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Por: Pedro Annunciato

Suicídio: o que a escola pode fazer?

O assunto é delicado e exige cuidado. Mas o número de adolescentes que tiram a própria vida está aumentando e silenciar esse drama pode ser fatal.

Entre 2011 e 2015, as mortes de jovens por suicídio cresceram 18%. Ilustração: André Ducci

Falar sobre suicídio significa quebrar um tabu. É difícil entender como alguém pode… Melhor não dizer. Ou dizer? Convivemos com a ideia – parcialmente correta – de que falar disso põe em risco pessoas fragilizadas, que têm considerado essa saída e… Você sabe. Por outro lado, o silêncio não tem impedido que ele aconteça. As estatísticas do Sistema Único de Saúde (SUS) mostram que os casos subiram 12% em cinco anos no Brasil. Entre os adolescentes de 10 a 19 anos, o aumento foi de 18%. Nessa idade, eles estão enfrentando as primeiras frustrações. Se o pior acontece, o ambiente escolar sofre. E com círculos familiares e sociais cada vez menores, a escola é praticamente o único lugar de socialização dos jovens. Por isso, coragem: entender esse fenômeno e como ele afeta os adolescentes pode prevenir mortes e provocar discussões saudáveis.

No ano passado, o psicanalista Mário Corso recebeu um e-mail escrito por alunos de uma escola estadual de Passo Fundo (RS), sua cidade natal. Era um pedido de ajuda. Eles tinham ouvido uma colega dizer que queria se matar e pediam que Mário visitasse a escola para fazer uma palestra sobre suicídio e ajudar a garota. “Foi inusitado porque quem faz o convite, geralmente, são os professores ou a direção”, conta.

Estudioso das questões da adolescência, Mário não costuma fazer esse tipo de palestra nem é um especialista em prevenção de suicídios. Mas, em 2007, o nome do psicanalista ficou atrelado ao assunto por causa de um trágico incidente. Um de seus pacientes, adolescente, cometeu suicídio com transmissão ao vivo pela internet, diante de uma plateia que o incentivava a consumar a própria morte. O caso teve grande repercussão e levantou uma série de questões sobre o uso das novas tecnologias.

A mobilização que chegou a Mário, no entanto, ainda é rara no país. O Brasil conta com uma Estratégia Nacional de Prevenção ao Suicídio, lançada em 2006 pelo Ministério da Saúde, e com um conjunto de instituições públicas e privadas que lidam sobre esse fenômeno. Mas o tema ainda não entrou na agenda das escolas, mesmo em meio a um cenário de aumento expressivo das taxas de suicídio em todas as faixas etárias, entre 2011 e 2016 (veja os números ao longo desta reportagem).O esforço de especialistas é compreender as razões do aumento de mortes desse tipo entre adolescentes e até crianças.

Negação do mundo

Frustrações, pressões, bullying e depressão levam os jovens à desesperança. Ilustração: André Ducci

As frustrações com a própria vida, o sentimento de não pertencimento, a pressão social pelo sucesso e pelo corpo perfeito, o bullying, a depressão. São muitos os fatores que podem explicar por que os suicídios estão aumentando entre os adolescentes. Mas, para o psiquiatra Gustavo Estanislau, membro do Projeto Cuca Legal, programa de saúde mental para adolescentes ligado ao Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), uma palavra é capaz de definir o fator de risco mais importante: “Desesperança em relação ao futuro. O adolescente olha ao redor e vê desemprego, violência… E quando olha para a própria vida e não enxerga saída para os seus dramas pessoais, o risco aparece”.

A instabilidade e a ausência de um sentido de vida são características da adolescência, um período da vida ainda pouco compreendido pela Sociologia. Colocada em perspectiva histórica, a adolescência é uma fase muito recente na história humana. “Nossos avós não tiveram adolescência. Eles provavelmente viveram uma breve juventude, começaram a trabalhar desde cedo e se casaram antes dos 20 anos”, exemplifica Mário.

Não se sabe exatamente o porquê, mas, a partir dos anos 1960 para cá, surge a adolescência. Nas palavras do psicólogo americano Erik Erikson (1902-1994), ela é definida como uma moratória psicossocial: uma fase em que o indivíduo tem as “dívidas” ou obrigações com a vida adulta temporariamente suspensas para que ele possa fazer essas escolhas. Por um lado, ela abre possibilidades de escolha livre do que se quer fazer no futuro. Por outro, pode se tornar um espaço vazio, no qual o indivíduo não sabe para onde caminhar.

“Tenho visto isso com frequência nos meus pacientes. Eles se perguntam: ‘Pra que eu existo?’, e são intolerantes à frustração”, diz a psicóloga Karen Scavacini, mestre em Saúde Pública e Prevenção ao Suicídio pelo Instituto Karolinska, da Suécia, um dos principais centros de pesquisa sobre o tema no mundo.

Outro aspecto que pode estar por trás do aumento é a mudança das relações sociais, tanto na família quanto em outros círculos de convivência social. Os especialistas são unânimes em afirmar que pessoas com mais proximidade com familiares e amigos têm menos propensão ao suicídio. Essa tendência já havia sido identificada pelo sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) em seu famoso livro O Suicídio, publicado em 1897. Na obra, Durkheim nota, por meio de dados estatísticos da época, que os “vínculos sociais fortes”, especialmente com a família, são um fator de proteção importante. Muitos adolescentes com ideação suicida (ato de pensar e até planejar o suicídio) recuam pelo medo de magoar pais, avós, irmãos etc.

O sentido de vida e os vínculos sociais dão força aos indivíduos mesmo nas situações mais extremas. Um outro trabalho clássico, este na área da Psiquiatria, é o do médico austríaco Viktor Frankl (1905-1997). Filho de família judaica e aluno de Sigmound Freud (1856-1939), Viktor viveu os horrores dos campos de concentração nazista e notou que, enquanto algumas pessoas sucumbiam rapidamente ao sofrimento, outras tinham uma resiliência muito maior. O médico relata que, certa vez, dois companheiros aprisionados com ele, e que não se conheciam, lhe confidenciaram que pensavam em se matar. Quando Viktor lhes perguntou a razão, eles deram a mesma resposta: “Porque já não espero nada da vida”. Ao que ele retrucou: “Mas a vida não espera nada de você?”. Então, um deles se lembrou que a filha que amava tinha conseguido escapar e o aguardava nos Estados Unidos. O outro se deu conta de que tinha deixado do lado de fora uma coleção de livros, à qual havia dedicado grande parte de sua vida, e que precisava ser terminada e publicada. Ambos desistiram do suicídio.

“A questão do suicida é: ‘Me dê razões para viver’”, resume Mário. “Quando o adolescente fica nesse vazio, ele se angustia. A tarefa do jovem que já sabe que é amado pelos pais é se provar na rua, se fazer respeitado. Se ele não encontra isso, se perde.”

Rede de proteção

Fechados em cículos sociais cada vez menores, a escola é o pouco que sobra. Ilustração: André Ducci

Com famílias cada vez menores e falta de outros círculos sociais com vínculos fortes, a solidão dos adolescentes só se rompe em um lugar: a escola. Ao não terem mais a convivência de irmãos e primos, ao perderem as ruas e os vizinhos para a violência urbana, o peso da instituição escolar ficou muito maior na vida deles. “Antigamente, você podia não ser o mais popular da turma, mas ser o melhor jogador de futebol da rua. Hoje, se as coisas vão mal na escola, tudo vai mal”, explica Mário.

No ambiente escolar, o fator que mais impacta a autoestima dos estudantes é o bullying. “E o pior é que hoje ele não termina na sala de aula, mas se estende nas redes sociais e vira ciberbullying”, explica Karen. Uma pesquisa sobre o assunto, publicada em 2016 pela Organização das Nações Unidas (ONU), com 100 mil crianças e jovens de 18 países, relata que 20% das pessoas vítimas de agressões verbais ou físicas constantes apresentaram pensamentos suicidas.

Diante do desafio de desempenhar um papel tão central na vida dos estudantes, o que a escola pode fazer? Uma ferramenta poderosa é a atenção do professor e a identificação de sinais de alerta (abaixo, você encontrará orientações sobre quais são e o que fazer). Um outro caminho é a formação de uma comissão de saúde mental na escola, composta de pais, professores, gestores e estudantes, capaz de debater procedimentos e buscar informações mais adequadas.

O início de uma discussão pode estar no exemplo da escola de Passo Fundo. “Existem adolescentes inconsequentes, que fazem bullying e outras coisas, mas também existem aqueles que, por alguma razão, são mais maduros. Eles podem ser aliados nessa luta”, diz Mário. Isso é particularmente vantajoso nesse caso porque é para os amigos mais próximos que jovens em risco de suicídio costumam compartilhar as ideações.

A escola, no entanto, não pode assumir o papel de clínica psiquiátrica, mas ser o elo de uma extensa rede de proteção aos jovens, que deve envolver famílias, sistema público de saúde e muita informação.

A Suécia, onde Karen fez sua pesquisa de mestrado, é conhecida por ter altos índices de suicídio, especialmente por causa do uso de álcool – e não tanto por causa do clima e da escuridão, como se pensa. Lá, houve um aprimoramento nas últimas décadas na coleta de estatísticas sobre essas mortes. O sistema de saúde pública oferece atendimento psicológico e psiquiátrico gratuito, além de subsídios na compra de medicamentos. E, nas escolas, pais e professores ouvem palestras e recebem formação específica para lidar com questões emocionais.

O Brasil tem aperfeiçoado a coleta de estatísticas e já possui Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que podem prestar apoio aos adolescentes. Falta avançar em outras áreas. “Não temos ainda uma política de posvenção clara, por exemplo”, diz Karen. A posvenção é o conjunto de medidas que se deve tomar após a ocorrência de um suicídio na escola, como a assistência à família e aos professores do aluno e à atenção aos colegas mais próximos, especialmente aos que apresentam algum sintoma depressivo. Mas, com o aumento dos índices, o assunto precisará ser discutido com urgência. Diz Mário: “A escola não tem escolha. Ela deve participar do debate”.

SINAL AMARELO

Dados do Ministério da Saúde mostram que o número de mortes por suicídio está aumentando, inclusive entre jovens

 

As cidades com as piores taxas* (2015**)

1) Forquetinha: 78,7

2) Taipas: 57

3) Travesseiro: 55,8

4) André da Rocha: 52,4

*CASOS POR 100 MIL HABITANTES **DADOS DE 2016 NÃO CONSOLIDADOS
FONTE: MS/SVS/CGIAE - SISTEMA DE INFORMAÇÕES SOBRE MORTALIDADE (SIM)

 

6 RESPOSTAS PARA ENCONTRAR SAÍDAS
Veja caminhos para identificar sinais de risco de suicídio entre alunos e ações que a escola pode tomar
  1. Quais os sinais de que há risco de suicídio?
    Em geral, o adolescente manifesta o desejo de morrer ou fala em morte com frequência. Os principais sinais de alerta são: mudança brusca de comportamento (por exemplo, um aluno sociável que passa a se isolar ou a ficar agressivo), declínio nas notas e aumento ou início de uso de álcool e drogas. Adolescentes perfeccionistas, com alto nível de cobrança, também precisam de atenção. E, embora o suicídio nem sempre esteja associado a um quadro depressivo, jovens que apresentam sintomas da doença ou que já estejam em tratamento exigem cuidado.
  2. A automutilação está associada ao suicídio?
    O ato de se cortar com lâminas ou infligir outros ferimentos no próprio corpo não é, em si, um ato suicida. Ele, em geral, não tem uma intenção de morte, mas é uma forma de expressar um sofrimento psíquico muito intenso. É como se o sujeito estivesse tão absorvido pela dor que sentisse a necessidade de representá-la fisicamente. Também há relatos de pacientes que sentem alívio quando se cortam por causa da descarga de adrenalina que ela propicia. Seja como for, a automutilação precisa ser vista como sinal de alerta. Além disso, esse tipo de comportamento tende a ser imitado na escola.
  3. Falar de suicídio pode incentivar potenciais suicidas?
    A preocupação dos especialistas é o efeito conhecido como Werther, nome inspirado no protagonista do livro Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe (1749 - 1832), publicado em 1774. A popularidade da obra na época, cujo personagem se mata em decorrência de um amor impossível, desencadeou na Europa uma série de suicídios. No entanto, não há confirmação científica de que falar sobre o assunto estimula atos autoagressivos. No ano passado, a polêmica voltou à tona com a série 13 Reasons Why (algo como 13 razões pelas quais), da Netflix, que conta a história de uma adolescente 
    suicida. Muitos criticaram a veiculação da obra, entre outros motivos, por romantizar o suicídio e apontar culpados para o ato. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), para a veiculação de conteúdos relacionados ao suicídio, não se deve tentar atribuir culpas. Tampouco devem ser expostos métodos ou imagens de suicídio, como aparece em 13 Reasons Why.
  4. O que fazer quando um adolescente apresenta os fatores de risco para suicídio?
    O ideal é chamar o adolescente para uma conversa privada e perguntar o que está acontecendo. Procure ouvir com atenção e jamais trate as aflições dele como “frescura”. Depois de ouvir, procure conduzir o diálogo mostrando alternativas claras de saída. Evite frases vagas como “vai ficar tudo bem” e prefira algo como “eu já passei por algo parecido e posso te ajudar”. Indique os órgãos e profissionais capacitados a ajudar pessoas com intenções suicidas (veja o quadro abaixo). O fundamental é não ignorar os sinais e se mostrar disponível.
  5. O que fazer se um aluno cometer suicídio?
    A chamada posvenção – ações realizadas quando um suicídio acontece – deve ser pensada caso a caso. Mas há estratégias de acolhimento que podem nortear as ações. É fundamental deixar claro que não existem culpados e abrir espaços de conversa, em pequenos grupos, nos quais os jovens possam expressar seus sentimentos e discutir o processo de luto. É válido escolher uma pessoa para atender individualmente os alunos, no momento em que precisarem. Também é importante buscar, na medida do possível, a ajuda de especialistas capacitados. Uma saída é procurar o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) mais próximo e se informar sobre que tipo de apoio pode ser oferecido aos estudantes e funcionários da escola.
  6. Posso homenagear alunos que morrem por suicídio?
    Sim, mas com muito cuidado. A escola deve tratar a morte por suicídio do mesmo jeito que trataria qualquer outra morte, para evitar o risco de celebrização, idealização ou romantização. Não use altares, murais, placas, estátuas ou coisas do gênero. A gestão pode abrir espaço para que colegas e professores participem – se quiserem – dos funerais, e tenham tempo para se recuperarem do choque, até que consigam retomar a rotina.


 

ONDE ENCONTRAR APOIO E INFORMAÇÃO

  • Centro de Valorização da Vida (CVV): Atende por telefone ou chat pessoas que precisam conversar.
    Contatos: Ligue 188
    cvv.org.br
  • Centros de Atenção Psicossocial (Caps): Rede pública de atendimento psiquiátrico e psicológico.
    Contanto: Ligue para 136 ou com a Secretaria Municipal de Saúde.
  • Vita Alere: Oferece manuais, estudos e sugestões de livros e filmes sobre o assunto.
    Acesse: vitaalere.com.br
  • Projeto Cuca Legal: Programa de saúde mental da Unifesp
    Acesse: cucalegal.org.br
  • Associação Americana de Suicidologia: Oferece material de formação (em inglês)
    Acesse: suicidology.org
  • Setembro Amarelo: Campanha de conscientização e prevenção do suicídio, promove ações no mês de setembro.
    Acesse: setembroamarelo.org.br