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Ensino Superior é mesmo o grande sonho do jovem brasileiro?

Média da população jovem brasileira com diploma superior é uma das menores entre 44 países

POR:
Laís Semis

Se você tivesse a chance de escolher entre o Ensino Técnico Profissionalizante e o Ensino Superior, o que você faria?

Muitos brasileiros não têm esta chance – devido a condições socioeconômicas desfavoráveis ou ao início precoce no mercado de trabalho. No entanto, esta escolha ou falta de escola tem sido discutida com frequência na campanha eleitoral de 2018. Recentemente, o candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL) declarou em entrevista ao canal Globo News que “há uma certa tara por parte da garotada em ter um diploma”.

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O candidato afirmou que seria melhor se muitos destes jovens buscassem o ensino profissionalizante. A justificativa apresentada pelo candidato do PSL seria de que os cursos técnicos poderiam dar um bom retorno financeiro: “É bom [ter Ensino Superior]? Sim, vamos ter nossos mestres, nossos doutores, sim. Mas se você no Ensino Médio colocar algo técnico, você melhora nossa economia”.

Mas será que os jovens brasileiros olham para o diploma do Ensino Superior apenas como um troféu? E, ao fazer isso, não estariam também pensando em conquistas pessoais e possíveis ganhos econômicos? E o que há de errado em sonhar com uma conquista pessoal?

Não há um mapeamento que prove que o jovem brasileiro sempre almeja o ensino superior. Uma pesquisa recente tentou verificar justamente o que o jovem espera de seus estudos. A pesquisa mediu as aspirações dos jovens que estão concluindo o Ensino Fundamental ou cursando o Médio da rede pública brasileira de ensino. E indicou que apenas 4 em cada 10 adolescentes de 15 ou 16 anos de escola pública almejam concluir um curso superior de quatro anos de duração ou mais. É o que mostra um levantamento realizado pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), a partir dos questionários do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), de 2015. Os questionários do Pisa foram preenchidos por 17.523 alunos de 15 ou 16 anos, de todos os estados brasileiros. Ao todo, 15.087 desses estudantes são provenientes de escolas públicas e 2.346, de escolas privadas.

O nível socioeconômico impacta na ambição sobre as perspectivas de continuidade de estudos. Entre os estudantes da rede particular, o número entre os que pretendem cursar o Ensino Superior sobe para 7 entre 10 adolescentes.

Ernesto Faria, diretor executivo do Iede, lembra que a pesquisa se concentrou na expectativa do jovem. “A pergunta do Pisa fala de qual nível o jovem ‘espera’ ter, não sobre qual deseja. É um pouco diferente, o jovem pode querer, mas não acreditar que vai conseguir.”

Para Ernesto é possível que mais jovens desejem o diploma do que esperem concluir o curso superior. “Esperar tem a ver com acreditar que conseguirá pagar a faculdade, que conseguirá ingressar, se manter [na faculdade]”, conclui.

Para Adolfo Ignacio Calderón, professor titular do Programa de Pós-Graduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Campinas) e pesquisador bolsista do CNPq, não existe uma “tara” pelo diploma de curso superior.

“Não podemos falar do ‘jovem’ como categoria abstrata. Se falamos dos jovens das classes populares, estudos demonstram que a maioria deles nem sequer almeja entrar em uma USP ou em uma federal. Não têm esperança ou condições econômicas, não existe espelho familiar, é uma questão de segregação e exclusão social. As políticas de ampliação de acesso ao ensino superior, como o Prouni, se revelam insuficientes e os poucos que almejam chegar ao Ensino Superior acabam adquirindo uma graduação de qualidade altamente questionável em instituições de Ensino Superior com fins lucrativos. Se o jovem tivesse ‘tara’ pelo título universitário não teríamos, aproximadamente, 1,5 milhão de jovens fora do Ensino Médio, nem teríamos taxas de evasão beirando aos 12%, nem baixíssimo desempenho escolar nas avaliações governamentais.”

Mais do que “tara”, na visão do professor, o que existe “é uma arraigada cultura que hipervaloriza o título universitário, em detrimento de outros cursos técnicos e profissionalizantes que podem gerar maior empregabilidade. Nessa lógica, se o importante é ter o canudo, não importa sua forma de obtenção.”

“Esta cultura se vê fortalecida por políticas estatais de expansão do número de matrículas no Ensino Superior privado bastante permissivas com as instituições pouco preocupadas com a qualidade. Assim, temos instituições de educação superior, altamente predatórias, que acabam concorrendo no mercado educacional com instituições sérias e que, mesmo pertencendo ao setor privado, revelam uma forte dimensão pública. As medidas adotadas nas últimas décadas revelam que ‘expansão com qualidade’ definitivamente não é prioridade do Estado Brasileiro”, conclui.

O Brasil em relação aos outros países

Além da baixa autoexpectativa de chegar ao Ensino Superior, os números mostram que poucos chegam lá de fato. O Brasil tem pouco mais de 15% de sua população entre 25 e 35 anos formada na etapa de ensino. A proporção é uma das menores quando comparada a outros 44 países. O levantamento foi feito pelo Nexo Jornal com base nos dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Censo 2010 (Brasil) e PNAD 2014.

Com 15% da faixa etária graduada, o Brasil está entre os três piores países, ficando na frente apenas da África do Sul e Indonésia. No topo da lista, está a Coreia do Sul, com quase 70% da população de 25 a 35 anos com diploma do Ensino Superior (veja a lista completa aqui). O Plano Nacional de Educação (PNE) propõe a meta de elevar a taxa bruta de matrículas na Educação Superior no Brasil para 50% até 2024. Em 2017, a taxa foi de 34,6%, de acordo com o segundo Relatório de Monitoramento das Metas do PNE, publicado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

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O diploma universitário tem vantagem no mercado de trabalho?

Não há estudos que comparem a renda entre formados em cursos técnicos e formados em cursos superiores. Mas de acordo com a pesquisa “Panorama sobre a Educação 2013”, realizada pela OCDE, há vantagem entre os que possuem diploma universitário comparados apenas à formação da Educação Básica. As taxas de emprego entre os que concluíram Ensino Superior são 15% maiores em relação àqueles que só tenham concluído o Ensino Médio e 18% quando comparado aos que não a concluíram. No Brasil, a formação superior também afeta a renda. A população de 25 a 64 anos com diploma universitário ganha 157% a mais do que aquela apenas com Ensino Médio.

A avaliação dos que possuem curso profissionalizante quando comparados aos que têm apenas Médio completo também aparece com vantagem no mercado de trabalho. Em pesquisa Fundação Getulio Vargas (FGV), em 2010, sobre os resultados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a chance de conseguir um emprego é 48% maior entre os que contam com curso profissionalizante. O salário chegaria a 13% a mais do que os formados apenas no Médio.

 

Essa reportagem faz parte da campanha Mentira na Educação, não!, que realizará checagens de notícias sobre Educação. A iniciativa é realizada por NOVA ESCOLA, com apoio do INSTITUTO UNIBANCOINSTITUTO ALANACANAL FUTURA e FACEBOOK.

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