Colunistas | Helena Singer

Inovar traz felicidade

Pensar em novas saídas proporciona um reencontro com nossa própria potência humana

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Há  quem pense que para inovar na Educação é preciso ter recursos tecnológicos. O mal-entendido vem da confusão entre o mundo industrial e o social. Enquanto no primeiro inovação é criar nova ferramenta ou tecnologia para atender uma demanda do mercado, no segundo é conceber novo conceito, metodologia ou tecnologia que apoie aquela comunidade a enfrentar os seus desafios. Vejam que nessa definição há duas premissas: a primeira é que a inovação é um projeto coletivo e de autoria de professores, estudantes, funcionários e gestores. A segunda é que o objetivo da inovação é superar desafios sociais.

Vejamos um caso muito anterior ao mundo digital. Nos anos 1980, a recém-formada professora Marina Almeida se viu encarregada de uma sala com crianças e adolescentes em uma escola especial, algo que existia naquele tempo para jovens com deficiência. Embora ela tentasse aplicar as teorias aprendidas na faculdade e as determinações da direção da instituição, nada funcionava. O clima de bagunça imperava, incluindo episódios de agressão entre os colegas e contra a professora.

Diante dessa situação, Marina resolveu inverter o processo. Em vez de se apoiar nas recomendações da direção, aliou-se aos estudantes. Investigaram juntos o que gostavam e sabiam fazer, quais eram suas dificuldades, como aprendiam, o que os
alegrava e motivava. Com base nisso, voltaram à teoria (no caso, a do filósofo americano John Dewey) para criar uma estrutura que chamaram de Arco-Íris, que possibilitou aos estudantes se organizar em torno de projetos de seu interesse. Eles investigavam, calculavam, registravam, debatiam e criavam novas produções. A bagunça deu lugar ao ambiente colaborativo e estimulante, a agressão foi substituída pela empatia e solidariedade.

Marina, hoje diretora do Instituto Inclusão Brasil, conta que o processo exigiu dedicação, mas que lhe trouxe não apenas novas ferramentas e referências como possibilitou que ela encontrasse sua potência humana, sua própria capacidade de criar. Sentimento que, uma vez conquistado, mostra-nos os caminhos que nos levam à felicidade.

Helena Singer é doutora em Sociologia e líder da Estratégia de Juventude para a America Latina na Ashoka. Foi assessora especial do MEC.