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Escolas particulares são sempre melhores do que as públicas?

Dados do Ideb e Pisa mostram que, mesmo com notas maiores, instituições privadas podem não atingir metas de ensino

POR:
Paula Calçade

No imaginário comum da sociedade brasileira existe a crença de que as escolas privadas possuem sempre uma qualidade de ensino muito superior à das públicas. Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) revelam diferenças entre escolas particulares e públicas, que realmente colocam as instituições privadas na frente em todos os ciclos de ensino no país. Mas os contextos por detrás dos números são importantes e mostram realidades e evoluções diversas, além de desafios e questões até mesmo similares.

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Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, a nota das escolas particulares ficou em 7.1 em 2017 no Ideb, mas não atingiu a meta para o período, enquanto as públicas ficaram com 5.5 na média, porém alcançando a evolução estipulada. Apesar de obterem notas mais elevadas também nos anos finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio, as escolas privadas não atingiram as metas novamente, assim como as públicas.

Com isso, a diferença nos resultados entre as duas redes começa menor no 5º ano do Ensino Fundamental e vai se ampliando no 9º ano, para 2 pontos, chegando a 2,3 pontos no Ensino Médio.

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Segundo Priscila Cruz, presidente executiva do Todos Pela Educação, as crianças e os jovens vão acumulando defasagens ao longo da trajetória. “Como a rede particular seleciona por meio da mensalidade, esses alunos com dificuldades vão saindo e vão ficando aqueles que têm melhor desempenho”, explica, ressaltando que o desafio de lidar com a heterogeneidade nos níveis de aprendizagem, enfrentado pelas escolas públicas, pode não ser vivenciado nas instituições particulares, o que se reflete também em notas mais altas.

Priscila afirma que é necessário contextualizar as escolas particulares para entender a razão pela qual seus alunos podem ter resultados melhores em avaliações. “As pessoas tendem a pensar na qualidade da escola privada tendo como referência colégios de alta excelência. Entretanto, a maioria das escolas particulares agrega em aprendizagem ao aluno o mesmo que a escola pública, o que muda é que o aluno que vai para a particular já está em um ambiente mais favorável que lhe dá mais oportunidades de aprendizagem fora da escola”, afirma.

Não há um estudo que correlacione a qualidade do ensino com o valor da mensalidade paga. Mas, para a presidente executiva do Todos Pela Educação, garantir boa infraestrutura, além de bons salários, boas condições de trabalho e formação continuada adequada aos professores custa dinheiro. E o orçamento para a Educação, para o ano de 2018, é de R$ 103,5 bilhões. “Isso não quer dizer que apenas mais dinheiro é suficiente. Usar bem é fundamental. E há casos de redes públicas de ensino que fazem uma boa gestão dos recursos”, afirma, enfatizando que é preciso planejamento e ação para colocar a Educação como prioridade de fato e alcançar metas.

Outros países

“Quando o foco não é a aprendizagem do estudante e, sim, apenas a prova e o repasse de conteúdo, todos vão mal”, resume Pedro Demo, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (Unb) e especialista em Política Social com enfoque em Educação. Para ele, apesar das cifras do Ideb serem superiores na escola privada, pedagogicamente, a escola privada faz parte das questões da Educação brasileira, que são reveladas também através dos diagnósticos dados pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa). 

O desempenho dos alunos mais ricos do Brasil, dentro do Pisa, não chega ao patamar de desempenho dos alunos mais pobres de países como Vietnã e Estônia, que são países de baixo Produto Interno Bruto (PIB) per capta. A camada de alunos mais pobres da Estônia tirou em média acima de 500 pontos nas áreas avaliadas pelo Pisa. Já no Vietnã, a marca foi de 490 pontos. Os alunos mais ricos brasileiros tiraram, em média, 480 pontos. Os resultados desses alunos da camada com o maior nível socioeconômico brasileiro são inferiores ainda a de alunos da camada média da Itália e Luxemburgo e próximos, mais ainda abaixo, dos estudantes mais pobres do Reino Unido e da Austrália.  

Diante dessa realidade enfrentada tanto pela rede pública como privada, Priscila Cruz enfatiza que para se avançar na qualidade da Educação é central melhorar as políticas docentes. “A qualidade de um sistema educacional, seja ele público ou privado, depende da qualidade dos professores”, afirma. E, para Pedro Demo, a escola pública carrega nas costas a diversidade que constitui a maioria da população brasileira e, com isso, não basta uma escola nem mesmo mediana. A questão pode ser melhor compreendida também na comparação dos números de alunos na rede pública e na rede privada. Segundo o Censo Escolar de 2017, o país tinha 48,6 milhões de alunos matriculados na educação básica; 19% deste total na rede privada, ou apenas 9,23 milhões de estudantes.

“As escolas privadas têm uma vantagem fatal: cuidar da elite, uma situação que também é covarde. A escola pública carrega nas costas toda a diversidade do povo e, como sempre, para pobre basta uma escola pobre. A elite quer escola própria, para fugir desta vala comum”, conclui Pedro.

 

Essa reportagem faz parte da campanha Mentira na Educação, não!, que realizará checagens de notícias sobre Educação. A iniciativa é realizada por NOVA ESCOLA, com apoio do INSTITUTO UNIBANCOINSTITUTO ALANACANAL FUTURA e FACEBOOK.

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