BNCC precisará de dez anos para atingir todo potencial, diz Charles Fadel

Para professor da Harvard School of Education quanto mais rápido os professores forem treinados, melhores serão os resultados

POR:
Soraia Yoshida
Charles Fadel, professor da Harvard School of Education   Foto: Divulgação

Serão necessários dez anos para que a Educação atinja um novo patamar de qualidade a partir da implantação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Esta é a opinião do francês Charles Fadel, professor da Harvard School of Education, nos Estados Unidos, e fundador do Center for Curriculum Redesign, que apoia governos ao redor do mundo na iniciativa de reformularem seus currículos.

Para o professor, o processo de criação da BNCC e a inclusão de competências no documento é uma “boa notícia”.

LEIA MAIS   "Temos de ensinar as crianças a questionar desde que aprendem a ler"

“As pessoas estão prestando atenção no nível do governo, estão prestando atenção no que é necessário para o futuro de todos. Mas você sabe como as coisas são: visão é 1% e suor, 99%. E esse é o custo difícil. Temos que ser capazes de traduzir essa visão em ações, em atividades pedagógicas e para tornar os alunos mais capazes e autoconfiantes”, afirmou.

LEIA MAIS   Estamos preparados para incorporar as competências socioemocionais da BNCC?

Em entrevista à NOVA ESCOLA, Charles Fadel refletiu sobre os limites de nossa capacidade de adaptação a mudanças, descreveu a BNCC como um “tremendo passo”, falou da importância em investir no treinamento de professores e como uma aula mais “renascentista” poderia ajudar os alunos. Veja os principais trechos a seguir.

Humanos X Mudanças

Não gostamos de mudanças. Os sistemas humanos são complexos. As tecnologias são muito estreitas, em um certo sentido. Como já ouvi dizerem algumas vezes, é muito mais fácil mandar uma pessoa para o espaço do que consertar os problemas do sistema educacional. Ou consertar os sistemas de saúde, qualquer coisa que envolva muitos humanos. Então, se temos de lidar com um problema limitado de engenharia, é fácil consertar. É por isso que nesses problemas limitados de engenharia, como tornar esses dispositivos mais rápidos, nós nos saímos bem. Mas não estamos nos dando tão bem quando temos de lidar com sistemas interconectados complexos. E infelizmente essa é a realidade, nós precisamos acelerá-los de um lado porque não conseguimos encontrar ainda um jeito de diminuir a aceleração do outro lado. Então talvez estejamos atingindo o nosso limite de quão rápido o cérebro humano consegue lidar com esse avanço da tecnologia. Nós temos os nossos cérebros, fomos moldados pela evolução, herdamos muitas características que foram bastante úteis durante um certo período de nossa existência e talvez tenhamos chegado ao ponto em que elas não são mais úteis, mas como nós ainda as possuímos, vamos precisar refazer nossos circuitos de DNA, talvez não seja suficiente para refazer nossos circuitos cerebrais para mudar nossos cérebros. Talvez estamos chegando a esse ponto. 

Não sei, acho que ninguém sabe onde estamos indo com tudo isso. Acho que como sociedade não pensamos de forma intencional, nós somos levados pela tecnologia e não temos ideia onde vamos parar – só que vamos ter de viver com as consequências. Ninguém está dizendo aí fora: “Espera um pouco, será que foi uma atitude inteligente dez anos atrás ter colocado todos os seus dados pessoais nas mãos de três grandes companhias? ” Alguns de nós sabíamos que não era uma boa ideia, que aqueles documentos legais que estávamos assinando eram maluquice.  Mas pensamos: tudo bem. Pensando bem, os governos, hackers e corporações sabem mais sobre você do que você mesmo imagina.

BNCC

Em primeiro lugar, acho que é importante reconhecer que [a BNCC] é um tremendo passo. Para começar, há várias afirmações cheias de significado que tentam dizer como deveria ser a Educação. E por mais que não tenham conseguido acertar em tudo, estas são afirmações complexas. Quando você as abre, elas contam com os ingredientes certos. A parte difícil é como garantir que os professores saibam o que fazer com aquilo. Então é preciso desmembrar em pequenas partes, da forma como vocês, nós e outras organizações estão fazendo, de forma que se torna possível acionar de maneira granular em sala de aula. E eu digo eventualmente, porque há muito trabalho a ser feito partindo dessas afirmações para as competências que estão incluídas nessas afirmações, até decidir como expressá-las nas disciplinas e fora delas. Qual deve ser o desempenho mínimo esperado dessas competências e como expressar isso em sala de aula de maneira geral, até chegar a como expressar isso em sala de aula dentro de um determinado tópico, de uma determinada disciplina.

A boa notícia é que os professores podem se sentir empoderados para começar a experimentar. (...) vai levar uma década ou mais criando uma arquitetura e chegando a uma boa solução.  Mesmo que todos comecem imediatamente, ainda vai levar uma década para se chegar ao ponto de atingir a qualidade que todos nós esperamos. E quanto mais rapidamente conseguirmos treinar os professores, melhor será.

Treinamento para a BNCC

O professor vai para o treinamento como parte de uma iniciativa pessoal, mas também é preciso que organizações e instituições tenham o material certo. Os professores não dispõem de um tempo de sobra enorme para sair procurando o melhor conteúdo disponível, fazer uma curadoria e aí passar para seus alunos. Mas com o tempo, eu acredito que os sistemas deveriam entrar em ação e ajudar os professores a construir capacidades mais profundas. Talvez instituir uma abordagem de treinamento em que os melhores professores a obter os melhores resultados se tornassem também responsáveis por propagar mais esse conhecimento. E para isso é importante criar um processo em escala. Lembre-se que a maioria das pessoas acredita em pessoas como ela, alguém que fala a mesma língua.

Sala de aula renascentista

Nós defendemos que é melhor que [a mentalidade na sala de aula] seja mais renascentista, pois queremos que seja mais ampla e aprofundada, ao mesmo tempo. Nós defendemos que há novas disciplinas que são importantes em termos de empregabilidade e comportamento. Por exemplo, empreendedorismo e engenharia. Nós também dizemos que você pode aprender uma série de competências através de coisas que normalmente não têm a devida apreciação, como Artes Performáticas, como construir resiliência e aprender a ser mais corajoso, muitas dessas habilidades podem ser trabalhadas através de Artes Performáticas.

E eu vou concluir com três exemplos de como você pode se tornar mais adaptável em um mundo em que as condições estão mudando constantemente. O primeiro é velejar. Quando você sai para velejar, você não tem a menor ideia de como estarão as ondas, o vento pode mudar, as marés. É um caos e você tem que reagir o tempo inteiro a situações imprevistas e aceita que está em constante mudança, portanto você tem que se adaptar constantemente.

A segunda maneira é praticar artes marciais. Sendo bem feitas, não é só fazer capoeira de forma artística, é se colocar em situações perigosas, em que você precisa se adaptar. Pode ser um combate simulado, mas ao treinar na praia, com os pés na areia, você precisa perceber como ter estabilidade, como se proteger do seu oponente, como reagir.

Improvisação é o terceiro. A improvisação no teatro é um grande mecanismo porque, à exceção do pensamento crítico, passa por todas as competências das quais falamos. É ter a habilidade de se adaptar e agir de maneira fluida. Então se o mundo vive mudando, e a nossa habilidade de adaptação está num ponto alto, então as coisas que nada têm a ver com a sala de aula, mas ajudam a construir isso podem fazer parte do nosso estado de espírito. Torna-se parte da sua personalidade, o mundo muda, você se adapta e canaliza isso.

 

 

Tags

Guias