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Especialistas | Felipe Bandoni


Por: Felipe Bandoni

Material de referência ou plano de aula?

O livro didático pode ser um guia, mas segui-lo ao pé da letra é uma maluquice

Certa vez, fui a uma palestra promovida por uma editora para divulgar uma coleção de livros de Biologia. Mais interessante do que a apresentação foi a conversa que ocorreu em seguida. Uma das presentes, animadíssima, contou que estava muito feliz em conhecer pessoalmente o autor, pois adorava a obra dele. Disse, orgulhosa, que a seguia ao pé da letra, da página 1 até o final. Ele, surpreso com a declaração, respondeu: “Mas isso é uma maluquice! O livro tem quase 500 páginas. É impossível trabalhar todos os assuntos em um ano!”.

A professora murchou na hora. Admitiu que tinha que correr bastante para “vencer todos os conteúdos”. Então, o autor esclareceu que sua intenção tinha sido fazer um livro bem completo que servisse como fonte de consulta confiável para os alunos, mas que cabia a cada docente escolher aquilo que julgava mais importante – o que significa necessariamente deixar alguns assuntos de fora das aulas.

Ouvir de quem criou o livro que nem tudo o que ele havia escrito deveria ser abordado foi muito marcante para mim. Quando seguimos cegamente livros, apostilas de sistemas de ensino e outros recursos do gênero, estamos invertendo as coisas: é como se estivéssemos a serviço dos materiais didáticos, e não o contrário. A inversão gera situações bizarras:
a correria para passar pelos conteúdos, a superficialidade, o descompasso entre o ritmo de aprendizagem dos alunos e o do material.

Essa distorção é bem ilustrada pelo caso de uma colega que encontrou uma reportagem de jornal que se relacionava intimamente com o assunto que ela estava abordando em sala. Seria uma ótima oportunidade para mostrar o conteúdo em um contexto real, mas, mesmo tendo em mãos um texto que parecia perfeito, ela não o utilizou porque não teria tempo de cumprir o que a apostila previa. Uma lástima!

Nós, professores, devemos ser os autores das nossas aulas, e isso inclui escolher o material. Essa é uma tarefa de muita responsabilidade, que requer reflexão e apoio da direção e da coordenação, que devem ser interlocutores qualificados para dialogar sobre essas escolhas.

Felipe Bandoni é professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo

Crédito: Tomás Arthuzzi/Nova Escola