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Educação Midiática trabalha competências essenciais para o cidadão do século 21

Especialistas norte-americanas implantaram trabalho com mídias que evoluíram para grandes projetos envolvendo comunidades

POR:
Anna Rachel Ferreira
Foto: Getty Images

Comunicação, criatividade, colaboração e pensamento crítico. Eis as quatro habilidades que o cidadão do século 21 deve ter, segundo estudiosos. Pensando nelas, duas professoras dos Estados Unidos concluíram que a melhor maneira de trabalhá-las de maneira harmoniosa é o Jornalismo. “Para criar um material jornalístico em qualquer plataforma, o aluno precisará se comunicar com fontes de informação e com o público, ele deverá ser criativo nas maneiras como apresentará tal informação, precisará trabalhar colaborativamente com o restante da equipe que o apoiará nas várias funções que compõem a área e ainda precisará ser capaz de analisar criticamente as informações que chegam até ele e decidir se elas são ou não válidas”, explica a professora Esther Wojcicki, da Palo Alto High School, e criadora da abordagem educacional Moonshot.

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A mudança que começa dentro da sala de aula

Na escola de Esther, situada na região do Vale do Silício, a prática jornalística se dá como disciplina eletiva. De 2 mil alunos matriculados na unidade, atualmente, 600 a escolheram. A docente, que também é jornalista, conta que iniciou o projeto em 1984, com apenas 20 alunos, dentro de um trailer estacionado na escola. “Não são necessários muitos equipamentos para criar um projeto como esse. Se você se engajar, com o tempo, vai conseguindo estabelecer parcerias que nem imaginava e o trabalho cresce”, explica. Hoje, a escola de Ensino Médio Palo Alto High School conta com um prédio dedicado ao Media Arts Center (Centro de Mídia e Artes), em que são criados 12 títulos jornalísticos em todas as plataformas. Há revistas, jornal, website, programas de rádio e televisão produzidos pelos adolescentes com a supervisão de cinco professores.

Mas, a professora ressalta que o projeto só foi possível por conta de uma mudança de postura da parte dela. “Nós, educadores, precisamos deixar que os jovens sejam donos da construção do próprio conhecimento e também aprender com eles”, defende. Ela conta que, certo dia, viu um computador em uma vitrine. Então, ela fez uma solicitação de fundos para o governo e recebeu um aparelho em sua escola. Só que, quando o equipamento chegou, ela não fazia a menor ideia de como utilizá-lo. Foi nesse momento que decidiu pedir ajuda aos estudantes com o intuito de descobrir, junto com eles, como fazer. “Notei que ao ser dado um desafio em que todos estávamos envolvidos como pares, eles se engajaram de modo que eu nunca tinha visto”, relembra entusiasmada e completa afirmando que: “ Hoje em dia, isso faz ainda mais sentido, já que claramente nós já não somos detentores do conhecimento”.

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Durante as aulas do programa de jornalismo, os adolescentes trabalham em uma das doze publicações criadas na escola escolhida por eles, de acordo com a disponibilidade de vagas. O dia a dia é de uma redação, com reunião de pauta – ou seja, definição de temas a serem abordados naquela edição -, divisão de tarefas, definição de prazos para entrega, edição, revisão e, finalmente, publicação. O professor está presente em todas as etapas, porém atuando como mentor e não se colocando como alguém que apenas dá ordens. “Isso é muito importante: o nosso professor está ali para dar um direcionamento e apoiar os estudantes. Ele faz a revisão final do texto, instiga os alunos com perguntas que os façam refletir sobre sua prática e faz algum ajuste de percurso que se mostre necessário”, afirma.

Além de crescer dentro da unidade escolar, o programa se ampliou para a comunidade como um todo. A Palo Alto High School, em parceria com a Escola de Jornalismo da Universidade de Oregon, criou o Media Arts Institute (Instituto de Mídia e Artes). O instituto conta com três programas de jornalismo em horários alternativos para atender crianças e adolescentes em idade escolar. E não para por aí. Neste ano, será oferecido treinamento para o desenvolvimento desse tipo de programa a todos os professores de escolas públicas do distrito que se interessarem.

Uma mudança proposta para toda a rede

Enquanto o projeto de Esther começou em sala de aula, em Rhode Island, menor estado americano, o trabalho já iniciou como proposta para todas as escolas da rede. Tudo começou quando, em 1999, a educadora Pam Steagger completou o programa de Estudos de Alfabetização Midiática com a professora Renee Hobbs, do Media Education Lab (Laboratório de Educação Midiática), na Faculdade Babson. Trabalhando por muitos anos com a prevenção de casos de abusos e violência em sistemas educacionais, ela tinha notado que a mídia consumida pelos jovens com os quais trabalhava além de não fornecer informações importantes para evitar os casos de abuso e violência, acabavam incentivando tais comportamentos. Foi essa percepção o que a levou a estudar o tema das mídias e promover uma mudança no contexto escolar.

Para começar, ela escreveu um projeto, fez uma aplicação para uma solicitação de fundos federais para Alfabetização Midiática e foi uma das dez contempladas em todo o país para implementar seu projeto na cidade de Providence, capital do estado. O resultado foi o Media SmART! Entre os anos de 2000 e 2003, o programa treinou 75 professores, bibliotecários e advogados durante cursos de férias; os pais foram ensinados sobre a importância da alfabetização midiática em casa e na escola; e os estudantes se concentraram em aprender sobre violência na mídia e como criar sua própria mensagem midiática por meio de workshops de vídeo em clubes que aconteciam no contra turno escolar. “Esse tipo de trabalho faz sentido para o mundo em que os alunos estão inseridos fora da escola, o que aguça a curiosidade deles. Quando educandos são inspirados a ler mais profundamente, fazer perguntas críticas e se expressar, há espaço para acontecer uma aprendizagem realmente significativa”, destaca Renee Hobbs.

Desde  o início do projeto, muitas parcerias foram estabelecidas num esforço de toda a comunidade escolar para a inserção da Alfabetização Midiática na Educação Básica e elas se mostraram essenciais para que o projeto alcançasse as dimensões que tem hoje. Pam junto com a equipe do Media Education Lab convidou profissionais de produção de vídeo, estudantes universitários, voluntários da própria comunidade, o Conselho de Artes do Estado de Rhode Island e universidades a aderirem à ideia. E funcionou. Desse modo, a estado ganhou workshops de produção de vídeo e até uma disciplina dedicada à Alfabetização Midiática na Faculdade de Rhode Island. Pode parecer complicado engajar tantas pessoas em uma mesma ideia. Mas, segundo Renee, basta conversar melhor sobre o assunto. “Mesmo quando nós temos diferentes ideias sobre pelo quê as pessoas são empoderadas ou precisam de proteção na mídia e tecnologia, nós acreditamos que pensamento crítico e expressão criativa são vitais para todas as pessoas, dos jovens aos idosos”, explica.

Reconhecimento

Atualmente, o projeto ganhou desdobramentos e muito reconhecimento. Em 2013, mais de 700 educadores, bibliotecários e professores universitários participaram do Instituto de Verão em Alfabetização Digital, em Providence. No ano seguinte, a Universidade de Rhode Island criou o Media Smart Libraries, um programa avançado de Alfabetização Midiática para escolas e bibliotecas públicas do estado. Finalmente, em 2017, foi aprovada a Lei da Educação e Alfabetização Midiática que incorpora o tema no programa de toda a Educação Básica no estado. “A comunidade da área de Educação deve perceber que a Alfabetização Midiática inclui o trabalho com competências que já estavam nos nossos objetivos de aprendizagem, porém com uma abordagem mais significativa e atual. Alguns exemplos são interpretação de texto e análises, comparação e contrapontos, argumentação para debates e a possibilidade de se colocar no lugar do outro”, defende a docente.

A transformação que está acontecendo em Rhode Island é apenas um dos projetos apoiados pelo Media Education Lab. Em todo o país, eles atuam realizando pesquisas, apoiando projetos, conectando pessoas que desejam trabalhar com mídia nas escolas, criando ferramentas online gratuitas e trazendo visibilidade ao tema. Todo o material do laboratório está disponível em https://mediaeducationlab.com/ . Mas, se tudo ainda parece grandioso demais, Renee avisa: “O conceito de Alfabetização Midiática vem muito antes da era digital. Assim sendo, ainda que você não tenha disponível ao menos um computador ou smatphones com acesso à internet é possível iniciar um trabalho com as mídias impressas”. Ela completa explicando que mais importante do que os equipamentos disponíveis é a atitude do professor. “O docente precisa estar motivado a querer explorar um tema para engajar seus aprendizes e, além disso, estar disposto a aceitar seu papel de coaprendiz ao lado deles”, finaliza.

 

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Este conteúdo é parte do projeto Palavra Aberta, em parceria com a NOVA ESCOLA, e apoio do GOOGLE, para incentivar a Educação Midiática e a liberdade de expressão.

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