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A escola formadora de cidadãos plenos e o projeto “Caravanas”

Criadores do projeto vencedor do Prêmio Educador do Ano 2018 escrevem sobre as práticas pedagógicas para combater preconceitos e invisibilidade

POR:
Ana Beatriz Ramos de Souza e José Marcos de Assis Couto Júnior
Multidão caminha pelas ruas de São Paulo
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“Como vai proibir quando o galo insistir em cantar?”. Desta maneira, em 1978, Chico Buarque questionava os mecanismos de controle, e mesmo o poder, da Ditadura Civil Militar, que já se encontrava em um processo de “abertura lenta, gradual e segura”, no final do Governo Geisel. A música “Apesar de você” mais do que um hino de resistência é quase uma catarse da geração que há 14 anos se encontrava censurada, tolhida, amordaçada, mas que, a despeito destes limites, dizia a plenos pulmões que logo um “outro dia”, diferente, estava para chegar.

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Liberdade de expressão, liberdade religiosa, ou de associação política – pilares de qualquer movimento democrático desde o século 18 – nunca se fizeram presentes de maneira uniforme nos variados contextos socioeconômicos, nem mesmo em tempos de democracia. Desde a redemocratização em 1985 e mesmo depois da “Constituição Cidadã” de 1988, que garantiria estes direitos, inúmeros casos de censura, de ataques movidos pela intolerância e pelo racismo religioso e de perseguições políticas ocorreram, por vezes de maneira esporádica, ora de forma sistemática, por todo o Brasil.

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Se no final da década de 1970 artistas, professores, políticos, religiosos, a sociedade civil em geral se percebia vigiada – algumas vezes fisicamente, com a presença de censores – hoje, com a velocidade das informações, com a quase onipresença de câmeras e telas e com a disseminação de ideias nas redes sociais, opiniões e pensamentos, informes e notícias são compartilhados e propagados em instantes. Comentários por vezes ofensivos, no que tange questões raciais, de gênero ou de religião, por exemplo, se utilizam dessas novas ferramentas de informação para serem propalados em uma velocidade inimaginável 40 anos atrás. Mais ainda, muitas vezes estes pensamentos acabam sendo definidos como “verdades absolutas”, sem questionamentos sobre origem ou consequências das mesmas ao serem disseminadas. Parece que nos esquecemos da responsabilidade sobre aquilo que falamos ou escrevemos.

É evidente que as liberdades citadas devem ser perseguidas incessantemente por qualquer indivíduo que acredite e defenda a democracia. No entanto, dois pontos em nossos dias apresentam-se para a sociedade como um todo, e para a educação de maneira especifica, como desafios na formação das novas gerações. Primeiramente, torna-se urgente o desenvolvimento de um senso crítico em nossos jovens, para que estes possam discernir diante da pluralidade e da veracidade (ou não) das informações que se tornam mais acessíveis a cada dia. As chamadas “Geração Z” e a “Geração Millenium” são constituídas por nativos digitais, que trazem smartphones e toda informação que provém deles como praticamente uma extensão do corpo. Neste contexto, faz-se necessário a criação de ferramentas para que os nossos jovens tenham maturidade de discernir sobre os fatos que possam corresponder ao que é verdadeiro ou não.  

Em segundo lugar, a sociedade e os responsáveis pela prática educacional (professores, pedagogos e a comunidade escolar) necessitam debater a quem competiria a formulação de manuais e bases curriculares, a fim de evitar equívocos e produzir ambientes escolares mais propensos ao aprendizado, levando em consideração as peculiaridades históricos/sociais de um território. Sociedades plurais e miscigenadas como a nossa não permitem a imposição de “fórmulas mágicas” de apreensão do conhecimento. Esta deve ser, antes de tudo efetiva para a formação do aluno, bem como, do profissional relacionado com a educação.

Cidadãos plenos e ativos

O simples acesso às informações contidas na rede mundial de computadores não se apresenta como garantia de desenvolvimento cognitivo a quem navega. Nem mesmo podemos afirmar que o volume de informação geraria sujeitos mais cultos ou críticos. Observamos nos últimos anos a propagação em níveis alarmantes de Fake News e da explosão de opiniões sem fundamento nas redes sociais. Torna-se notório o crescimento de críticas e ataques, cada vez mais contundentes, ao conhecimento acadêmico. Influenciadores digitais, sites e canais com milhões de seguidores vêm sistematicamente apresentando discursos que negam o valor da Academia, especialmente no que tange às ciências sociais e humanas.

A escola, em um modelo republicano, deveria ser concebida para se constituir acima de tudo como um espaço de construção de conhecimento. Desta forma, não cabe mais a formação “intencional ou não, de indivíduos acomodados, não questionadores e submetidos à estrutura do poder vigente” (FREIRE, 1968). Em detrimento a qualquer tipo de “educação bancária”, devemos promover uma “educação libertadora”, que se faz presente no instante em que o aluno percebe o mundo ao seu redor e compreende, de maneira autônoma, as nuances e sutilezas de fatos sociais e da intencionalidade de discursos.

O Projeto “As Caravanas, Limites da Visibilidade” imagina a possibilidade de construção –  ou reconstrução – daquilo que é importante na constituição de uma sociedade. O principal objetivo foi desconstrução de preconceitos e a desnaturalização de conceitos (ou “pre-conceitos”), gerando protagonismo e constituindo identidades, como forma de diminuir a invisibilidade social. O processo de apagamento de indivíduos ou de grupos ocorre em vários níveis, quando criamos sujeitos “generalizados”. Em cada contexto social é desenvolvido “um sistema de exigências normativas, afim de que haja relações de conhecimento” (HONNETH, 2006). O não reconhecimento do outro como semelhante, muitas vezes alicerçado pela homofobia, pelo racismo, pela intolerância religiosa, ou por qualquer tipo de preconceito, materializam a invisibilidade social.

Cientes do contexto social e das desigualdades estruturais presentes nele, devemos refletir sobre quais seriam os objetivos e as responsabilidades da escola na formação das novas gerações. Quais seriam os conteúdos significativos que possibilitariam o desenvolvimento de indivíduos que tragam a empatia, o respeito à diversidade, a inteligência emocional e a inteligência social como características ao sair da escola?

Todos estes aspectos, cada vez mais valorizados em um mundo onde a interação social é vital, só se farão contemplados caso as bases curriculares, os projetos político pedagógicos e os professores com toda a comunidade escolar se comprometam e definam como prioridade da escola o combate às desigualdades e a formação de um indivíduo pleno, consciente de seu papel no mundo. Conteúdos programáticos são resultados de embates curriculares, portanto vamos construir currículos que tragam como meta a igualdade entre as pessoas. Os limites da visibilidade se encontram na negação de um debate constante de conteúdos que observem a valorização e o empoderamento das minorias sociais, sob a pena destas serem eliminadas, ou de se tornarem invisíveis. 

A escola, sendo um espaço de construção, não pode deixar de se posicionar com relação a temas como a violência, as relações de gênero, a homofobia, o feminicídio, etc. Isso se chama empatia, quando nos colocamos no lugar do outro a fim de combater todo o mal social que nos assola. Não construiremos uma geração que respeite e tolere a fé alheia se nos bancos escolares não debatermos e combatermos o racismo religioso. Currículos e projetos pedagógicos devem lutar contra o racismo, pois não diminuiremos a dívida histórica com a população negra se não trouxermos luz à herança e ancestralidade do povo africano.

Na escola também se aprende respeito, empatia e tolerância. Basta para isso vê-la como um espaço de construção e não de reprodução. Nesse sentido, “As Caravanas” ganha o país e serve de instrumento para refletirmos sobre o papel da escola, bem como questionarmos ações que se limitem a mera repetição de conteúdos, com pouca ou nenhuma reflexão. Vislumbramos uma prática pedagógica que leve aos alunos e a comunidade escolar a participarem do processo de cidadania, como indivíduos conscientes do papel que devem desempenhar, como cidadãos plenos e ativos. Quando as letras de “As Caravanas”, de “Geni e o zepelin”, de “Construção” passam a fazer sentido e a incomodar os jovens que as escutam, percebemos que a invisibilidade social pode ser combatida, e tomamos consciência de que mais pessoas podem ser “lidas e vistas” por todo o Brasil.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17ª edição. Rio de Janeiro. Paz e Terra. 1970.  

HONNETH, Alex. La société du mépris. Vers une nouvelle théorie critique. Traduzido do alemão para o francês por Olivier Voirol, Pierre Rush e Alexandre Dupeyrix. Paris: Éditions La Découverte. 2006.

Ana Beatriz Ramos de Souza e José Marcos de Assis Couto Júnior são professores de História na EM Áttila Nunes, no bairro de Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro, criadores do projeto “As Caravanas: Limites da Visibilidade”. José Marcos, que apresentou o projeto no Prêmio Educador Nota 10, foi escolhido como o Educador do Ano 2018

 

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