Pequenos grandes autores

Na escola surgem histórias impressionantes. Algumas vêm da cabeça da garotada e até viram livro de verdade. Outras são escritas no dia-a-dia, quando crianças têm suas vidas transformadas por que encontraram na escola estímulo

POR:
Ana Morano

- Juliana, o que é isto na sua carteira?

Quando a professora parou e leu as letras rabiscadas no tampo da mesa da aluna, teve uma certeza: estava diante de uma menina de 8 anos muito talentosa. Era 1991. A professora Célia Regina Ferreira lecionava para uma turma de 3ª série do Ensino Fundamental na rede estadual em Presidente Prudente, no interior de São Paulo. Logo no início do ano letivo, uma atividade de escrita desenvolvida em classe já havia revelado a Célia o gosto da aluna por poesia. No dia em que terminou a Guerra do Golfo, ela pediu aos estudantes que fizessem um texto sobre guerra e paz. Juliana Costa perguntou se podia escrever em versos e, em alguns minutos, Célia tinha em mãos aquela que seria a primeira poesia de um livro que nenhuma das duas imaginava possível. "Impressionei-me com a facilidade da Juliana para escrever e isso nos aproximou muito", relembra a professora. Porém, foi quando viu a carteira rabiscada que, em vez de esbravejar e punir a garota, Célia percebeu que a inspiração não se limitava ao relógio da escola, que definia a hora para lanchar, escrever, fazer contas, brincar... Como incentivo, deu de presente para a menina um caderno para que ela registrasse todas as poesias e, assim, evitasse que se perdessem. Desde então, Juliana não parou mais de escrever. Caminhos para o Mundo é o nome de seu livro e quem assinou o preâmbulo da edição foi ninguém menos que o escritor brasileiro Fernando Sabino, que a comparou à poetisa Cora Coralina.

Juliana só chegou até aí porque encontrou na escola incentivo. E é justamente esse o papel dos adultos: incentivar. Você já parou para pensar que algumas crianças podem vir a ser escritores? É difícil imaginar, já que vivemos num país em que se lê pouco e em que a profissão de escritor é considerada algo para privilegiados. Mas existem, no Brasil, muitas histórias de pequenos escritores. Aqui, vamos contar algumas delas e mostrar que criança pode, sim, editar livro de verdade, dar autógrafo e incentivar os colegas a ler e a escrever.

Ontem escritora, hoje advogada
Juliana vinha de uma família pobre e em casa não recebia nenhum incentivo ao hábito da leitura. Na escola, porém, encontrou na professora Célia uma grande aliada. "Ela me dizia que a inspiração vinha a qualquer momento, ao limpar a cozinha, dormindo ou mesmo na sala de aula", relembra Célia. Em certas ocasiões, a menina aparecia com rascunhos de papel e entregava as poesias para que ela guardasse. "Eu sentia que devia fazer mais", conta. Célia então passou a enviar ao jornal local as criações da aluna. "Foram mais de 50 poemas publicados", diz a professora. Não demorou para que o talento de Juliana despertasse a atenção da cidade. Aos nove anos, foi publicado o livro Caminhos para o Mundo, título relacionado a temas dos versos como a natureza, o amor, a amizade e a dor.

"Foi na escola que me descobri como escritora. A Célia até falava em um dia eu lançar um livro. Só não imaginávamos que seria tudo tão rápido como foi", conta Juliana, hoje com 24 anos, advogada e mãe de dois filhos. A poeta diz que, apesar de não ter publicado outro livro, ainda escreve. "A publicação me deixou feliz porque foi um meio de disseminar boas mensagens. Ficava radiante quando recebia cartinhas de crianças de vários lugares do Brasil contando de que tinham gostado", diz Juliana.

Quando o livro foi lançado, Célia percebeu que o que faz o talento de uma criança ser conhecido também fora da escola é a iniciativa. Nada disso teria acontecido se ela tivesse ficado só no "parabéns, você escreve bem" ou nas estrelinhas no caderno. "O trabalho das crianças precisa, sim, transcender os muros da escola, pois nós professores temos a missão de identificar os talentos, com um olhar atento e sensível, e dar oportunidades", ensina.

Livro em tinta, livro em Braile
A pequena carioca Munna Alexandre tem 8 anos de idade e teve seu primeiro livro publicado quando tinha acabado de ser alfabetizada. Ela ensina para as outras crianças quando lhe perguntam como se faz um livro: "É fácil. Primeiro você escreve a história. Se quiser ser o ilustrador, faz os desenhos também. Então é só levar a uma editora para eles verem se está bom". Com a ingenuidade da infância, a autora de Kiki Gugu Dadá revela os mistérios que estão por trás dos livros que repousam nas estantes das livrarias.

Porém, nós adultos sabemos que não é bem assim. O mercado editorial é um campo restrito, ainda mais em um país como o Brasil, em que o número de leitores está entre os mais baixos do mundo. E é justamente para encarar e reverter esse quadro que a escola tem um papel importante. É preciso garantir aos nossos pequenos o domínio da norma culta para que possam se comunicar bem através da escrita. Além disso, a escola é o ambiente mais propício para o desenvolvimento da criatividade e da imaginação, o que pode fazer florescer em sala de aula os talentos da garotada. "Quando ainda não era alfabetizada, a Munna desenhava as histórias. A escola foi fundamental nesse processo. Além de ensinar a escrever, há um tempo livre para que as crianças façam algo de que gostam. É nesse período que ela escreve as histórias", diz Carla Alexandre, mãe da autora cujo livro pode ser encontrado em tinta e em braile - um pedido da própria menina, que queria que a prima cega (personagem da história) também pudesse ler e se encantar com seus escritos.

Apoio da família
Carlos Gabriel Zucher é de Cuiabá, tem nove anos e é o autor do livro O menino que queria ser cientista. Ele escreve histórias desde os sete anos. No início, utilizava um computador que tinha em casa. Um dia, a máquina quebrou. Para que não desanimasse, suamãe pediu que escrevesse as histórias em folhas de caderno e guardou todas. Quando Áurea Zucher foi trabalhar em uma editora, comentou que seu filho escrevia. Foi então que surgiu a grande chance: a editora pediu para ver algumas das criações e Carlos teve seu livro publicado. A mãe então começou a divulgar a obra do garoto. Ela conta que, apesar do talento do menino, a escola em que ele estudava não teve nenhuma participação direta no processo. "Lá ele aprendeu a ler e escrever, mas não houve qualquer outro tipo de apoio ou incentivo", lamenta. Hoje, Carlos Gabriel estuda no Colégio Isaac Newton. A escola ficou sabendo do trabalho do garoto, aprovou e, por isso, concedeu-lhe uma bolsa de estudos. Seu livro até será usado pelas terceiras séries da escola nesse ano letivo. "Os educadores devem incentivar a leitura desde o maternal, pois quem lê escreve bem", diz Edir Cavalcante, diretora da escola. "Para que o ensino não se torne repetitivo para mim e enfadonho para as crianças, busco sempre avaliar as necessidades da turma e desenvolver atividades envolventes. É uma forma de explorar a criatividade e até mesmo descobrir talentos", diz Edenilze Zanote Brandão, professora de Língua Portuguesa das séries inicias. Entre os projetos desenvolvidos pela professora está o livro da turma com releitura de fábulas, paródias e troca de correspondências com crianças de outras escolas.

Outra pequena escritora que teve em casa a inspiração e o apoio para escrever se chama Kerexu Mirim. Ela é uma garota indígena de 10 anos que vive em uma aldeia da Mata Atlântica dentro do município de São Paulo. Ela tinha o sonho de andar de avião. Quando conseguiu, resolveu que queria que mais crianças soubessem da sua experiência, imitou o pai (que já tem 10 livros publicados) e escreveu A Índia Voadora. "Desde pequena ela me ouvia contar histórias. Sua imaginação sempre foi estimulada nesse sentido. Para incentivar, publiquei o livro dela, em Português e em Guarani. Serve como estímulo para que mais índios queiram também escrever", diz o pai Olivio Jekupe. Segundo a menina, o objetivo já foi atingido: vários coleguinhas também querem escrever suas histórias. Quando perguntam a Kerexu como chegar lá, ela responde com propriedade: "Tem que lutar muito".

A escola: o berço da história
"Tudo começou com um sonho", é assim que o adolescente de 15 anos, Lucas Siqueira Braz, que mora em Botucatu, no interior de São Paulo, diz que surgiu o seu livro O Seguidor dos Mistérios - a Cidade das Neves, publicado em 2003, quando ele tinha apenas 11 anos. Na época, ele estudava em uma escola municipal e escrevia, segundo ele, por diversão. "Sempre gostei de desenhar também", lembra. Em 2003, os professores e a diretora incentivaram-no a escrever uma história para um livro. Em pouco tempo ele entregou o enredopara Vânia Cristina Corrêa Fioravante, diretora da escola. "Li, gostei e fui em busca de patrocínio. Acredito que esse tipo de incentivo - assim como o esporte e as artes - são meios de evitar a evasão escolar", afirma. Para ela, é importante que a crianç goste da escola e sinta prazer em estar ali. "O Lucas ficava, por exemplo, fora do período de aula na biblioteca", conta.

A pequena Bruna Dias do Carmo Costa, 12 anos, também acha que a escola é lugar bom de estar. Não só pelo conteúdo que ali se aprende, mas pelo espaço de convivência, relacionamentos e outros aprendizados que vão muito além dos livros e são fundamentais para toda a vida. Como parte de um projeto proposto pela professora, ela aceitou o desafio de participar de um concurso literário. Teria que escrever um conto a partir de obras do escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, autor de histórias como O Patinho Feio, Soldadinho de Chumbo e a Pequena Sereia. Em quase dois meses de trabalho, nasceu Pretinha, a personagem principal do seu conto. A trajetória dela no livro não é nada fácil: ela passa por situações de preconceito e tem que trabalhar quando seu grande sonho é ser bailarina. Pretinha encantou os críticos literários que julgaram os trabalhos do concurso. Como recompensa, Bruna foi até a Dinamarca e ainda teve seu conto, A Bailarina Encantada, publicado pela editora FTD. Do que ela mais gosta disso tudo? "De ter a oportunidade de escrever sobre situações que fazem parte da vida de muita gente", diz. Com um livro publicado, ela hoje se sente mais responsável, apesar de ainda ter apenas 12 anos.

Para a pedagoga Maria Priscila Bacellar Monteiro, é muito importante que as crianças tenham o reconhecimento daquilo que produzem. Quando trabalhava na Educação Infantil em um colégio de São Paulo, Priscila proporcionou às crianças (que ainda não eram alfabetizadas) a oportunidade de escrever o livro O Dicionário da Mata. "Trata-se do resultado final de um projeto de Ciências. O livro foi editado com o jeitinho das crianças. Elas ditavam à professora o significado das palavras que haviam encontrado na pesquisa", explica. A publicação, além de conter a ilustração das crianças, é também manuscrita - uma forma de romper padrões. O livro teve até noite de autógrafos em uma livraria da cidade. "Algumas das crianças compareceram de terno. Foi interessante ver o orgulho delas de ter o nome grafado em um livro. É um meio de valorizar a produção e de aprimorar o desenvolvimento pedagógico", afirma Priscila. Como você pôde perceber, a escola pode ser o berço de muitas histórias (fictícias e reais). Por isso, que tal dar uma espiada com mais atenção nas crianças? Será que não existe um escritor (ou dois, ou três...) esperando pelo seu olhar atento?

Quer saber mais? 

BIBLIOGRAFIA
A Bailarina Encantada, Bruna Dias do Carmo Costa, 24 págs., Ed. FTD, tel. 0800 158555, 17,60 reais
A Índia Voadora, Kerexu Mirim, (edição independente), tel. (11) 5978-4325, 5 reais
O Menino que Queria Ser Cientista, Carlos Gabriel Zucher, 24 págs., Ed. KCM, tel. (65) 3624- 3223, 15,00 reais.
Kiki Gugu Dadá, Munna Alexandre, 24 págs. (em tinta) e 30 págs. (em braile), Ed. Crayon, tel. (21) 3185- 0308, 33 reais (inclui edição em braile)

INTERNET
Conheça o site da Escola Isaac Newton

 
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