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Em foco | Violência nas escolas


Por: Juliana Holanda

Violência na Colômbia: Medellín combate anos de terror com pedagogia

Na cidade colombiana que ficou conhecida por seu cartel de drogas, décadas de violência são superadas com investimento em Educação e mobilização social

CAMINHOS: Mónica aponta a alunos de regiões violentas alternativas de vida fora do tráfico. Crédito: Felipe Alarcon

Mónica Galeano chega para trabalhar às seis. As aulas na Instituição Educativa La Esperanza, assim como na maior parte das escolas de Medellín, começam às 6h30. Ao entrar na sala para ministrar sua disciplina, Cátedra para a Paz, ela tem em mente discutir os impactos da violência do narcotráfico na comunidade, uma das mais atingidas pela guerra entre os cartéis da droga e o Estado entre 1980 e 1990. Quando fala sobre as vítimas de Pablo Escobar, é questionada por um dos alunos: “Mas, professora, o Escobar deu uma casa à minha mamá”.

É inegável que, 24 anos depois da Grande Desordem, período em que o país enfrentava a violência armada do Cartel de Medellín, a cultura do enriquecimento rápido e a presença do narcotráfico continuam visíveis. Mesmo em menor escala, as instituições educativas ainda enfrentam desafios relacionados ao poderio de organizações criminosas herdeiras dessa fase sombria.

O narcotráfico e o Cartel de Medellín são a face mais visível da violência colombiana. Mas o país foi palco de um cenário muito mais complexo de disputas. E a capital da Antioquia, Medellín, foi o epicentro da urbanização da guerra. Paramilitares (semelhantes às milícias), guerrilheiros, narcotraficantes e agentes do Estado implantaram um repertório de atrocidades.

Nas escolas, o conflito armado afetou alunos e professores. Além das vítimas de assassinato, muitos sofreram ameaças e tiveram que sair de seus locais de origem às pressas.

O bem-sucedido acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), assinado em 2015, veio acompanhado de um intenso processo de mobilização social e da implantação de novas políticas de segurança. E hoje a cidade de Medellín é reconhecida internacionalmente como um centro de superação e inovação, acumulando prêmios em diversas áreas.

Décadas de violência

MEMÓRIA: Professores lidam com efeitos da violência na Cátedra para a Paz. Crédito: Felipe Alarcon

O conflito armado colombiano remonta à década de 1960, mas foi dos anos 1980 até meados dos anos 2000 que viveu seu período mais intenso de disputa entre grupos guerrilheiros de extrema esquerda, como as Farc, e o Estado.

Nos anos 1990, surgiram os paramilitares (grupos armados de extrema direita para acabar com as guerrilhas). Ambos os lados se beneficiaram dos recursos financeiros do narcotráfico.

Sem força para garantir a ordem, o Estado apelou para práticas ilegais como desaparecimentos e atentados. “O fortalecimento político e econômico do paramilitarismo foi usado como estratégia de erradicação dos insurgentes. E esse foi o período de mais sangue na Colômbia”, relata Ariel Gómez, professor e pesquisador do mestrado em Educação e Direitos Humanos da Universidade Autônoma Latino-americana.

E, nesse processo, o paramilitarismo também tomou Medellín. “Especialistas afirmam que 50% dos bairros estavam monopolizados por paramilitares”, diz. Entre 1980 e 2005, a cidade ficou conhecida como a mais violenta da Colômbia, da América Latina e do mundo.

Nesse contexto, o ambiente escolar não foi poupado, e, ao contrário das balas perdidas que acometem o Rio de Janeiro, na Antioquia os tiros foram direcionados para dentro das escolas. Em 20 anos, quase 400 professores foram assassinados. Especialmente nas zonas rurais, escolas foram usadas como quartéis e centros de tortura e recrutamento. Em 2005, 20% das crianças que deixavam a escola justificavam a evasão por “violência do bairro”, de acordo com a secretaria de Educação. Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), a Colômbia era, em 2003, o terceiro país do mundo com maior número de crianças-soldados, atrás do Congo e da Libéria. As escolas também foram fortemente afetadas pelos “deslocamentos forçados”: famílias obrigadas a mudar de cidade por causa da violência.

Segundo um relatório elaborado pela Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) de 2011, a Colômbia era o segundo país do mundo com mais população nesse cenário de migração: mais de 7 milhões de pessoas haviam saído de suas casas. Metade delas eram menores de 18 anos. O professor Jhon Jairo Osorio viu, na prática, as consequências desse “desenraizamento”. Pesquisando o comportamento agressivo dos alunos em Turbo, a 300 quilômetros de Medellín, percebeu que a maioria vinha de outros municípios, deslocados pelo conflito e pela violência armada. “Todo esse entorno se refletia no comportamento dos alunos, no tom de voz alto, agressivo e violento que impedia a aprendizagem”, diz Jhon.

Ainda na década de 1990, Medellín começou uma tentativa de acordo de paz com as milícias populares, enquanto ocorriam processos de negociação entre o governo colombiano e as Farc. Mas ambas as tentativas foram frustradas. Foi neste momento, então, que se organizaram grupos juvenis, culturais e ONGs contra a violência.

A partir de 2004, a cidade viveu um período de políticas educacionais progressistas. “Esta é uma das cidades que mais avançaram: gratuidade, infraestrutura, construção de parques bibliotecas [centros culturais com espaço verde], colégios de qualidade”, lembra Ariel Gómez.

O governo atual, entretanto, tem privilegiado ações como o Rota Segura, que coloca policiais ao redor das escolas para garantir o deslocamento. “Mas isso é muito conjuntural. Em uma semana voltam o medo, as ameaças”, diz o professor de Ciências Sociais Elkin Ospina.

Pedagogia para a paz

Em 2015, um decreto legislativo estabeleceu que todas as escolas colombianas, deveriam adotar uma Cátedra para a Paz. Hoje há mais de 30 projetos diferentes. Na escola La Esperanza, a professora Mónica Galeano coordena aulas de uma hora por semana, para alunos do 6º ao 9º ano (11 a 18 anos). Inspirada em Paulo Freire e Hannah Arendt, Mónica trabalha com a memória. Ela diz que os alunos mais novos ainda validam os “sicários” (pistoleiros do Cartel de Medellín), e os presentes de Pablo Escobar. Mas, ao chegarem ao 9º ano, já se distanciam dessa cultura e passam a ser mais reflexivos sobre a violência.

Quando lhe pergunto o que diria a um professor do Brasil que passe por uma situação semelhante, Mónica responde sem titubear: “Uma aula pode ser um lugar para dizer ao estudante que, por mais que ele esteja em um território afundado em narcotráfico, em assassinatos, não é preciso atuar da mesma maneira. Que sua aula seja tão inspiradora que implique que o outro veja que essa não é a única opção”.

PAULO FREIRE INSPIRA PROJETO

Programa voltado para a comunidade escolar foi construído com base nos princípios do educador pernambucano

Fundado em Medellín em 1982, o Instituto Popular de Capacitação (IPC) foi inspirado nos princípios de Educação popular do pernambucano Paulo Freire (1921-1997):
transformação, leitura crítica da realidade e construção da democracia, poder popular e direitos humanos. Dos anos 1990 até 2014, a ONG manteve, com financiamento internacional, o Programa de Educação e Cultura Política, que visava trabalhar o direito à Educação no contexto da violência. Voltado para alunos, professores, diretores, famílias e agentes públicos, o programa formava a comunidade escolar para a construção da democracia e da paz. Os trabalhos se organizavam em eixos temáticos usando televisão, rádio, vídeo, grafite, serigrafia e teatro. Hoje falta dinheiro para os projetos. “Desde que a Colômbia passou da categoria de baixa para média renda, os financiamentos foram para África e Ásia”, diz Ariel Gómez, diretor do IPC.

ENTREVISTA: FLOR ALBA ROMERO 


“É preciso encontrar um lugar e desaprender a guerra”

Segundo pesquisadora, escolas devem trabalhar para construir a paz com uma perspectiva pedagógica

NOVA ESCOLA: Por que os docentes foram vítimas diretas da violência?
Flor Alba Romero: Ou eles eram defensores dos direitos humanos; ou eram militantes da esquerda; ou eram pessoas que queriam defender a escola desde a perspectiva do direito humanitário. Professores eram incômodos.

NE: A mobilização da sociedade civil foi determinante para que a Colômbia saísse do conflito armado?
FAR: As iniciativas da sociedade civil foram importantes, mas ocorreram muitas pressões. Acredito que outro fator importante para o acordo de paz foi um certo cansaço dos atores armados com a guerra. Havia a percepção de que eles mantiveram essa guerra por muito tempo e não conseguiram tomar o poder.

NE: Qual o papel da escola hoje?
FAR: É fundamental que o sistema educativo trabalhe a memória do que aconteceu, mas também é preciso encontrar um lugar desde uma perspectiva de construção de paz, de desaprender a guerra. Porque quando os conflitos armados duram muito tempo ocorre uma naturalização da violência e o autoritarismo ganha espaço. O importante é que possamos entregar elementos para a construção de paz com uma perspectiva pedagógica.

Flor Alba Romero é defensora dos direitos humanos na Colômbia. Em 2001, recebeu a menção honrosa do Prêmio Unesco em Educação em Direitos Humanos.