BNCC: a polarização que ensurdece

OPINIÃO: falta de abertura, engajamento com os outros, empatia e respeito. As atitudes socioemocionais ao longo das audiências mostram a urgência de refletir sobre a Educação que estamos construindo

POR:
Paula Peres, Laís Semis



“Não adianta continuar essa conversa porque vocês não nos escutam”, desabafou uma professora visivelmente irritada dirigindo-se ao conselheiro Francisco Soares, na última audiência sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do Ensino Médio, no dia 14 de setembro. Ao que o conselheiro, também estafado, rebateu: “Você escolhe parar de falar e diz que nós não estamos te ouvindo? Eu não estou aqui te ouvindo?”.

O episódio que aconteceu no encerramento do ciclo de consultas públicas (ainda que tenham seu caráter público questionado) ilustra uma triste constatação feita por nós, repórteres de NOVA ESCOLA, que acompanhamos o processo: falta diálogo e empatia no setor que mais prega e pede o diálogo e a empatia a seus estudantes.

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Ao longo de 2017 e 2018, acompanhamos quase todas as audiências públicas da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Das 10, estivemos presentes em 8. As outras duas, acompanhamos à distância. Nesse período, ouvimos membros do Conselho Nacional de Educação (CNE), que são os responsáveis pelas audiências; estudantes; professores; acadêmicos; entidades favoráveis e contrárias ao documento e o Ministério da Educação (MEC). Ouvimos as manifestações no palco, fizemos entrevistas, analisamos as contribuições recebidas pelo Conselho em 2017, debatemos internamente os argumentos dos dois lados.

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De alguma forma, o panorama das audiências não foi tão diferente assim de 2017 para 2018: instituições apresentando suas análises sobre o documento, poucos docentes apresentando complementações sobre conteúdos específicos, muita gente querendo mostrar a importância da sua pauta. Mas enquanto no ano passado muitos dos embates giraram em torno de questões como gênero, religião, alfabetização e Educação Infantil, neste ano a discussão se limitou ao apoio ou repúdio do documento.

Respeito ao direito alheio

O cronômetro corria no telão da audiência igual para todos: três minutos para cada manifestação dos participantes. Em uma audiência em que a média de participação é de 300 pessoas, estipular tempo (mesmo que curto) é importante. Nesse contexto de igualdade, passar desse tempo seria roubar o tempo do outro, além de injusto com quem se limitou ao tempo estipulado. Ainda assim, houve quem abusasse e deixasse o relógio correr por cinco minutos – mesmo com os pedidos para encerrar. Mesmo depois que o microfone foi desligado. Só quando os seguranças apareceram é que o pedido de encerrar foi acatado.



Queremos acreditar que todos os profissionais que trabalham com Educação, do monitor escolar ao ministro, defendem o diálogo como a melhor maneira de se construir conhecimento e encontrar saídas para problemas comuns. Vimos pessoas que, quando acompanhadas de seus pares, são amistosas e gentis, mas no debate não se abrem para ouvir o argumento do outro. E isso dos dois lados.

Tentativa de reconhecer o lado do outro

Ao final da última audiência, o conselheiro e um dos relatores do documento Chico Soares fez uma retomada dos principais argumentos que apareceram ao longo do dia. “Quando nós trabalhamos no sentido de produzir algo que seja comum e quando falamos de cidadania, estamos articulando algo que não é simples. Mas dizemos que todos nós, independentemente de quem somos, temos uma dimensão em comum”. Cuidadosamente, ele tomou nota e fez referência às críticas postas pelos participantes ao microfone (na última e em outras audiências):

- Os direitos colocados pela Base poderiam ser prejudicados pela falta de financiamento da Educação, bem como a implementação do documento;
- Os itinerários formativos não são claros e também teriam dificuldades de serem implementados;
- As opções de acesso aos itinerários seriam comprometidas nas cidades com apenas uma escola de Ensino Médio (mais da metade dos municípios brasileiros só possuem uma unidade que atenta à etapa de ensino);
- A crítica de que a Base seria uma forma de facilitar as avaliações externas;
- Obrigatoriedade apenas dos componentes Língua Portuguesa e Matemática e ausência das outras áreas.

Além disso, o conselheiro reconheceu todas as manifestações que pediram para que a reforma e o texto da BNCC do Ensino Médio fossem revogados. “O papel do CNE é ouvir. Ouvimos em todas as oportunidades que foram possíveis”, explicou. “A revogação está fora do CNE. Os conselheiros podem se manifestar de maneira individual e vamos tomar a decisão encaminhada pelo coletivo”. Antes mesmo que pudesse concluir suas considerações, Chico Soares foi interrompido por acusações de que não adiantava conversar porque não seriam ouvidos e palavras de ordem que pediam a revogação do documento. A impressão é de que ninguém tinha ouvido o que o conselheiro acabara de falar.



Há que se reconhecer, porém, que aqueles contrários ao documento chegaram à audiência cansados de ver todas as etapas se encaminharem para a aprovação sem que tivessem a chance de dizer o que queriam lá no início: “Não queremos esse documento”. Muitos encontram, nas audiências públicas, o único espaço aberto pelos órgãos oficiais (CNE e MEC se misturam neste momento, tornando-se “o governo”) para serem consultados. Na ânsia de se fazerem ouvir, educadores perdem o foco do momento em que a Base está e cobram algo que deveria ter sido feito no começo do processo: exercer a participação democrática, a construção coletiva, o fazer junto.

Por que isso acontece?

Diante dessa dinâmica de disputa para ser ouvido e falar mais alto, é impossível não pensar que o ensino brasileiro realmente falhou em desenvolver determinadas competências nos cidadãos – as tais das socioemocionais. Não fomos ensinados a nos desenvolver social e emocionalmente. O importante até então era o conteúdo na lousa e nos livros didáticos.

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As competências socioemocionais – como bem diz o documento da BNCC – mobilizam conhecimentos, habilidades, atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana (essa, tão versátil, variável, adaptável, renovável?). Além de auxiliar no desenvolvimento das competências cognitivas (afinal, é preciso persistência, foco, curiosidade e autoconfiança para avançar na aprendizagem), elas também reverberam nas relações interpessoais.

Ao analisar os impasses de escuta das audiências, a ausência de algumas competências salta aos olhos: falta abertura ao novo, engajamento com os outros, empatia, respeito, resiliência emocional.



O cenário não é muito diferente do que vivemos no país. Com a intensa polarização política enfrentada pelo Brasil, o volume de quem busca um lugar de fala é cada vez mais alto. Quem não compartilha da mesma opinião é, claramente, o “inimigo” e merece ser massacrado. Mais importante que ouvir, é ser ouvido. Mais importante que dialogar, é garantir que a fala se sobressaia. Se não adiantar, vamos falar mais alto. Se, mesmo assim, a pessoa do outro lado não mudar de opinião, é porque não quer te ouvir.

É essa a Educação que queremos mostrar publicamente nos espaços públicos de discussão, nas nossas redes sociais e entre pessoas em conversas presenciais? É essa a Educação que queremos reproduzir nas escolas? É esse projeto de país que queremos construir na Educação? Precisamos aprender a ouvir e argumentar. Precisamos considerar mais o outro. É nossa vez de ensinar as futuras gerações, e para ensinar algo tão sensível quanto as competências socioemocionais, precisamos desenvolvê-las primeiro.