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Em foco | Violência nas escolas


Por: Luiza Sansão

Violência no Brasil: Como educar no meio do fogo cruzado?

Alunos e professores em territórios vulneráveis no Rio vivem rotina de portas fechadas, aulas interrompidas e processo de aprendizagem prejudicado

PORTAS FECHADAS: Escolas chegam a suspender as aulas duas vezes por semana por insegurança. Crédito: Valda Nogueira

Há seis anos, o professor Flávio Braga, 32 anos, dá aulas de História no Rio de Janeiro. Mas enfrenta, nos últimos cinco, uma rotina com desafios que vão além das questões pedagógicas dos alunos de 12 a 16 anos.

Ele sobe o morro para trabalhar desde 2013 na Escola Municipal Jornalista e Escritor Daniel Piza, na favela de Acari, na Zona Norte do Rio. Em março do ano passado, sua última aula do dia foi na turma de Maria Eduarda Alves da Conceição, 13 anos. Pouco depois, ela morreu atingida por tiros de fuzil enquanto fazia Educação Física.

Um policial militar flagrado em vídeo executando dois suspeitos próximo à escola foi indiciado por homicídio com dolo eventual (por ter assumido o risco de atirar em direção à escola).

E o cotidiano ficou ainda mais tenso. “Depois da morte da Maria Eduarda, aumentou a ansiedade. A gente está sempre esperando que algo de ruim possa acontecer”, diz o professor.

Fechar a escola mais cedo por causa de tiroteios é um dos reflexos mais visíveis da falta de segurança. Assim como os dias letivos suspensos devido a operações policiais na área.

Flávio conta que é comum ser impedido de dar aulas duas vezes na semana e que já chegou a ficar sem trabalhar por 15 dias. Esse cenário, segundo ele, desencadeia dificuldades no processo de aprendizagem. O professor diz que não consegue cumprir o conteúdo programático e que não é incomum mudar seus planos para tratar os efeitos da violência. “Toda vez que escutávamos tiros, alguns alunos iam para a janela ver o que estava acontecendo. Eu apelei para o emocional: falei sobre os garotos que morreram na chacina de Costa Barros e sobre o sofrimento das mães deles”, conta. “E refleti quanto isso era arriscado.” Mesmo quando estão estudando temas do currículo de História, a insegurança atravessa os muros da escola. “Quando começa uma incursão em horário de aula, acaba tudo. Os alunos não conseguem manter a atenção no conteúdo. Alguém diz que o Caveirão [blindado da PM] está na favela, e todo mundo já fica preocupado com a volta para casa. É uma ansiedade que nos toma antes, durante e depois do horário da escola.”

SINAIS VISÍVEIS: Escola na Maré tem na parede desenho em memória de aluno morto em tiroteio. Crédito: Valda Nogueira

A preocupação sobre o risco de voltar para casa é baseada em estatísticas. Dois estudantes de escolas municipais foram baleados neste ano, de acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública. Em 25 de abril, uma menina de 11 anos foi ferida no braço por uma bala perdida no pátio da Escola Municipal Espírito Santo, também na Zona Norte da cidade. No dia 20 de junho, o estudante Marcos Vinícius da Silva, 14 anos, morreu a caminho do Ciep Operário Vicente Mariano, no Conjunto de Favelas da Maré.

No ano passado, a Maré teve 35 dias com escolas fechadas pelas operações. A violência afetou 467 escolas de diferentes regiões da cidade em 2017: em pelo menos um momento do ano, cada uma dessas unidades não pôde abrir, de acordo com a Secretaria Municipal de Educação (SME). Segundo o professor de Geografia Rafael Jamile, que trabalha onde Marcos Vinícius estudava, esse cenário estimula os adolescentes a adeirir ao crime. “Os alunos estão sem confiança no Estado. Muitos se colocam ao lado de quem consideram como iguais. Na escola, a gente tenta recomeçar tudo do zero”, afirma.

Nos territórios marcados pela violência, muitos acabam desistindo de frequentar a escola. Mas a SME afirmou não ter dados sobre a taxa de evasão escolar nos anos de 2016 e 2017. Estudos mostram que os efeitos da violência nessa fase da vida vão além da performance escolar. E projetos como o de Chicago (leia aqui) confirmam que atuar na infância e na adolescência fazem a diferença para a vida toda.

Crédito: Valda Nogueira

 

Proteção durante o tiroteio

Crédito: Valda Nogueira

“As crianças, quando ouvem som de tiro, correm para algum local em que se sentem protegidas e me chamam para protegê-las. Aí eu canto, tento tirar o foco”, conta a professora Paloma Gomes, que trabalha com alunos de 4 e 5 anos na EDI Doutor Domingos Arthur Machado Filho, na favela de Manguinhos, onde nasceu e cresceu.

A violência, ela diz, aparece até nas atividades lúdicas. “Constroem armas com brinquedos de encaixe. Sempre morre alguém na brincadeira.”

No ano de 2017, segundo a SME, 214 docentes pediram exoneração. Embora a pasta não saiba quais são os motivos de cada profissional, é comum professores deixarem a rede por medo de trabalhar em territórios violentos.

A Secretaria Municipal de Educação foi procurada pela reportagem, mas ninguém quis dar entrevista. Em nota, a assessoria de imprensa informou que a pasta firmou um Termo de Cooperação com a Cruz Vermelha Internacional para ter protocolos de segurança no ambiente escolar.

“A adoção dos protocolos permite que as pessoas saibam que atitudes tomar naqueles momentos visando minimizar os riscos. Saber o que fazer nessas horas tem sido a diferença na redução dos reflexos da violência no ambiente escolar”, diz o texto. “Após um eventual momento de crise, a unidade recebe atendimento direto.”

ENTREVISTA: LUIZ EDUARDO SOARES

“Estado precisa disputar jovens com o tráfico”

Para antropólogo, é preciso oferecer acolhimento, reconhecimento, valorização e a experiência de pertencimento.

NOVA ESCOLA: Como o Estado poderia combater a violência nesses territórios vulneráveis?
Luiz Eduardo Soares: Nós devemos nos perguntar como esses grupos criminosos se perpetuam. Eles precisam cooptar, recrutar outros atores, e em geral são os jovens os mais vulneráveis. Aqueles que aderem ao tráfico o fazem porque recebem benefícios. Esse recrutamento não se faz pela força.

NE: Como isso aprofunda o cenário de violência?
LES: A experiência do pertencimento a um grupo é tão maior, mais intensa e gratificante, quão mais coeso for o grupo. E o grupo será tão mais coeso quão mais intensas forem as rivalidades vividas por esse grupo contra outros grupos. Ora, se é assim, nós devemos observar como se dá o recrutamento e, com inteligência, interceptar a dinâmica de abordagem.

NE: E como se faz isso?
LES: Disputando cada menino e cada menina, oferecendo os mesmos benefícios que são colhidos do lado de lá. Eles viviam a invisibilidade, a falta de perspectiva,sofriam os revezes de sua condição social. Com o pertencimento ao tráfico, eles têm aquelas vantagens. Cabe ao poder público oferecer esses benefícios: acolhimento, reconhecimento, valorização e a possibilidade de experiência de pertencimento


Luiz Eduardo Soares, antropólogo, é especialista em segurança pública.

Projeto Uerê encoraja a aprender

Na Maré, escola recebe alunos de 5 a 18 anos e trabalha imaginação e funções cognitivas bloqueadas

CONTRATURNO: Alunos têm aula de arte, música, gênero, ética e cidadania, além de escolinha de futebol. Crédito: Valda Nogueira

De 1980 a 1993, a professora Yvonne Bezerra de Mello, 71 anos, trabalhou com crianças em situação de rua no Rio de Janeiro, incluindo um grupo que dormia na frente da Igreja da Candelária, no centro. “Denominei esse trabalho como ‘Escola sem Portas nem Janelas’, alfabetizando, praticando jogos orais, arte, ensinando o que era possível num ambiente difícil e inóspito”, conta.

Foi ali que, em julho de 1993, oito jovens foram mortos a tiros por três policiais militares. “Levei os sobreviventes para um espaço construído com tapumes e foi a minha primeira sala de aula, com paredes mas ainda sem janelas.”

Em 1998, a professora fundou o Projeto Uerê no Conjunto de Favelas da Maré. “Foi nessa época que comecei a escrever a pedagogia Uerê-Mello, com anotações e experiência de mais de dez anos ensinando crianças em zona de risco”, lembra.

Hoje, 20 anos depois, o Projeto Uerê conta com 22 profissionais e 400 alunos de 5 a 18 anos. Todos os professores são formados em Pedagogia, Psicopedagogia, Letras, Matemática, Música e Arte.

A escola funciona no contraturno e contempla todas as matérias curriculares, além de um projeto de música, escolinha de futebol, capoeira, artes e aulas que abordam gênero, ética e cidadania.

Crédito: Valda Nogueira

“A aquisição do conhecimento tem que ser feita de várias maneiras combinadas numa sala de aula onde se trabalha o afeto, a imaginação, tempo reduzido nas explicações de conteúdos contemplando o tempo de concentração, que é muito pequena. A pedagogia encoraja a exploração do pensamento, a rapidez cerebral, exercícios orais em todas as matérias para recuperar e acelerar as funções cognitivas bloqueadas”, explica Yvonne.

Outro ponto importante é trabalhar com o prazer de estar na escola como condição básica para a aprendizagem. “No Uerê o aprendizado é alegre e temos sucesso de 90% no desbloqueio cognitivo. O nosso lema é que criança feliz na escola aprende sem problemas”, diz.

Hoje a pedagogia é utilizada em 294 escolas no Brasil e em quatro escolas que lidam com crianças refugiadas na Europa.