Como o narcisismo afeta a credibilidade de pesquisas eleitorais

Nossos desejos não perdem a força quando confrontados com os fatos e aí nascem as teorias da conspiração

POR:
Fabio Chiossi
Urna eletrônica
Foto: Elza Fiuza/Agência Brasil

Quem já não ouviu - ou mesmo costuma dizer - que as pesquisas eleitorais são todas mentirosas, feitas para favorecer este ou aquele candidato? Ou que elas simplesmente erram sempre? As pessoas perguntam: “Você conhece alguém que já foi entrevistado por este ou aquele instituto?”.

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O fato é que, se fizermos uma comparação histórica entre o que apontaram as pesquisas ao longo dos anos e o que mostraram as urnas, os acertos e aproximações são muito mais frequentes do que os erros. Fato também é que os métodos estatísticos permitem que se entrevistem poucas pessoas, muito poucas mesmo em proporção ao total de eleitores do país, para que as projeções sejam feitas. Assim, a probabilidade de ser entrevistado é muito, mas muito menor do que a de não o ser. Ou seja, o raro é ser parado por alguém do Ibope ou do Datafolha na rua para responder a perguntas sobre intenção de voto, não o contrário.

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No entanto, apesar dos fatos e da lógica, as teorias da conspiração surgem e se espalham com frequência.

Por quê? O que explica esse comportamento?

Psicanálise

Uma das razões para esse fenômeno é explicada pela teoria do pai da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939). O que Freud desenvolveu, no fim do século 19 e início do século 20, foi um método terapêutico para tratar das angústias que afligem as pessoas. E, a fim de chegar nesse método, ele formulou uma teoria da mente totalmente original, que explica boa parte de nossos comportamentos tendo como base principalmente as sensações de prazer e desprazer que sentimos ao longo da vida, bem como nossas relações com as ditas figuras parentais (as pessoas que cumprem as funções materna e paterna, que não necessariamente precisam ser nosso pai e nossa mãe).

Um dos conceitos que Freud cunhou no contexto da teoria e da clínica psicanalíticas foi o de narcisismo. A referência é ao mito grego de Narciso. Filho de um deus e de uma ninfa, Narciso era lindíssimo. Tão lindo que certa vez, ao se debruçar à margem de um rio, viu sua imagem refletida na superfície da água e se apaixonou por ela. Tamanha foi a paixão de Narciso pela sua própria imagem que ele ficou prostrado, imóvel, admirando-se até morrer.

O narcisismo de Freud nos fala de uma época em que, bebês, éramos o centro das atenções e recebíamos o amor incondicional dos nossos pais. Nessa época as frustrações eram poucas e o choro resolvia a maior parte dos problemas: fome, sono, quase todos os desconfortos. Bastava chorar e a mãe ou o pai corriam para nos acudir e ver o que estava errado. Tínhamos segurança; éramos acolhidos.

Essa sensação de que somos de algum modo especiais fica introjetada e nos acompanha pelo resto da vida. Ela é até necessária: se não nos admirarmos de algum modo, se não gostarmos de nós mesmos, como vamos sobreviver? Afinal, nós cuidamos voluntariamente daquilo e daqueles de que gostamos.

Pois é desse lugar especial que somos tirados, em nossa fantasia, quando nos vemos diante de uma situação que, por algum motivo, nos ameaça. Num choque de realidade, somos lembrados de que essa segurança toda não existe. Mais, somos também arrancados do lugar de “comando”. Afinal, se bastava chorar para sermos atendido, era óbvio que estávamos no comando da situação.

Essas situações não precisam necessariamente envolver violência e, verdade seja dita, são bem comuns. Um exemplo é uma demissão, seja ela esperada ou não. Ou até uma batidinha no carro. Embora os adultos saibamos que chorar não vai resolver, a ilusão de que controlamos as situações estão arraigadas em nossa psique.

Como nasce uma teoria da conspiração

Uma outra dessas situações é a desilusão de que nossos desejos não serão atendidos, justamente o que se anuncia quando, ao vermos os resultados das pesquisas eleitorais, constatamos que o candidato que escolhemos está atrás, tem pouca ou nenhuma chance de ser eleito ou até mesmo não tem chance nenhuma de vencer.

Como reagimos a isso? O que fazemos quando, confrontados com a realidade, nossos desejos perdem a força?

Ora, eles não perdem a força. Para os manter preservados, para não deixarmos nossa posição de sujeitos especiais (para nós mesmos), nós fantasiamos. Assim nascem as teorias da conspiração, que abundam em período de eleições, mas não só nessa época.

Em outras palavras, se os fatos ferem meu narcisismo, pior para os fatos.

Esse processo de defesa psíquico é, claro, inconsciente. As pessoas que elaboram e acreditam em teorias da conspiração o fazem de boa-fé (a não ser os perversos, que são poucos; mas isso é outra história). Não o fazem por mal, fazem-no apenas para não encarar a dor de ser comum.

Existe ainda um conforto adicional trazido pelas teorias conspiratórias: quem adere a elas “sabe”, “conhece” algo – um segredo, uma tramoia, um esquema – da qual a maioria das pessoas não sabe. Esse é, inegavelmente, mais um “atestado” de superioridade, mais uma prova de que o amor de si é justo, pois somos de fato especiais. O resultado é que, ao se defender, o narcisismo acaba reforçado.

Fabio Chiossi, 44, ex-jornalista, é psicanalista e mestre em filosofia pela PUC -SP. Foi editor de Tendências/Debates da Folha de S.Paulo.

 

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