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Matéria de capa | Diversidade


Por: Beatriz Vichessi

Vamos combater o preconceito?

Histórias de alunos e professores discriminados na escola não podem mais ser aceitas. Para a escola ser diversa, de qualidade e para todos, ela precisa combater o ódio e o preconceito

"Já fui xingado de baleia e de lixo na escola, como se eu fosse uma pessoa inferior.” Essa é só uma das declarações de Michel Monteiro Fritschy Atie que deveriam atingir a sociedade, ou seja, cada um de nós, como se fosse um soco no estômago. O garoto de 11 anos é aluno do 5º ano da Escola Lourenço Castanho, em São Paulo, e conta não ser mais alvo de gordofobia – intolerância a pessoas gordas – e violência dos colegas, mas ainda guarda más lembranças: ficava triste, chorava em casa para encontrar um pouco de alívio e, às vezes, tentava devolver as agressões, procurando defeitos nos colegas para revidar as ofensas que recebia. Gordofobia, assim como racismo e outras formas de discriminação, é preconceito.

"Fui chamado de lixo, como se fosse inferior. As pessoas deveriam se preocupar com elas mesmas”,  Michel Monteiro Fritschy Atie, 11 anos
Crédito: Tuane Fernandes

Michel está bem com o seu corpo e encontrou na dança uma forma prazerosa de exibi-lo e gostar mais de si mesmo. Fã de Michael Jackson, ele se apresenta em shows de talentos e em festas. Sua saúde? Vai bem. O que o garoto não entende é a raiva que as pessoas podem ter contra quem não tem o corpo magro. “As pessoas deveriam se preocupar com elas mesmas, não comigo nem com quanto eu peso”, sugere. Infelizmente, nem sempre isso é o que acontece. “O inferno são os outros”, a célebre frase do filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) espelha a natureza da intolerância. “Quando não sou capaz de dialogar com o outro, ele se torna insuportável para mim, vira meu inferno particular”, explica Selma Pato Vila, historiadora, psicanalista e gestora da Escola Deep Psicanálise, em São Paulo.

Somos todos tão diferentes uns dos outros em tantos aspectos – não existem duas impressões digitais iguais – e, ao mesmo tempo, tão semelhantes: todos somos seres humanos. Isso só já deveria bastar para que respeito e tolerância fossem imperativos. Mas, definitivamente, estamos longe do ideal e a escola não está imune do cenário de falta de tolerância. Microcosmo da sociedade em que vivemos, ela reproduz padrões sociais, gera e copia preconceitos e, consequentemente, discrimina minorias. “A escola é o primeiro grande palco público, onde a criança se depara com a sociedade e tem de lidar com relações externas”, diz Selma. Até então, no ambiente familiar, está circunscrita a um cenário controlado. Os pequenos têm de ser levados a começar a aprender que podem até não gostar de alguém, mas precisam respeitar o direito que cada um tem de ser como é. “É assim que assinamos o contrato social, ganhamos o chamado ‘verniz civilizatório’”, explica a psicanalista.

De acordo com a pesquisa Viver em São Paulo – Diversidade 2018, da Rede Nossa São Paulo, escolas e faculdades paulistas são o terceiro lugar onde as pessoas presenciam ou vivem situações de preconceito de gênero e de orientação sexual (39% das respostas). A realidade é bem diferente do que Renato Cardoso, 16 anos, aluno do 3º ano do Ensino Médio da EE Visconde de Itaúna, em São Paulo, diz ser o ideal: “A escola deveria ser um lugar para as pessoas se sentirem livres. Não de terem medo de ser quem são”. Ele é transexual e atualmente frequenta uma escola em que conseguiu ser matriculado usando o nome social. Onde estudava antes, era alvo de discriminação constante. Alguns professores, conta, mesmo sabendo de sua orientação, insistiam em chamá-lo pelo nome civil, que constava nos diários de classe, já que a secretaria se recusou a matriculá-lo usando o nome escolhido por ele. “Faziam para me provocar e me intimidar”, lembra Renato.

"Quando assumi ser transexual, estudava em uma escola onde o preconceito era velado. Negros, pessoas com deficiência e imigrantes também eram discriminados lá", Renato Cardoso, 16 anos
Crédito: Tuane Fernandes/Nova Escola

Exemplos aprendidos e ensinados

Ninguém nasce preconceituoso. Essa é uma ideia que desenvolvemos na infância, principalmente por influência da família e da escola. O que a criança escuta de familiares e outros adultos de referência, como professores, para ela é correto. “Quando pequenos, não temos como romper com preconceitos ou nos ancorar para defender ideias contrárias ou questionar o que acontece ou é dito ao nosso redor”, diz Selma.

O discurso dos adultos pode ser reproduzido de maneira cruel. Alejandra Moreno, 11 anos, é venezuelana e migrou para o Rio de Janeiro, como tantos outros venezuelanos que deixaram a terra natal devastada pela crise. Ela sofre com a xenofobia, a aversão aos estrangeiros ou pessoas de outra cultura, na escola em que estuda. “Algumas meninas dizem que estamos roubando o emprego dos brasileiros. Fico triste e com raiva.”

"Riem de mim se falo coisas erradas em português ou com sotaque. Pensam que não estou ouvindo", Alejandra Moreno, 11 anos
Crédito: Valda Nogueira

Para garantir espaço para todos, seja na escola, seja na sociedade em geral, não basta promover a inclusão. A palavra-chave é convívio, dando atenção às relações desrespeitosas e destrutivas e fazer mediação para desconstruí-las. “O discurso de que diversidade é algo maravilhoso é insuficiente. A perspectiva pedagógica contemporânea enxerga a diferença como algo que favorece o desenvolvimento humano”, diz Rodrigo Hübner Mendes, fundador do Instituto Rodrigo Mendes.

A ideia de escola para todos está registrada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948. Ao visitar a Lei de Diretrizes e Bases para Educação (LDB), de 1996, também é possível encontrar, entre os princípios da Educação, o respeito à liberdade e o apreço à tolerância. E, ainda de acordo com a Constituição de 1988, o artigo nº 227 determina afastar os jovens da discriminação, violência, crueldade e opressão. O Plano Nacional de Educação (PNE), de 2014, também trata da questão, falando da redução das desigualdades e da valorização da diversidade, caminhos imprescindíveis para a equidade. Mais recente, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) trata da perspectiva de educar os jovens para respeitar a diversidade, sem discriminação ou preconceito. Taysa Rafaella da Silva, 15 anos, é uma das alunas que precisa que o documento reverbere de verdade nas escolas. Transexual matriculada no 8º ano, já foi chamada de “frango” muitas vezes. Ela conta que reclamava para a direção, mas as coisas só pioravam. Depois que assumiu a transexualidade, diz que a situação melhorou. Usa maquiagem para ir às aulas, frequenta as aulas de Educação Física junto das meninas. Mas não vai mais ao banheiro da EM Nilo Pereira, em Recife: a mãe de uma aluna reclamou da presença dela no mesmo ambiente usado pelas garotas.

"Não vou ao banheiro na escola. A mãe de uma aluna reclamou da minha presença no sanitário feminino", Taysa Rafaela da Silva, 15 anos.
Crédito: Priscilla Buhr

Histórias como essas são comuns e mostram a necessidade de trabalhar a questão do convívio respeitoso com a diversidade. “A solução não é igualar uns aos outros, e sim batalhar pela equidade. Falar de respeito ao outro, preconceito e discriminação tem de ser um trabalho permanente. A discriminação na escola não acontece com uma ou outra criança, não é pontual. É sistemática – os negros, por exemplo, não são representados no material didático, o racismo permeia o cotidiano deles”, afirma Caroline Jango, autora do livro Aqui Tem Racismo (Livraria da Física). Rodrigo Mendes atenta para o Projeto Político Pedagógico (PPP), que tem de acolher as diferenças. Nele devem constar ações atentas a evidências e conflitos decorrentes da diversidade em sala de aula, cada vez mais heterogênea. “O planejamento deve considerar o coletivo e, ao mesmo tempo, atender a individualidade”, ressalta. Os educadores também devem se planejar para refletir de forma sistematizada sobre preconceitos. Angela Soligo, psicóloga e docente da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), explica que eles mesmos (como qualquer outra pessoa) carregam os seus, que aparecem na forma de segregação, conflitos, ofensas e no jeito com que lidam com os alunos e com os próprios colegas.

Paulo Rogério Urbano, 46 anos, que o diga. Ele é coordenador pedagógico da EE Professora Etelvina de Góes Marcucci, em São Paulo, e foi chamado de capitão do mato por uma professora de História, que fazia alusão ao fato de ele ser negro e ter a tarefa de registrar ausência para os professores faltantes. A agressão não passou despercebida e doeu em Paulo.

"Uma professora me chamou de capitão do mato. Fico preocupado com os alunos conviverem com  pessoas como ela", Paulo Rogério Urbano, 46 anos.
Crédito: Tuane Fernandes

Será que você também não reproduz preconceitos sem perceber ao inferiorizar alunos pobres e negros, infantilizar ou ignorar os que têm alguma deficiência e estereotipar imigrantes e refugiados? Mhd Lowai Dawabi, 15 anos, é refugiado sírio e sente a xenofobia na pele. Aluno do 8º ano do CE Presidente Costa e Silva, em Foz do Iguaçu (PR), está há dois anos no Brasil. Apesar de falar bem português, não é incluído de verdade. Chamado de homem-bomba pelos colegas, ele conta que um professor reclamou da participação deleem aula. “Esse aí vem de longe e ainda fica fazendo perguntas”, resmungou.

A obra Aqui Tem Racismo apresenta uma pesquisa de Caroline Jango que revela que crianças negras, ao serem convidadas para montar uma sala de aula como a delas usando bonecos, colocaram todos os negros sentados no fundo da sala. Indagadas sobre o motivo, disseram ser assim como a professora delas faz. “Questionar os exemplos usados em atividades e no livro didático, como a mulher em posição inferior (dona de casa, secretária etc.) e não de comando, é saudável para aprender a não naturalizar discriminações e repensar como as coisas são e como deveriam ser para o bem-estar de todos”, avalia Angela.

"Muita gente me chama de homem-bomba na escola. Dizem que é brincadeira, mas fico chateado", Mhd Lowai Dawabi, 15 anos.
Crédito: Tuane Fernandes

Essa tal empatia

Imaginar-se no lugar do outro, pensar sob a perspectiva dele, sem julgamentos, é uma habilidade a ser desenvolvida ao longo da vida. Ao mudar o ângulo do olhar no âmbito social e emocional, temos a oportunidade de nos sensibilizarmos e, com base em nossas próprias suposições ou impressões, tentamos compreender o comportamento do outro, revemos atitudes e ideias. Em resumo, assumimos uma postura empática.

“Empatia é um sentimento que se ensina e se aprende, inclusive na escola”, explica Lino de Macedo, professor emérito do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e assessor do Instituto PENSI — Pesquisa e Ensino em Saúde Infantil. Telma Vinha, professora da Faculdade de Educação da Unicamp, completa: “Quando os modelos e as situações que oferecemos são empáticos, a criança também pode se tornar mais empática. O nível de empatia varia de pessoa para pessoa, mas é possível melhorá-lo”.

Na prática, também podem ser lançadas em cena propostas que façam os estudantes se colocarem em uma situação que não necessariamente estejam vivendo, incentivando a observação, a reflexão sob diversos pontos de vista, o entendimento do que se passa, o que os implicados sentem, como podem pedir auxílio e como as ações de uns impactam os outros.

Leandra Bispo Santos de Jesus, 10 anos, é aluna do 4º ano da EM Nossa Senhora dos Anjo, em Salvador. Ela tem síndrome de Asperger e dá um show quando o assunto é empatia. “Eu aceito como eu sou e como os outros são”, fala. Leandra sabe quanto a falta de empatia dos colegas custa caro no dia a dia. Certa vez, na escola, abraçou um colega autista e teve de ouvir dos colegas que tinha encostado em uma pessoa doente.

"Um dia abracei um colega autista e disseram que eu tinha encostado em uma pessoa doente", Leandra Bispo Santos de Jesus, 10 anos.
Crédito: Pedro Silveira

Não é normal

Ao discriminar o outro, o preconceituoso age como se existisse um padrão de normalidade. Essa tentativa de dividir as pessoas entre normais e anormais está associadas a um ciência chamada eugenia, que busca definir seres humanos com o melhor patrimônio genético – e que já serviu de justificativa para genocídios, escravidão e colonização.

De acordo com a antropóloga Isabela Oliveira Kalil, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, a construção da diferença é intrínseca ao ser humano. É comum a todas sociedades classificar e hierarquizar pessoas e coisas. Porém, o que é feito disso pode ou não resultar em discriminação e preconceito. “A construção da diferença é universal, o preconceito, não”, ela explica. Embora vivamos com a sensação de que existe um suposto padrão de normalidade, é preciso depurar o pensamento: nada tem característica neutra a ponto de ser considerado normal. Somos todos diferentes em relação a alguma coisa.

COMO LIDAR COM O PRECONCEITO?

Enfrentar a discriminação requer estratégia e formação. Punir nunca é a melhor saída

Presenciei a atitude preconceituosa de um aluno. E agora?

“Se a escola realiza assembleias, esse pode ser um bom espaço para discutir o fato - não as pessoas envolvidas -, dando destaque aos valores que norteiam a boa relação entre as pessoas e repudiando o preconceito”, orienta Telma Vinha. Vítima e protagonista não devem ser culpabilizados, já que ambos são frutos das relações sociais, segundo Eliane Cavalleiro no livro Do Silêncio do Lar ao Silêncio Escolar: Racismo, Preconceito e Discriminação na Educação Infantil. Também é possível trabalhar com mediação, colocando a situação ocorrida para ser analisada sob diferentes ângulos e falando dos sentimentos de ambas as partes. “Nesse caso, a ação termina com a reparação do conflito, seja por meio da mediação de alguém ou da organização de círculos restaurativos”, diz Telma. Obrigar o preconceituoso a pedir desculpas de nada adianta se não for aberta uma linha de diálogo para que ele compreenda o que o colega sentiu. É necessário afirmar que não será admitida na escola nenhuma manifestação preconceituosa.

A escola deve fazer projetos especiais para combater o preconceito?

Trabalhar com o desenvolvimento de projetos pontuais pode até ser válido, desde que os adultos da escola atuem no dia a dia em favor dos princípios de respeito ao próximo e da valorização da diversidade, fazendo com que o discurso deles esteja visivelmente presente nas atitudes. Livros com histórias de personagens e que tratam de preconceito, discriminação, diversidade e inclusão também são ótimos materiais a ser explorados em sala, devem estar sempre à disposição dos alunos – não só quando alguma situação acontece. A postura combativa e a proposição de reflexões precisam acontecer desde a Educação Infantil, com intencionalidade de educar para o respeito. Ou seja, para explorar questões tão delicadas, não funciona restringir a conversa a datas especiais. Transformar o sujeito (o gordinho, o negro, o autista) em tema de aula, como se ele fosse um item do currículo, também não é um bom caminho, pois provoca constrangimentos, de acordo com Maria da Paz, assessora e formadora de professores em Educação e direitos humanos e membro da equipe do Instituto Vladimir Herzog, em São Paulo.

Como agir quando pais de um aluno que foi  discriminado pedem uma atitude da escola?

Explique a eles que os envolvidos serão chamados para conversar e que a escola vai ajudar os dois, já que o propósito é combater o preconceito, jamais punir o preconceituoso. Também vale convidar os pais do agressor para conversar. Conte a eles o ocorrido e peça que apoiem a escola. Esclareça que não é natural que crianças ajam de forma cruel, desrespeitosa “só porque são pequenas”. Se o fazem é porque aprenderam de alguma forma em casa, na escola, por causa de algo falado ou por conta de uma atitude que presenciaram.

Edição: Lívia Perozim