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Apredizagem | Língua Portuguesa


Por: Paula Salas

Vamos falar a mesma língua dos alunos?

Os gêneros digitais já fazem parte da vida de alunos e professores e serão obrigatórios com a BNCC. Que tal levá-los para a sala de aula?

Faz diferença se os seus alunos passarem pela Educação Básica sem estudarem um vídeo “detonado” ou analisarem um meme em sala de aula? Com os celulares sempre à mão, certamente a turma não precisa aprender na escola a apreciar vídeos que mostram como vencer cada fase de um jogo ou a última imagem engraçada que viralizou nas redes sociais.

Mas será que os jovens sabem buscar esses conteúdos com segurança? Conseguem distinguir o vídeo que propaga ódio e violência de outro que apenas expressa uma opinião? Estar imerso no mundo digital e navegar pela internet não significa necessariamente levar em conta as dimensões éticas, estéticas e políticas desse uso, tampouco saber lidar de maneira crítica com os conteúdos que circulam pelas redes sociais. De toda forma, os chamados gêneros digitais vieram para ficar.

Com essa premissa, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) de Língua Portuguesa reconheceu os gêneros digitais como práticas sociais e determinou sua inclusão nos currículos. A escolha de qual gênero abordar fica a critério do professor, mas um bom ponto de partida é definir o campo de atuação no qual se deseja trabalhar e, com base nisso, analisar qual texto dialoga com os objetivos de aprendizagem pretendidos, já que cada gênero mobiliza diferentes habilidades e recursos linguísticos. “O digital tem que ser incorporado como um
conjunto de ferramentas para a circulação de ideias”, afirma Roxane Rojo, doutora em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem e professora da Unicamp. A inclusão desse tipo de texto, além de motivar e engajar a turma, possibilita a autonomia e a expressão dos alunos ao torná-los, também na escola, produtores de conhecimento.

 A linguagem contemporânea – multissemiótica e multimidiática – possibilita novas formas de produzir, replicar e interagir com os conteúdos. Após a leitura de um livro ou do fim de um filme, por exemplo, é possível postar comentários nas redes sociais ou mesmo seguir diretores e escritores para acompanhar de perto seu trabalho. Também podemos produzir playlists de música, gravar um vlog, escrever fanfics, produzir e-zines, gravar vídeos sobre literatura e virar um booktuber: as possibilidades são quase infinitas.

A falta de recursos tecnológicos e a baixa qualidade da conexão são uma realidade em muitas escolas e podem ser entraves. No entanto, a BNCC preconiza o acesso à tecnologia e a criação de políticas públicas que supram essa necessidade. Enquanto isso não acontece, aproveitar ferramentas que já estejam à mão pode ser uma boa saída. Outra dica é começar por gêneros já presentes em meios impressos, como os infográficos. “Se tiver um celular, já é um bom ponto de partida para o trabalho em sala de aula”, afirma Débora Garofalo, professora da rede pública de São Paulo e colunista de tecnologia do site NOVA ESCOLA.

Se por um lado a apropriação pelos professores de gêneros que circulam na cultura juvenil pode ser um desafio, por outro é também a oportunidade de dar voz aos alunos e atuar como mediador do conhecimento. “É uma nova concepção de aprendizagem, em que o professor vai ter um trabalho mais colaborativo, de aprender e experimentar junto com os estudantes”, observa Roxane.

DO DETONADO AO CIBERPOEMA

Familiarize-se com seis tipos de gêneros digitais e confira sites e exemplos específicos para abordá-los na escola.

MEME
O termo foi criado por Richard Dawkins em 1976 e se refere a uma ideia ou imagem que tenha uma rápida repercussão. Geralmente, o meme é formado por um pequeno texto acompanhado de uma imagem ou gif.

Abordagem possível: O gênero se aproxima da charge. Com base na paródia, trata de temas atuais e é um bom ponto de partida para explorar a ironia. Além disso, entender o meme requer atenção ao contexto.

Exemplo: Museu de Memes


INFOGRÁFICO
É um texto visual: une informações textuais, gráficos, imagens e ilustrações. No meio digital, pode ser interativo.

Abordagem possível: Explicativo, o infográfico é muito usado em produções jornalísticas e científicas. Em sala de aula, o exercício de criação de um infográfico ajuda os alunos a aliar imagens e informações para explicar conteúdos mais complexos de forma lúdica e concisa.

ExemploComo é a creche ideal, segundo o MEC?

TRAILER HONESTO
Geralmente produzido por fãs, diferencia-se do trailer tradicional ao apontar aspectos negativos e fazer comentários críticos.

Abordagem possível: Semelhante a uma resenha crítica, a criação de um trailer honesto envolve argumentação e seleção das cenas que dialoguem com o ponto de vista defendido. A escolha do filme pode ser livre, o importante é que o aluno se sinta à vontade para criar.

Exemplo: Canal no Youtube "Trailer Honesto Brasil"

CIBERPOEMA
São poesias criadas para o meio digital, que brincam com o visual e com a interatividade. Além do texto, pode ser composto de animações, imagens e sons.

Abordagem possível: Próximo da poesia visual, é possível seguir essa linha para evidenciar os recursos gráficos utilizados, a preocupação com a musicalidade e com a disposição na página. Explore ciberpoemas para que o aluno perceba as características e possa comparar com outros tipos de poesia.

Exemplo: Ciber & Poemas

PLAYLIST COMENTADA
É uma sequência de músicas intercaladas com textos de cunho explicativo ou opinativo que podem ser escritos ou orais.

Abordagem possível: Leve em conta as preferências dos alunos, mas é uma oportunidade de tirá-los da zona de conforto e aumentar o repertório deles ao propor, por exemplo, playlists comentadas com músicas que falam sobre discriminação. Esse gênero digital trabalha ainda habilidades de curadoria e argumentação.

Exemplo: Releituras musicais

DETONADO
Relacionado aos games, é um vídeo que explica o passo a passo para ultrapassar etapas de um jogo. Com o uso de capturas de tela ou cenas do jogo, é possível narrar as instruções ou colocar legendas.

Abordagem possível: O detonado aproxima-se dos textos instrucionais, é uma espécie de manual em vídeo. Pode-se trabalhar o imperativo, verbos no infinitivo e no futuro do presente. Além disso, o gênero digital usa linguagem clara e objetiva.

Exemplo: Vídeo no Youtube do canal ONoobGamer

Fontes: Roxane Rojo; Débora Garofalo; Maria José Nóbrega e Cláudio Bazzoni, assessores pedagógicos do Time de Autores da NOVA ESCOLA. Bibliografia: Jogos Eletrônicos e Ensino de Língua Portuguesa: Algumas Reflexões (Andréa Pisan Soares Aguiar) e O Texto Instrucional como um Gênero Textual (Adiane F Marinell; Odete Maria Benetti Boff e Vanilda Salton Koche).

Ilustrações: Lila Cruz


NA BNCC

Habilidade: EF89LP02 - Analisar práticas e textos pertencentes aos gêneros da cultura digital envolvidos no trato com a informação e opinião, de forma a possibilitar uma presença mais crítica e ética nas redes