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Blog de Alfabetização

Troque experiências e boas práticas sobre o processo de aquisição da língua escrita.

Como o Brasil pode aprender a valorizar o professor com uma pequena comunidade do interior

Foi em Ribeirão da Anta que aprendi a levantar a cabeça, bater no peito e dizer com orgulho: "Sou professora!".

POR:
Mara Mansani
A professora Mara Mansani, de cabelo preso, usa uma blusa preta e posa dianta de várias estantes cheias de livro
Professores precisam ser reconhecidos e valorizados. Crédito: Mariana Pekin

Neste dia do professor, quero oferecer todo o carinho, respeito, aplausos e reconhecimento a vocês, queridos professores. Colegas de profissão, luta, resiliência e perseverança. Parabéns a todos nós que, apesar das adversisades, construímos e defendemos a Educação de qualidade para todos, e acreditamos que ela transforma vidas e até o mundo.

Ao longo de minha trajetória, tive a oportunidade de viver muitos momentos especiais que impactaram minha vida profissional. Em sua maioria, fui mais aprendiz do que aluna.

Foi em uma comunidade rural tradicional, no meio da Mata Atlântica, que recebi, há mais de 20 anos, talvez as mais bonitas lições como professora e como ser humano. Nos dias difíceis que vivemos hoje, de incertezas, intolerâncias e outras coisas complicadas (e algumas absurdas), essas lições nunca foram tão oportunas.

Nessa comunidade tradicional chamada Ribeirão da Anta, em Tapiraí (SP), eu lecionava para os pequenos do Ensino Fundamental 1 em turmas multisseriadas de manhã; à tarde as aulas eram para a Educação Infantil, e em alguns anos, também lecionei para adultos na EJA, à noite. Eu morava em uma casa acoplada à escola, sem energia elétrica.

Foi lá que aprendi com toda a comunidade a levantar a cabeça, valorizar minha profissão, bater no peito e dizer com orgulho: "Sou professora!".

Lembro de quando cheguei pela primeira vez na comunidade. As famílias estavam alvoroçadas, as crianças corriam pelo bairro, gritando "A professora chegou! A professora chegou!".

Eu era disputada para almoçar, conversar, simplesmente passar um tempo junto às pessoas, debater sobre notícias veiculadas nos rádios a pilha. Todos queriam cuidar da professora. Fiz muitos amigos, e muitas dessas amizades continuam até hoje.

Naquela comunidade no interior de São Paulo eu descobri como é bom ser valorizada, uma professora tratada com todo o respeito e carinho. Me senti a protagonista da Educação.

Lá ganhei os melhores presentes: cachos de banana, farinha de milho e até galinhas vivas, tudo produzido por eles. Ou seja, eram pessoas que queriam partilhar comigo o que eles tinham de melhor.

Mas também foi lá que, com o passar do tempo, fui descobrindo que na verdade eu é que tinha muito o que aprender com eles. Que nós, professores, estamos sempre aprendendo, porque as pessoas daquela comunidade tinham a sabedoria da vida. Aprendi lições que me tornaram não apenas uma professora melhor, mas um ser humano melhor, também:

Solidariedade. Os moradores daquela comunidade eram muito solidários. Se alguém precisava fazer uma melhoria em sua casa ou nos tratos culturais de uma roça, estavam todos lá, juntos. Na escola era a mesma coisa. Como eram lindos os mutirões com participação de todos, para pintar a escola, para fazer a horta, entre outras atividades, que terminavam com um bom prato de comida para todos!

Respeito e valorização da vida. Eles eram autossustentáveis. Produziam muitos dos produtos que consumiam sem agredir o meio ambiente. Sabiam a hora de colher, de extrair sem prejudicar a natureza, e sabiam como preservá-la.

Respeito e valorização das diferenças. As crianças tinham voz, autonomia e participavam de todas as ações. Eram criadas na cultura de participar, de colaborar. Os idosos orientavam os caminhos, eram respeitados e ouvidos. Todos os diferentes eram vistos como iguais em direitos e humanidade, mesmo com religiões e pensamentos diferentes.

Diálogo. Entre as crianças, não havia conflito que perdurasse. Nos dois anos em que estive lá, não presenciei qualquer desavença entre os adultos. A amizade e o diálogo eram as palavras de ordem.

Nos primeiros meses, eu não saía de casa à noite pois tudo era escuridão (literalmente). Mas fui guiada pela mão pela dona Florinda, uma pessoa maravilhosa e moradora da comunidade. Com o tempo, fui me sentindo segura e passei a caminhar sem apoio.

Da mesma maneira, em muitos momentos, nós professores vivemos na escuridão, sem saber por onde caminhar. Nos sentimos inseguros e deprimidos, desvalorizados, mas quando encontramos quem nos apoie, quem tem a Educação como prioridade, nosso trabalho toma um rumo melhor, que resulta na aprendizagem dos alunos, no nosso bem-estar e no nosso avanço profissional.

Desejo a toda a nossa categoria, além de um salário digno, boas condições de trabalho, formação de qualidade, que todos os professores tenham a valorização e o respeito que eu experimentei naqueles dois anos em Ribeirão da Anta. Nós e nossas crianças merecemos um país em que a profissão docente seja valorizada e que a Educação seja prioridade.

Um grande abraço a todos e até a próxima semana. Para a Comunidade do Ribeirão da Anta, toda a minha gratidão!

Mara Mansani

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