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Especial | PRÊMIO EDUCADOR NOTA 10 | Relação com o entorno

Quando o professor acredita no poder educativo da cidade

No Rio de Janeiro, dois projetos apostaram que, saindo dos muros das escolas, aumentariam a autoestima e a consciência dos jovens alunos

POR:
André Bernardo

Exatos 51 quilômetros separam a EM Áttila Nunes, no bairro de Realengo, na Zona Oeste do Rio, da EM Levi Carneiro, no Sapê, na Região Oceânica de Niterói. Entre as duas, está a zona metropolitana da capital fluminense, com suas atrações naturais, artísticas e culturais, mas também seus problemas ecológicos e suas contradições sociais. Foi esse espaço que serviu de base para dois dos projetos ganhadores do Prêmio Educador Nota 10 de 2018. Apesar de não se conhecerem, José Marcos de Assis Couto Júnior, professor na rede municipal carioca, e Ana Paula Teixeira de Mello, de Niterói, criaram projetos de História e Geografia, respectivamente, que compartilham o objetivo de levar o mundo real para dentro da escola e guiar os estudantes a explorar as redondezas (nem sempre tão próximas). “Sempre gostei de dizer aos meus alunos que o mundo é muito maior que a Capitão Teixeira”, relata José Marcos, em alusão à principal rua do bairro onde trabalha, um dos mais violentos do Rio.

ESTREIA: Parte dos alunos de Realengo nunca havia ido ao teatro ou visitado uma exposição antes do projeto. Crédito: Valda Nogueira

A ideia para José Marcos criar o projeto As Caravanas: Limites da Visibilidade veio do enredo da escola de samba Renascer de Jacarepaguá, em 2017. A música falava sobre personagens invisíveis da História do Brasil, como João Cândido (1880-1969), o Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata, e Carolina Maria de Jesus (1914-1977), uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do país. O professor decidiu, então, junto com a também professora de História Ana Beatriz Ramos de Souza, elaborar um projeto que discutisse o porquê desses personagens serem tão pouco conhecidos.

A ideia ganhou ainda mais robustez ao ouvir As Caravanas, faixa-título do mais recente álbum de Chico Buarque, que fala sobre o desconforto da classe média carioca com a ida de jovens de periferia às praias da Zona Sul da cidade. “Notamos uma semelhança incrível com o que vivemos. Queríamos mostrar às crianças que alguns setores da sociedade não as enxergam e estimulá-las a vencer isso”, conta o docente.

O início do trabalho se deu com uma provocação. “Numa das aulas, perguntei aos alunos osnomes dos funcionários. Nenhum deles soube dizer. Não é só a História do Brasil que é povoada por personagens invisíveis. A nossa sociedade também é”, diz ele. Ao longo do semestre, os alunos assistiram ao filme O Papel e o Mar (disponível em bit.ly/papel-mar) e ouviram e discutiram músicas de Chico Buarque que abordavam diferentes aspectos da invisibilidade e das relações entre o subúrbio e a Zona Sul cariocas (leia quadro abaixo). “O professor optou por um compositor provavelmente desconhecido pelos alunos. Pode ser uma boa estratégia para inserir novos pontos de vista no arcabouço cultural da comunidade”, diz Ivan Siqueira, músico e professor da Escola de Comunicações e Artes da USP.

O trabalho deu espaço para que discussões históricas acontecessem. Os alunos pensaram sobre a formação da cidade e discutiram as consequências da escravidão ter sido abolida sem que o Estado providenciasse um suporte aos libertos e a suas famílias. Em um exercício de imaginação, reescreveram a Lei Áurea, discutindo os limites e as contradições do documento.

A relação entre centro e periferia esteve presente ao debaterem quais eram as alternativas de lazer disponíveis para os jovens nas proximidades da escola e os equipamentos culturais que existiam em outras regiões da cidade. Parte importante do trabalho foi promover visitas a espaços antes pouco frequentados pelos alunos, como o teatro e o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). “O professor teve a sensibilidade de reconhecer a realidade deles e criar alternativas para que estudassem e fossem além do espaço que conhecem”, destaca Antônia Terra, professora do departamento de História da USP e selecionadora do Prêmio Educadora Nota 10.

Crédito: Valda Nogueira

Os debates deram origem a produções textuais. Parte delas foi organizada pelos professores na coletânea Que Sejam Lidos, Que Sejam Vistos, lançada em um evento com direito a leituras em voz alta e sessão de autógrafos. “Um dos objetivos era aumentar a autoestima dos alunos e ajudá-los a descobrir seu lugar no mundo”, explica Ana Beatriz. Funcionou. “Não são todos os professores que acreditam no nosso potencial. Esses dois viviam dizendo: ‘Vocês podem chegar lá. Basta querer!’”, diz Karoline Oliveira, 14 anos. Ela está tão convencida disso que, a exemplo da maioria da turma, já se inscreveu para as provas de colégios federais, como o Pedro II.

SAIBA MAIS




O PROJETO
As Caravanas: Limites da Visibilidade

NA BNCC 

Componente curricular: História

Habilidade (EF08HI20): Identificar e relacionar aspectos das estruturas sociais da atualidade com os legados da escravidão no Brasil e discutir a importância de ações afirmativas

POR QUE O PROJETO É INOVADOR?

Chico Buarque canta sobre a sociedade
Quatro canções para discutir as relações sociais e a diferença entre centro e periferia

As Caravanas
Critica a classe média carioca, que se incomoda com os jovens da periferia (chamados de “suburbanos tipo muçulmanos”), que se deslocam até a Zona Sul da cidade para frequentar a praia nos fins de semana.


Geni e o Zepellin
A conduta hipócrita da cidade fica evidente quando Geni, julgada e humilhada pela fama de se relacionar com muitas pessoas, se torna a única esperança de impedir a destruição da cidade.


Construção
A monótona rotina de um pedreiro termina com sua morte em um acidente. O fato evidencia a invisibilidade dele para a sociedade, pois acaba atrapalhando o tráfego, o público e o sábado.


O Meu Guri
Narrada por um familiar, a música conta a história de um jovem que nasce pobre, mas supera a condição ao se envolver com o crime. A história acaba com ele preso e com seu rosto estampado nos jornais.

A cidade que ninguém vê

EM CAMPO: Em Niterói, os jovens visitaram um sítio arqueológico cuja existência desconheciam. Crédito: Valda Nogueira.

Do outro lado da Baía de Guanabara, a inspiração para bolar um link entre conteúdo e território – ou, para ser mais exato, Geografia e Niterói – nasceu durante uma roda de conversa feita pela professora Ana Paula com alunos do 6º e do 7º anos. Ao perguntar o que os jovens mais gostavam de fazer no bairro onde moram, a educadora ouviu como resposta adjetivos pouco lisonjeiros, como “chato”, “feio” e “sem graça”. Se ela sentiu o impacto dessas duras palavras, não demonstrou e, logo em seguida, emendou outra pergunta: “E nos fins de semana, qual é o programa favorito?”. Dessa vez, a turma respondeu em alto e bom som: ir às praias de Piratininga e Itaipu. “Foi aí que tive a ideia de trabalhar educação patrimonial com os bens culturais da cidade.”

Crédito: Valda Nogueira.

O projeto O Meu Lugar: Educação e Memória de Niterói abordou conceitos típicos da Geografia como espaço, paisagem e lugar. A ideia era que os alunos compreendessem como os locais em que circulam haviam se transformado ao longo do tempo. Nas praias frequentadas pelos jovens, foram encontrados diversos vestígios originários até do ano 6.000 a.C. Nos sambaquis, estão presentes conchas, ossos, pedras e outros materiais que ajudam a compreender como viveram civilizações que ocuparam aquele espaço antes deles. “Trabalhar a educação patrimonial é crucial para despertar nos alunos a consciência de cuidar do que é seu”, afirma Henrique Kozlowski, geógrafo e mestrando em Antropologia na USP.

Crédito: Valda Nogueira.

Uma das fases mais esperadas foi a visita de campo para o sítio arqueológico e o Museu de Arqueologia de Itaipu (MAI), onde aprenderam técnicas de escavação. “Quero que o aprendizado faça sentido em suas vidas”, afirma Ana Paula. Maria Eduarda, 12 anos, complementa: “Quando saio da escola, aprendo mais. Posso ver, sentir, tocar. Fica mais fácil entender a matéria”.

VER E FAZER: A visita ao sítio arqueológico inspirou a turma a montar um experimento ao voltar à escola. Crédito: Valda Nogueira

De volta à sala de aula, a turma elaborou uma oficina de arqueologia (leia no quadro abaixo). A proposta era reproduzir, dentro do laboratório de Ciências, um sítio arqueológico igual ao que haviam conhecido. Para alegria dos futuros arqueólogos, o trabalho foi exposto em feiras de Ciências municipal e estadual. “Eles se sentiram importantes por representar a escola num grande evento”, explica a professora.

No final do projeto, Ana Paula diz que foi embora a sensação inicial de que a cidade de Niterói não tinha nada de interessante, se comparada com a capital do estado, exaltada em filmes, novelas e canções. “Sempre ensinei aos meus alunos que a diferença que eles tanto procuravam no bairro onde moram poderia ser eles mesmos. Quero que eles sejam protagonistas das próprias vidas”, afirma a educadora.

SAIBA MAIS




O PROJETO

O Meu Lugar: Educação e Memória de Niterói

NA BNCC

Componente curricular: Geografia

Habilidade (EF06GE01): Comparar modificações das paisagens nos lugares de vivência e os usos desses lugares em diferentes tempos. 

POR QUE O PROJETO É INOVADOR?

Arqueólogos na própria escola

Como funciona o trabalho de um arqueólogo? Os alunos de Ana Paula prepararam uma oficina para mostrar como funciona essa profissão

1) Preparando a demonstração
Em uma caixa incolor, eles despejaram areia de diversas espessuras (comprada em lojas de material de construção). Dentro depositaram ossos de animais (retirados de restos de comida) e conchas (também compradas em lojas especializadas).

2) Encontrando os vestígios
A procura deve ser cuidadosa. Por serem “velhos”, os materiais podem se danificar facilmente. Uma pá pode ser utilizada para mover grande quantidade de areia, mas sempre que algo é localizado, o pincel entra em ação: por ser mais delicado, há menos riscos de ele danificar o objeto.

3) Armazenando e entrevistando o fóssil
Tudo o que for encontrado deve ser armazenado com cuidado em sacos plásticos. Nesse momento, é possível “entrevistar” o achado: se for um osso, é possível analisar o tamanho e a anatomia para deduzir de qual grupo de animais ele pertence.

Ilustrações: Rachel Denti