“As discussões do Ensino Médio estão contaminadas pelo momento eleitoral”

Para Guiomar Namo de Mello, há muita desinformação sobre as políticas educacionais brasileiras, o que atrapalha o debate

POR:
Laís Semis
Crédito: Getty Images

“É problema do contexto político, que fica contaminado por um certo extremismo”, diz a professora Guiomar Namo de Mello. Diretora da Escola Brasileira de Professores, Guiomar foi integrante da equipe técnica da BNCC da Educação Infantil e Ensino Fundamental. Na última semana de agosto, ela falou sobre Os desafios e as possibilidades de implantação da reforma do Ensino Médio, palestra realizada pela Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP). “Todo tipo de fake news vai sendo espalhada a partir das críticas do Ensino Médio. As pessoas se assustam com a organização por áreas do conhecimento. Mas não se acaba com as disciplinas, isso se reencaminha de outra maneira”.

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A reforma do Ensino Médio encaminha a organização da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) desta etapa de ensino em quatro áreas do conhecimento: Linguagens e suas Tecnologias, Matemática e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e suas Tecnologias e Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. A ausência dos componentes curriculares tem gerado críticas por parte dos educadores, que temem que alguns conhecimentos e componentes atualmente na grade curricular – como Arte, Educação Física, Sociologia e Filosofia – fiquem de fora da escola.

O que diz o parecer CNE/CP nº 11/2009 sobre a proposta de experiência curricular inovadora do Ensino Médio por áreas do conhecimento, proposta em 2009, e seguida pelo Novo Ensino Médio:

“Sem que houvesse na proposta do MEC referência explícita a tratamento curricular por áreas de conhecimento, difundiu-se a interpretação de que a articulação interdisciplinar preconizada consistiria no fim da ‘divisão por disciplinas’, distribuindo as ‘atuais 12 matérias’ (sic) em grupos mais amplos. Diversamente, o entendimento é que a interdisciplinaridade e, mesmo o tratamento por áreas de conhecimento, não excluem necessariamente as disciplinas, com suas especificidades e saberes próprios historicamente construídos, mas, sim, implicam o fortalecimento das relações entre elas e a sua contextualização para apreensão e intervenção na realidade, requerendo trabalho conjugado e cooperativo dos seus professores no planejamento e na execução dos planos de ensino.”


(Fonte: CNE/CP nº 11/2009, pág. 8)

Professora Guiomar Namo de Mello na apresentação da palestra Os desafios e as possibilidades de implantação da reforma do Ensino Médio. Crédito: Renato Souza/FECAP

Para Guiomar, há uma falta de comunicação que precisa ser esclarecida ao longo do percurso de construção das novas políticas educacionais, como é o caso da Reforma e BNCC. “O notório saber bate em outro mito e preconceito”, cita. “É evidente que temos que procurar os profissionais com licenciatura, mas existem áreas que se você quiser que façam parte de itinerários, você vai ter que recorrer ao profissional da prática”. Um exemplo, seria um itinerário que contemplasse a pesca, em regiões que essa atividade econômica pode fazer parte da cadeia econômica local. O profissional poderia passar por uma formação complementar pedagógica para desenvolver didática em sala de aula.

O  que diz a Lei nº 13.415/2017, que reforma o Ensino Médio, sobre o notório saber:

“Art. 36. § 11.  Para efeito de cumprimento das exigências curriculares do Ensino Médio, os sistemas de ensino poderão reconhecer competências e firmar convênios com instituições de educação a distância com notório reconhecimento, mediante as seguintes formas de comprovação:  
I - demonstração prática;
II - experiência de trabalho supervisionado ou outra experiência adquirida fora do ambiente escolar;
III - atividades de Educação técnica oferecidas em outras instituições de ensino credenciadas;
IV - cursos oferecidos por centros ou programas ocupacionais;
V - estudos realizados em instituições de ensino nacionais ou estrangeiras;
VI - cursos realizados por meio de educação a distância ou educação presencial mediada por tecnologias.  

“Art. 61.  ........................................................... 
IV - profissionais com notório saber reconhecido pelos respectivos sistemas de ensino, para ministrar conteúdos de áreas afins à sua formação ou experiência profissional, atestados por titulação específica ou prática de ensino em unidades educacionais da rede pública ou privada ou das corporações privadas em que tenham atuado, exclusivamente para atender ao inciso V do caput do art. 36;
V - profissionais graduados que tenham feito complementação pedagógica, conforme disposto pelo Conselho Nacional de Educação.”


A Base e a reforma como reflexo do mundo moderno

Para Guiomar Namo de Mello, as mudanças pelas quais a Educação brasileira passa são o reflexo das transformações globais. O mundo de hoje seria complexo, ambíguo, volátil e instável – muito diferente da escola do passado. Para estar preparado para viver neste momento, em que, por exemplo, o digital e as notícias falsas são parte da vida e o mercado de trabalho se transforma rapidamente com a revolução tecnológica, novas competências seriam necessárias.

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Consequentemente, uma nova escola precisaria se desenhar para atender essas demandas. Assim, será preciso desenvolver maior protagonismo na própria Educação, letramentos diversificados além da própria língua, domínio dos conteúdos curriculares pensando para além dos componentes e fazendo conexões entre eles e aplicação do conhecimento em circunstâncias desconhecidas e em constante mutação. “A Base vem buscando fazer essa realidade”, diz. Por isso, as dez competências gerais da Base contemplariam tanto conhecimentos cognitivos quanto socioemocionais. “Ao mesmo tempo que citam o domínio de conhecimentos, sempre indicam para quê”.

Exemplos das competências gerais da BNCC

  1. Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.
  2.  Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas.


O desafio de transformar essa realidade também seria uma oportunidade na visão da professora. “O futuro do país depende do que a gente tá fazendo na escola”, define Guiomar. “A mudança de cultura é lenta e conflitiva, mas se existe um lugar que essa mudança pode acontecer é na escola”.


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