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Apredizagem | Aprendizagem


Por: Débora Lublinski

Professora, de onde
vêm os bebês?

A dúvida desperta a curiosidade em diferentes fases do ensino. Do infantil ao Fundamental, é importante responder com objetividade e naturalidade

E se essa pergunta aparecer em sala de aula? Até que ponto os educadores devem ir para explicar a concepção dos bebês? Mais: é papel da escola abordar esse assunto? E como deve ser conduzido?

Professora do 2º e do 3º ano do Ensino Fundamental da escola Lourenço Castanho, em São Paulo, Denise Mandowsky admite que se sentia desconfortável e apreensiva caso tivesse que lidar com essa questão durante suas aulas. Como faz parte do currículo nessas séries falar sobre o ciclo de vida dos animais, ela conta que se preparou para não ser pega de surpresa. “Quanto mais percebiam o meu desconforto, mais os alunos me desafiavam com esse tipo de indagação. Conversei com colegas experientes e recolhi alguns depoimentos para saber como agir. Com o tempo, fui ficando mais relaxada, aprendi a responder com naturalidade e achei a medida de até onde podemos responder para essa faixa etária”, diz Denise.

Seja durante uma aula sobre o ciclo de vida dos animais, sobre o corpo humano, seja em qualquer contexto ao longo do aprendizado escolar, é natural as crianças, em diferentes idades, mostrarem curiosidade sobre a origem dos bebês. Para Margarete Polido, especialista de Ciências do Time de Autores NOVA ESCOLA, a abordagem em material didático sobre o sistema reprodutor é feita sempre por um viés biológico. Histórias como a da cegonha, do repolho ou outra “mentirinha” devem ficar de fora, priorizando as nomenclaturas corretas dos órgãos masculinos e femininos assim como os termos científicos. “É claro que tudo vai depender da idade da criança. Ninguém precisa falar sobre a relação sexual propriamente dita no Fundamental 1 e muito menos na Educação Infantil”, pondera. “Mas é importante que esse assunto não vire um tabu”, acrescenta.

Quando uma dúvida sobre sexualidade surge, Margarete aconselha primeiro a entender o que de fato o aluno deseja saber. Também vale tentar descobrir o que exatamente a criança já compreende sobre o assunto, antes mesmo de ir dando aquele discurso longo e cheio de detalhes. “Muitas vezes uma resposta objetiva, de acordo com a maturidade de cada grupo, é o suficiente. Dessa forma, evita-se antecipar pontos que podem não ser pertinentes para aquela faixa etária”, explica. Saiba como abordar o tema nas diferentes fases:

Na Educação Infantil, a curiosidade é pela barriga da mamãe

Para os pequenos, é comum que os questionamentos sobre a origem dos bebês venham atrelados à chegada de um novo membro na família. “Além da curiosidade natural sobre o mistério da vida, nessa fase há forte componente emocional, já que será necessário dividir a cena com outro ser que está a caminho”, afirma Margarete Polido.

Foi o que aconteceu na turma com alunos de 3 anos da professora Roberta Valentim, da escola Carandá Vivavida, também em São Paulo. No grupo, havia muitas crianças prestes a ganhar um irmãozinho e, para completar, a própria professora ficou grávida. Rapidamente, a questão “De onde vêm os bebês?” tomou conta das rodas de conversa. Observando o interesse dos pequenos pelo tema, Roberta decidiu sistematizar um projeto para compreender melhor não só a barriga da mamãe mas também ajudar seus alunos a mensurarem o próprio crescimento e, por consequência, elaborarem a chegada do irmão.

 “As crianças queriam saber como o bebê entrou na barriga da mãe, o que ele comia, se mamava no peito ‘por dentro’, se fazia xixi ali... Vi que seria interessante ampliar o tema mesmo com crianças pequenas, respeitando o entendimento deles”, conta Roberta. De uma forma lúdica, a professora propôs brincadeiras como consultar o médico, examinar a barriga e cuidar de bebês. As crianças “analisaram” exames de ultrassonografia e uma mãe ginecologista e obstetra apresentou um sonar à sala de aula para mostrar que o aparelho servia para escutar o coração. “Além disso, as crianças trouxeram objetos de quando eram bebezinhos, como mamadeira ou chupeta. Depois, passei a pedir roupinhas ou sapatinhos de recém-nascidos e peças que eles usavam naquele momento, aos 3 anos. Com a comparação, ficou claro às crianças como elas tinham crescido e estavam aptas a dar lugar ao novo membro da família”, explica Roberta.

Caixinha de perguntas no Fundamental 1

Curiosidade de um único aluno ou do grupo todo? A pergunta merece uma resposta coletiva ou uma conversa individual? Quando o professor pede para os alunos escreverem suas dúvidas e colocarem em uma caixinha de perguntas, fica mais fácil “medir” até onde vai o entendimento de cada uma das crianças em relação ao assunto. “Na maioria das vezes, os alunos estão em diferentes fases de maturidade e, por isso, nem sempre é interessante antecipar dúvidas individuais para a classe toda”, diz Margarete Polido. Cabe ao professor fazer uma triagem das questões e avaliar a importância de respondê-las em voz alta. “Por outro lado, abrir espaço para os alunos perguntarem com liberdade, mesmo que anonimamente, pode até revelar sinais importantes, como casos de abuso sexual. É uma forma eficiente para ficarmos atentos”, sugere Margarete.

ESCOLA X FAMÍLIA: COMO CONCILIAR VALORES?

Conflitos podem acontecer quando a origem dos bebês e a sexualidade aparecem em sala de aula, mas a discussão não pode ser tabu

Tenha uma conversa franca com a família
Não é raro alguns pais acreditarem que tratar o conteúdo que aborda o corpo e a reprodução humana estimula uma curiosidade precoce sobre o assunto. Converse sobre o papelda escola de informar e os limites.

Atenha-se aos conceitos biológicos

Use as nomenclaturas corretas para os órgãos sexuais feminino e masculino já no Fundamental 1. Fale sobre o tema com naturalidade, respeitando o entendimento dos alunos do grupo e a idade deles.

Cuidado ao selecionar os materiais

Pesquise em fontes confiáveis os livros e materiais mais adequados para tratar o assunto. Na dúvida, converse seriamente com a gestão escolar ou com especialistas no tema para definir o melhor conteúdo para a faixa etária.

Fontes: Margarete Polido e Lilian Bacich

O que muda com a Base?

Se antes da BNCC o conteúdo que aborda o Sistema Reprodutivo Humano era dado no 5º ano do Ensino Fundamental, agora, com a reforma, a matéria não é mais apontada como “básica”. Ela entra como parte diversificada e fica a critério de cada escola ensinar ou não esse assunto no Fundamental 1. “Quanto ao Fundamental 2, a Base contempla questões ligadas à puberdade, aos métodos contraceptivos e às DSTs, no 8º ano”, observa Margarete Polido.

“Faz sentido dar esse conteúdo nessa fase de transformação. As aulas de Ciências vêm colaborar com o autoconhecimento de cada aluno e, por meio de conceitos biológicos, a turma pode construir saberes juntos”, analisa Nadia Starikoff, professora de Ciências da Escola Nossa Senhora do Morumbi, em São Paulo. A sala de aula torna-se, então, um espaço aberto para o diálogo, garantindo liberdade para esclarecer dúvidas e curiosidades sobre o tema.

É comum aparecer discussões sobre homossexualidade, hermafroditismo, aborto, entre outros tópicos ainda considerados tabu, que podem ser apresentados e debatidos com a ajuda de leituras, seminários e estudos de caso.

“Procuro abordar cada conceito com naturalidade, sem julgamentos ou polarização. Mas não há necessidade de instigar um assunto que vá além do entendimento do grupo. Faz parte do papel da escola e do educador ensinar os cuidados com o corpo para que cada aluno tenha autonomia e segurança e, dessa forma, possa tomar decisões adequadas quando o assunto é sexualidade”, considera Nadia.

PARA SABER MAIS

Conheça dois livros que podem ajudar os educadores e as famílias a iniciar a conversa

De Onde Vêm os Bebês, Andrew C. Andry e Steven Schepp Editora José Olympio
Publicado em 1969, o livro continua atual e é indicado para crianças de 8 a 11 anos. A obra foi elaborada por uma equipe multidisciplinar do Conselho Americano de Informação e Educação Sexual e aborda o tema de forma objetiva, mas delicada.

Mamãe Botou um Ovo, Babette Cole Editora Ática
A autora e ilustradora britânica trata o assunto com muito bom humor. Papai e mamãe inventam um monte de histórias para contar aos filhos como nascem os bebês... Mas as crianças já sabiam toda a verdade!

Ilustrações: Priscila Barbosa