DEPOIMENTO: “Como uma professora de inglês transformou nossas mentes”

No dia dos professores, um reconhecimento por parte de quem mais importa: os alunos

POR:
NOVA ESCOLA

Em agosto, NOVA ESCOLA foi procurada por um estudante do 3º ano do Ensino Médio que queria compartilhar conosco o que ele achava que era uma inovação de sua professora de inglês. A inovação, para quem trabalha com Educação, não era nada demais: sua professora apenas se abriu para atender a uma demanda que estava nas entrelinhas da sala de aula daquela turma do 3º ano. Para os alunos, ter um espaço “oficial” para ouvir seus pares e ser ouvido por eles foi tudo demais: recuperou a confiança que eles tinham neles mesmos e na professora.

Neste dia dos professores, queremos que o depoimento de Matheus lembre a todos os professores do Brasil o porquê de fazerem o que fazem diariamente e para quem vocês fazem. Segue o relato:

“Olá!

Me chamo Matheus Moura Pestana, sou de Goiânia (GO) e estudo no 3º ano do Ensino Médio de uma escola particular. Eu e meus colegas tivemos nossas mentes transformadas por uma professora, e decidimos compartilhar a nossa história.

A equipe gestora do meu colégio tinha algumas franquias espalhadas por Goiânia. Uma delas era a escola onde eu estudava. Infelizmente, esse colégio entrou em falência, e minha turma inteira foi transferida para a unidade principal, sob a promessa de que nada mudaria: seriam a mesma coordenação e a mesma equipe de professores.

Infelizmente, porém, essa promessa foi quebrada. Nos primeiros meses, nossa coordenadora foi afastada e a equipe de professores, por motivos que não conheço, começou a cobrar resultados da nossa turma, não como estudantes, mas como concorrentes para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O resultado disso foi uma onda de desânimo e desinteresse completo da turma pelo colégio.

O que nos ajudou a levantar a cabeça e prosseguir? A resposta é simples: uma aula de inglês. Nossa professora de inglês, Christiane Santana, tem duas aulas seguidas conosco nos dois primeiros horários. Ela desenvolveu um projeto em que passou a ceder a primeira aula para que tivéssemos a chance de discutir sobre o que quiséssemos falar: inspirações, angústias, projetos… qualquer coisa que viesse do nosso interior.

A ideia surgiu quando um de nossos colegas estava sentado no fundo da sala de aula. Este colega, desanimado, estava lendo seu bloquinho de notas onde guarda frases de filósofos, sociólogos e pensadores em geral. A Christiane se aproximou dele e pediu para que ele lesse uma frase favorita. Meu colega respondeu dizendo que precisaria de mais tempo. A resposta foi simples: “semana que vem, a primeira aula é sua!”.

A partir disso, nós criamos um vínculo íntimo com essa primeira aula, de caráter bastante expressivo. No fim de cada uma, alguém estende a mão e se torna o próximo a apresentar. Às vezes funciona por indicação, também.

Mas e os temas? Os temas são livres, algum simplesmente falam o que estão pensando, outros desabafam problemas que sofrem dentro de casa, outros apresentam suas inspirações e sonhos. Já tivemos pessoas levando para o debate de Nietzsche a Lygia Fagundes Telles. Temas como depressão e autoestima são frequentemente abordados também. Já tivemos poemas escritos exclusivamente para essas aulas por uma colega poeta que tem medo de divulgar o seu trabalho. Já tivemos relatos de um colega sobre a depressão de sua mãe e como isso o afeta pessoalmente. Outra colega também compartilhou como sua família lutou pela Educação na Bolívia durante seu período de regime militar.

As angústias são liberadas e abraçadas por todos. Sonhos são colocados na mesa para que todos possam ver que a vida não se resume a um vestibular, que não somos definidos por notas.”

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