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Em foco | Políticas Públicas


Por: Pedro Annunciato

Como fazer o Ideb
avançar mais rápido?

O país, mais uma vez, não alcançou as metas para os anos finais do Fundamental. Saiba as razões e conheça experiências de redes que atingiram bons resultados

EM GOIÂNIA: As competências leitoras sâo foco do A. Raimundo Gomes da Frota, que teve melhor evolução do estado no Ideb. Crédito: Weimer Carvalho/Nova Escola

Entre os desafios do Ensino Fundamental 1 e os dilemas do Ensino Médio, existe uma etapa da Educação Básica esquecida, mas não menos preocupante. Pela terceira vez consecutiva, a nota dos anos finais do Ensino Fundamental no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) ficou abaixo da meta prevista para 2017. Melhoramos um pouco: o país passou de 4,2 para 4,4, mas ficou 0,3 ponto abaixo da média prevista, de 4,7, e consequentemente mais distante dos 5,2 sonhados para 2021.

O resultado chama a atenção para o fato de o Ensino Fundamental 2 não acompanhar os avanços recentes nos anos iniciais, que nunca ficaram abaixo das metas. Afinal, o que está acontecendo?

Para compreender as razões que atrapalham a melhoria dessa etapa, a análise dos poucos estados que conseguiram avançar pode ser útil. Rondônia, Amazonas, Ceará, Pernambuco, Alagoas, Mato Grosso e Goiás foram os únicos que cumpriram as metas – embora todos os estados tenham crescido, com exceção de Minas Gerais.

Entre eles, Goiás foi o que mais avançou. Lá, o Ideb aumentou 53% em dez anos, passando de 4,1 para 5,9. “Criamos um modelo de Educação pública que trabalha com um currículo de referência e um sistema de avaliações que não se restringem à rede estadual”, conta Marcelo Jerônimo, gerente de gestão pedagógica da Secretaria de Educação de Goiás. Ele explica que cerca de 70% dos municípios, especialmente os com menor população, aderiram à adoção de um currículo unificado para todas as escolas e um calendário de avaliações nos três primeiros bimestres. “As provas resultam num diagnóstico individualizado que fica pronto em sete dias, o que permite aos professores identificarem rapidamente as deficiências e ajudar os alunos”, diz Marcelo.

O CE Dr. Antônio Raimundo Gomes da Frota, em Goiânia, teve a melhor evolução no estado, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). O sucesso é atribuído a duas caraterísticas: “Temos ensino integral e um plano de avaliação diagnóstica semanal, apoiado pela secretaria”, diz o diretor Werciley Silva.

ENSINO INTEGRAL: Alunos em aula de robótica no CE A. Raimundo Gomes da Frota, em Goiânia. Crédito: Weimer Carvalho

Toda segunda-feira, os professores aplicam aos alunos uma atividade diagnóstica. Os resultados são lançados num sistema da secretaria que emite um relatório sobre cada estudante. Na quarta-feira, esse relatório é analisado em conjunto pelos professores e coordenadores pedagógicos, que estabelecem um plano de ação para os alunos com dificuldades, aplicado nas aulas do contraturno. “Não deixamos que os problemas se acumulem”, justifica Werciley.

 

Outro estado que alcançou resultados relevantes por meio de uma política de avaliações rigorosas e constantes foi Alagoas, com destaque para uma cidade: Coruripe, a 85 quilômetros de Maceió. A nota do município chegou a 6,3 – 3 pontos a mais que a média brasileira. “Trabalhamos o ensino com base no diagnóstico e traçamos metas e objetivos a ser alcançados, tudo isso com prazo”, explica Maria Marques, gerente administrativa e pedagógica da secretaria municipal. O planejamento dos prazos e metas é feito com as escolas, por meio do trabalho de um coordenador-articulador, que faz a ponte entre a escola e a secretaria.

Coordenadora pedagógica na EMEB Engenheiro Guttenberg Breda Netto, em Coruripe, Eliana Elias dos Santos explica que “o coordenador-articulador acompanha de perto o professor, para ajudar no que for necessário”. Eliana ressalta como uma medida importante a adoção de cadernos de reforço em Matemática e Língua Portuguesa com base nos descritores da Prova Brasil, além de aulas de reforço para os alunos do 4º, 5º, 8º e 9º ano. A cada 15 dias, os estudantes fazem simulados online e os professores recebem formação para aplicar os materiais

Mas nem todas as escolas que se destacam possuem um currículo estendido ou estão ligadas a grandes projetos da sua rede. No Rio Grande do Sul, por exemplo, que ocupa o modesto 14º lugar no ranking do Ideb para os anos finais, está uma das escolas com maior nota no país. É a EMEF Santa Cruz, em Farroupilha, que em 2017 alcançou a nota 7,6. A grande sacada da equipe pedagógica foi planejar um currículo dedicado à leitura e interpretação de texto com base nos próprios descritores da Prova Brasil. “Nossos alunos tinham dificuldade com questões de múltipla escolha, e isso tinha a ver com interpretação de texto. Fomos ajustando o currículo e passamos a oferecer reforço semanal. Não é para o Ideb, é para a aprendizagem dos alunos”, conta a diretora Flávia Zanfeliz Zangalli. O reforço é facultativo e a adesão é grande.

EM CORURIPE: Eliana dos Santos (centro) conta com a articuladora para ajudar os professores. Crédito: Weimer Carvalho

 
 

Tem saída?
Os exemplos de Goiás, Alagoas e do Rio Grande do Sul mostram como algumas redes buscam avançar nessa etapa historicamente esquecida no país. Pesquisadores da Fundação Carlos Chagas (FCC) fizeram um estudo, publicado em 2012 pela Fundação Victor Civita (FVC), no qual constataram que tanto o MEC quanto as redes estaduais possuem pouquíssimas políticas públicas focadas nessa etapa. “E, de lá para cá, pouca coisa se alterou”, afirma a pesquisadora da FCC Patrícia Albieri de Almeida, uma das autoras do estudo.

A desatenção com o Ensino Fundamental 2 remete à própria formação dessa etapa. O estudo da FCC lembra que, até 1971, a Educação obrigatória incluía somente os quatro primeiros anos, o chamado Ensino Primário, que era seguido pelo Ginásio, no qual poucos alunos ingressavam. Mesmo depois de 1971, essa etapa só era acessada por quem passava em um exame de admissão.

A partir das décadas de 1980 e 1990, o ginásio foi aos poucos se universalizando, mas a integração das duas etapas não aconteceu e resultou “na reprovação e na evasão generalizada entre a 4ª e a 5ª série”, segundo o estudo.

Além disso, enquanto a Educação Infantil e os anos iniciais são uma atribuição quase inteiramente dos municípios e o Ensino Médio dos estados, a rede de escolas de anos finais está dividida praticamente ao meio, o que torna mais difícil articular políticas integradas para a etapa.

A secretária de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), Kátia Smole, reconhece que os anos finais, hoje, carecem de atenção: “De modo geral, se você pensar em investimentos grandes na formação continuada de professores, nun ca foi feito um esforço com a mesma dimensão com que se faz para alfabetização”. Para ela, o papel do MEC é colocar a discussão na agenda e investir mais em pesquisas na área. Essa desarticulação perdura até hoje, apesar dos índices de reprovação e evasão terem caído. “O fato de haver um crescimento maior nos anos iniciais não significa que os problemas dessa etapa estejam resolvidos. Há crianças com muitas dificuldades, que encontram muitos obstáculos na adaptação ao modelo do Fundamental 2”, alerta Ocimar Munhoz Alavarse, professor da Universidade de São Paulo (USP).

Uma das razões apontadas para o baixo desempenho do Fundamental 2 no Ideb pode estar justamente nesse ponto. A Prova Brasil cobra essencialmente, leitura e escrita, em Língua Portuguesa, e noções básicas de Matemática. “No entanto, a nossa cultura escolar instituiu que essas competências são uma atribuição dos professores dos anos iniciais. Dificilmente se encontra uma escola de Fundamental 2 que trabalhe sistematicamente leitura e escrita”, explica Ocimar.

Em resumo: a Prova Brasil do Fundamental 2 avalia algo que não é ensinado nessa etapa. Os docentes dos anos finais não dominam os descritores da avaliação e partem do pressuposto de que a turma já sabe ler, escrever e fazer cálculos. E há mais um aspecto que prejudica essa etapa: muitas vezes, a escola dá como natural a adaptação dos alunos ao novo ritmo, quando, na verdade, eles precisam aprender a se organizar, lidar com diferentes professores e estudar sozinhos.

Estados como Goiás e Alagoas, a exemplo das escolas mostradas nesta reportagem, buscam suprir essas lacunas com uma política de avaliação e reforço escolar. E embora os resultados estejam aparecendo, avaliações externas são sempre uma discussão polêmica. “O Ideb é ‘um’ indicador da qualidade do trabalho escolar, não se pode olhar para ele como a única medida”, diz Ocimar. Inês Kisil Miskalo, gerente executiva de Educação do Instituto Ayrton Senna, defende o uso das avaliações, mas critica o vínculo delas a bônus ou de salários. “Elas precisam ser usadas como um instrumento pedagógico”, pondera.

O IDEB EM NÚMEROS