pela administração oficial. Sua inclusão foi um pré-requisito para o país pleitear a adesão à Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) como membro com plenos direitos, em 2014. Desde 2006, já fazia parte da entidade como observador. Portugal rejeitava a adesão do país, exigindo que o português fosse uma língua de uso corrente — não apenas em decreto— e que se eliminasse a pena de morte, mas foi vencido pelos votos favoráveis de Brasil, Timor Leste, São Tomé e Príncipe e Angola. Obiang firmou acordos com Portugal para a formação de professores e de funcionários na Língua Portuguesa e se comprometeu a congelar a pena de morte. Embora a CPLP trate de temas culturais e sociais, com poucos efeitos práticos, a Guiné Equatorial busca uma presença maior na comunidade internacional, para assim ir mudando sua imagem de regime ditatorial. O país é membro também da Organização de Países Ibero-americanos.

Cultura
O futebol é um dos esportes mais populares no país. Em 2015, o país sediou, ao lado do Gabão, a Copa Africana das Nações. Em 2008, sediou a modalidade feminina do evento e sagrou-se campeão. A culinária local teve grande influência da cultura ibérica, da qual herdou a predileção por peixes e frutos do mar. Ingredientes utilizados em países vizinhos, como amendoim e semente de abóbora, também são comuns nos pratos do país.

Bibliografia
A África e suas Representações no(s) Livro(s) Escolar(es) de Geografia no Brasil
Petróleo, Desenvolvimento e Dinâmicas Espaciais na África Subsaariana, de Frédéric Monié, no livro Geografia e Geopolítica do Petróleo, de Fréderic Monié e Jacob Binsztok (orgs), 368 págs, Editora Mauad, tel. (21) 3479-7422, 58,80 reais
Dialogando Geografia Acadêmica e Escolar: o Caso do Continente Africano. Geotextos (Online), v. 02, p. 165-182, 2012

 

Fonte: Rosemberg Ferracini, professor associado dos Centros Estudos Africanos da Universidade de São Paulo (CEA/USP).

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