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Por: Victória Damasceno

Conceição Evaristo: “É preciso romper com a história oficial"

Para Conceição Evaristo, deve haver um esforço dos professores em contar a trajetória da população negra nas escolas

INSUBMISSA: A escritora, que rejeita a narrativa meritocrática, em Paraty (RJ) durante a FLIP.
Crédito: Lis Pedreira/Divulgação

A candidatura de Conceição Evaristo, 72 anos, à Academia Brasileira de Letras (ABL) neste ano virou hashtag, reuniu 40 mil assinaturas em abaixo-assinados e expôs a falta de representatividade negra e feminina na academia centenária. Professora aposentada da rede pública do Rio de Janeiro, doutora em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e vencedora do Jabuti em 2015 com Olhos D’Água, a escritora mineira, com seis obras publicadas, rejeita o uso de sua trajetória como exemplo de meritocracia e diz que é necessário romper com a narrativa dos colonizadores sobre a população negra e indígena nas escolas brasileiras.

NOVA ESCOLA: A senhora se candidatou à ABL em agosto, mas não foi escolhida. O que pretendia?

CONCEIÇÃO EVARISTO: Minha candidatura teve uma representatividade construída, valorizada e apresentada fora dos muros da academia. Representou o desejo de um coletivo que não é composto só de pessoas negras. Fiquei muito surpresa com a repercussão, e isso alimentou meu dever e convicção de participar da eleição. Nunca uma campanha mobilizou tanto. Isso marca a história da academia, mas marca também a nossa, de uma escritora inserida dentro de um coletivo. E isso, sem sombra de dúvidas, carrega questões políticas.

NE: Como foi alcançar visibilidade como escritora?

CE: Encontrei todas as dificuldades que qualquer pessoa negra encontra no Brasil. O que sempre digo é que minha visibilidade não pode ser usada para um discurso meritocrático. Dizem que quem se esforça consegue, mas a realidade é que cada um de nós, negros, que conseguimos romper com as dificuldades impostas pela sociedade estamos em constante luta. Dizem que produzimos pouco, mas escrevemos muito mais do que o mercado nos permite publicar. Precisamos de muito tempo para permear espaços que pessoas brancas alcançam com facilidade.

NE: Como vê a história da população negra sendo contada atualmente?

CE: A história contada nos dias de hoje não possui nenhuma participação do nosso povo. É a história que pessoas não negras escreveram a respeito de nós. Meu senso crítico em relação à história negra do Brasil não aconteceu dentro dos muros da escola, mas com a militância e o meu entorno.

NE: Quais as alternativas para os professores?

CE: Os educadores precisam encontrar formas criativas de reverter as histórias que não são bem contadas. É preciso romper com a história oficial. Se o professor estiver atento, vai perceber uma falha na narrativa histórica que lhe foi contada. Se prestar atenção na vida dos negros, vai entender que a condição da população afro-brasileira é consequência de um processo histórico que resultou em uma libertação inconclusa.

NE: Quando era professora, quais mecanismos a senhora usou para falar da história negra?

CE: Eu e meus colegas percebemos uma caracterização muito estereotipada da população negra nos livros didáticos. A alternativa foi buscar narrativas que apresentavam outro discurso. Nessas buscas, sempre encontrava formas criativas de romper com o discurso oficial. O professor precisa ter curiosidade para refletir se a história dos livros didáticos corresponde ao o que realmente aconteceu.

MULHERES NEGRAS NA LITERATURA

Quantas escritoras negras você já leu? Confira duas sugestões

Quarto de Despejo
Carolina Maria de Jesus. Ed. Ática
Best-seller na década de 1960, a obra formatada como diário fala de racismo e desigualdade no cotidiano da extrema pobreza em São Paulo.

Um Defeito de Cor
Ana Maria Gonçalves. Ed. Record
Ao longo de 900 páginas, o romance atravessa décadas para contar a saga de Kehinde, que chega escravizada à Bahia no século 19.