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Especial | PRÊMIO EDUCADOR NOTA 10 | Histórias pessoais


Por: Paula Salas

Como a história pessoal dos alunos pode transformar a aprendizagem

Ao levantar vivências dos alunos e de suas famílias, os professores Mauro e Ivonete engajaram os estudantes e transformaram suas aulas

"Histórias pessoais trazem uma bagagem que não está nos livros”, diz Mauro da Rosa sobre a matéria-prima do projeto que o levou a se tornar um dos ganhadores do Prêmio Educador Nota 10 de 2018. Experiências de preconceito e discriminação guiaram a produção de uma peça teatral pelos alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da EMEB Isidoro Battistin, em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo. No interior de Mato Grosso do Sul, foi valorizando os saberes e as histórias dos familiares que os jovens de 8º ano da EMEF Professor Milton Dias Porto, em Naviraí, se reaproximaram da Matemática. “Ouvimos relatos como: ‘Meu avô nunca estudou, mas faz cálculo de porcentagem muito rápido, disse que também posso fazer’”, lembra a professora Ivonete Dezinho.

Usar aspectos da vida pessoal dos estudantes permite que eles se relacionem com os conteúdos de uma outra maneira, se aprofundem no aprendizado e, de fato, possam acessar os conhecimentos que vão adquirindo. “Eles aprenderam além do que pede o currículo. Desenvolveram a investigação, a autonomia e outras habilidades com base no cotidiano”, comenta Saddo Ag Almouloud, professor do Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação Matemática da PUC-SP e selecionador do Prêmio Educador Nota 10.

O drama da vida real

CARA A CARA: Projeções de imagens, textos, músicas e interpretação deram voz aos alunos da EJA.
Crédito: Roberto Setton.

Na escola de São Bernardo, as trajetórias e os saberes dos alunos de EJA são o material mais importante para o planejamento. “As pessoas são ricas em experiências e trazer essas questões para a sala de aula é reconhecer o conhecimento ali presente”, comenta Roberto Catelli Jr., coordenador da ONG Ação Educativa, em São Paulo.

Rodas de conversa fizeram com que temas ligados a opressões se mostrassem importantes para a turma que cursava o equivalente ao 8º ano do Fundamental. “Quando minha família descobriu que eu era homossexual, eles começaram a me tratar completamente diferente. Fui expulsa de casa quando era muito jovem”, contou uma estudante. Outro, que já havia sido preso, comentou: “‘Aqui não tem serviço para você não!’ É o que tenho ouvido nas minhas tentativas de achar um emprego”. Por causa de histórias como essas, o tema preconceito foi eleito como o guia das discussões do semestre e todas as disciplinas passaram a abordá-lo de alguma maneira. “Os próprios alunos foram pensando em questões que gostariam de responder até o fim do período e os conteúdos curriculares foram encaixados com base na necessidade deles”, comenta Mauro, que coordenou o projeto e abordou o tema nas aulas de Arte.

Para o fim do semestre, os estudantes quiseram montar uma peça teatral. Mauro trabalhou essa linguagem com jogos cênicos e análises de diversos vídeos. A principal referência foi o Teatro do Oprimido, idealizado pelo brasileiro Augusto Boal (1931-2009). “É uma ferramenta educativa que parte de outros modos de expressão para explorar os temas do mundo social”, explica Inês Barbosa, pesquisadora da Universidade do Minho, em Portugal. “A peça deve conter uma pergunta concreta, sincera e suficientemente mobilizadora”, comenta ela, que fez seu doutorado sobre essa abordagem.

Como resultado, os jovens e adultos elaboraram uma apresentação dividida em quatro atos: cada um envolvia um texto que era projetado sobre uma cortina junto a imagens, uma música de fundo e a encenação, que acontecia por trás do tecido (veja a peça em bit.ly/Vagas-de-Luz). “Foi algo inexplicável. Tivemos uma voz”, comenta Eliziane Neiva, ex-aluna da escola que participou do projeto.

O SOMBRIO: Casos vividos pelos próprios alunos serviram de base para criarem o teatro de sombras.
Crédito: Roberto Setton.

Crédito: Roberto Setton.

Crédito: Roberto Setton.

Crédito: Roberto Setton.

SAIBA MAIS




O PROJETO

Vagas de Luz: À Sombra do Preconceito

NA BNCC

Componente curricular: Arte

Habilidade (EF69AR28): Investigar e experimentar diferentes funções teatrais e discutir os limites e desafios do trabalho artístico coletivo e colaborativo


POR QUE O PROJETO É INOVADOR?


Da história pessoal à peça de teatro

Cinco passos seguidos por Mauro que ajudaram os alunos a transformar seus relatos em material para um teatro de sombras

1) Levantamento
Descubra temas que se relacionam com os alunos. Pergunte: "Quais são as situações-limite que já viveram?"

2) Pesquisa
Estimule-os a pesquisar sobre as vivências narradas pela turma e as questões sociais relacionadas a elas.


3) Exploração

Colagens, desenhos, textos e outras linguagens podem ser utilizados para falar sobre as experiências vividas.

4) Vivência
Aborde a linguagem teatral. Use jogos cênicos e apresente referências para que os alunos pensem na produção final.

5) Produção
Elaborem a peça e recorram às linguagens usadas anteriormente para pensar em roteiro, cenografia e efeitos.

Contas que a família conta

DE FAMÍLIA: Maria Francisca da Silva conta à filha Sandra sobre como usa Matemática em sua profissão.
Crédito: Laura Ávila

Na escola de Naviraí, não saía da boca dos alunos o questionamento: “Para que aprender Matemática?”. “Tínhamos dificuldades de torná-la atrativa e fazer com que eles a vissem como parte do cotidiano”, lembra a professora Ivonete. O resultado desse conflito: desempenho ruim e pouco avanço nas aprendizagens da disciplina. Foi, então, que ela decidiu criar o projeto De Pai para Filho.

O trabalho tratou de investigar como a disciplina aparecia em diversas profissões. Inicialmente, eles pesquisaram sobre carreiras que despertavam a sua curiosidade. Mas o que mudou o jogo foi quando a professora propôs que conversassem com as próprias famílias. Responsáveis preencheram um questionário que perguntava quais cálculos e quais instrumentos de medida usavam no cotidiano. Quando a turma apresentou o que havia descoberto, ficou clara a mudança de atitude. “Eles falavam com orgulho: meu pai faz assim, minha mãe calcula desse jeito, meu avô é fera na soma”, lembra a professora.

Crédito: Laura Ávila

Na etapa seguinte, os jovens criaram, em grupo, situações-problema com base no que haviam descoberto (leia questões no quadro abaixo). As perguntas foram trocadas entre grupos e a turma teve a oportunidade de discutir sobre as estratégias que foram usadas para resolvê-las - muitas, inspiradas no que aprenderam com os familiares. “Para criar consignas, o aluno deve entender muito o assunto, até para saber o que pode levar ao erro e bolar alternativas erradas”, diz Priscila Monteiro, coordenadora da pós-graduação em Educação Matemática do Instituto Vera Cruz, em São Paulo.

Para além do avanços no conteúdo, o maior ganho foi a desmistificação da Matemática como algo para poucos. “Essa troca de experiências com as famílias nos aproximou e reforçou laços”, ressalta Ivonete. A aluna Isabely de Lima Perim, 14 anos, filha de Lucinara Lima, comenta que mudou sua visão sobre as aulas. “Não imaginava que poderia ser assim. Me aproximei da minha mãe com o projeto. Não conversávamos tanto, hoje nos falamos todo dia”, diz a estudante.

DE FAMÍLIA: Lucimara Lima mostra para sua filha Isabelu como a Matemática está presente na confeitaria. 
Crédito: Laura Ávila

SAIBA MAIS


O PROJETO

De Pai para Filho: Uma Abordagem do Ensino da Matemática nas Profissões

NA BNCC

Componente curricular: Matemática

Habilidade (EF06MA24): Resolver e elaborar problemas que envolvam as grandezas comprimento, massa, tempo, temperatura, área (triângulos e retângulos), capacidade e volume (sólidos formados por blocos retangulares), sem uso de fórmulas, inseridos, sempre que possível, em contextos oriundos de situações reais e/ou relacionadas às outras áreas do conhecimento

POR QUE É INOVADOR?

Em cada profissão, muitos problemas

Os estudantes elaboraram questões com base nos usos da Matemática que pesquisaram na internet, com familiares e com conhecidos

Questão de saúde
A PERGUNTA: Um paciente tomou 60 comprimidos durante um tratamento. Cada comprimido tem 25 mg. Quantos gramas de remédio ele ingeriu durante esse tratamento?

CONCEITO ENVOLVIDO: Cálculos com conversão de medidas de massa (relação entre gramas e miligramas).

Conta de padeiro
A PERGUNTA: Um padeiro usa 25 g de fermento para cada 100 pães. Quanto ele usaria de fermento para 500 pães?

CONCEITO ENVOLVIDO: Unidades de medida de massa e cálculos envolvendo grandezas diretamente proporcionais.

O problema
A PERGUNTA: Um grupo de estudantes vai almoçar em um restaurante. O valor da conta foi de R$ 83,00 já acrescido de 10% referente a gorjeta para o garçom. Qual o valor da despesa sem incluir a gorjeta?

CONCEITO ENVOLVIDO: Porcentagens que utilizam o sistema monetário.

Ilustrações: Rachel Denti