Ir ao conteúdo principal Ir ao menu Principal Ir ao menu de Guias

Rio de Janeiro: quem estuda na Maré tem um ano de aulas perdido, diz Luiz Eduardo Soares

O antropólogo alerta que, sem uma mudança drástica nas comunidades da cidade, a aprendizagem seguirá prejudicada

POR:
Luiza Sansão
Policiais patrulha Complexo da Maré em abril de 2015
Polícia Militar no Complexo da Maré em 01/04/2015 Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Com a atual estrutura das polícias e das políticas públicas de repressão ao crime, as escolas do Rio de Janeiro em áreas de conflito continuarão apresentando graves problemas de aprendizagem e perdendo jovens para o tráfico. Essa é a constatação do antropólogo e escritor fluminense Luiz Eduardo Soares. Considerado um dos mais respeitados especialistas de segurança pública do Brasil, ele chegou a ser subsecretário da segurança pública do estado, entre 1999 e 2000, mas acabou demitido pelo então governador Anthony Garotinho após fazer denúncias de corrupção na polícia.

LEIA MAIS   O que o luto da rede municipal do Rio diz sobre a violência que atinge as escolas

Hoje, Luiz se dedica a estudar o assunto e enfatiza a importância dos investimentos em Educação e cultura, num momento de crise profunda na segurança do estado, como conta a reportagem da edição de setembro da revista NOVA ESCOLA. Para ele, não adianta investir no ambiente escolar sem mudar a realidade no entorno.

NOVA ESCOLA: Temos um cenário desolador no que se refere à educação nas comunidades do Rio. O que está provocando isso?
LUIZ EDUARDO SOARES: Enquanto nós tivermos as polícias que temos, organizadas e estruturadas em um molde herdado da ditadura militar; policiais, trabalhadores, cidadãos que operam nessas instituições, submetidos a essas condições de trabalho indignas e desumanas; enquanto nós tivermos as orientações nas políticas de segurança e nas políticas criminais que temos, voltadas para a guerra, a destruição do suspeito tratado como inimigo, e com leis de drogas irracionais e absurdas, continuaremos tendo criminalização da pobreza, estigmatização dos territórios vulneráveis e seus moradores, genocídio de jovens negros e pobres nas periferias, encarceramento em massa, com todas as consequências, que são o crescimento das facções criminosas e a contratação de violência futura com destruição da vida de jovens que, na prática, são inocentes, ainda que transgridam a patética lei de drogas.

LEIA MAIS   Intervenção: “Sob fogo cruzado, crianças dificilmente vão aprender”

Que perspectivas o senhor vê em meio a essa realidade?
Esse é o quadro que vamos continuar tendo enquanto as armas não forem o grande foco de atenção por parte de todo o aparato de segurança pública, enquanto continuarem essas condições dramáticas de pobreza que se agrava, desigualdades que se aprofundam, falta de saneamento, de condições minimamente adequadas de vida, com educação em um ambiente precário, com toda a evasão escolar que estamos vendo, com uma juventude sem perspectivas e uma sociedade que vai se desagregando.

Desigualdade se aprofundando, as elites absolutamente cegas e vorazes, uma agenda neoliberal extrema que cassa direitos e viola direitos elementares. Os resultados só podem ser desastrosos, inclusive, claro, para a própria educação. Pesquisas realizadas pela Redes da Maré têm mostrado as implicações desse ambiente de violência do qual o Estado é cúmplice e até promotor, em boa parte, pela forma irresponsável com que atua, pela brutalidade letal que nós conhecemos.

O senhor poderia fazer uma análise sobre os dados revelados por essas pesquisas?
A Redes da Maré tem demonstrado a quantidade de dias perdidos de aulas, e são números incríveis. O cálculo mostra que, numa trajetória escolar, no mínimo um ano é perdido. Então, há uma defasagem de um ano para aqueles que atravessam, que percorrem o itinerário de formação escolar nos territórios em que há conflitos armados. Isso é dramático. Estamos falando de vidas humanas. Não só aquelas que são ceifadas pela violência diretamente, mas aquelas que sofrem outros impactos.

Além da questão quantitativa, temos a qualitativa: viver e respirar num ambiente desse tipo é muito difícil. Os traumas, as implicações são muito graves. E estudar nesse ambiente tem implicações também longe de serem conhecidas, pesquisadas. Então estamos diante de uma situação que não pode ser naturalizada. Não podemos considerar que isso se mantenha estável como parte da nossa paisagem. “Há escolas que vivem nesses ambientes? Vamos pensar em políticas para essas escolas.” Não, nós temos que pensar em mudar essa ambiência.

Se não, nós vamos continuar criando mais muros para as escolas, blindar paredes e janelas das escolas, e esse certamente é muito mais um sintoma do problema e espelha a naturalização e a resignação irresponsável e criminosa por parte do Estado. É preciso considerar essa situação inaceitável e agir de modo a que se transformem todas as condições geradoras desses problemas.

Luiz Eduardo Soares em 21 de abril de 2016
O cientista político Luiz Eduardo Soares em abril de 2016 Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Desde a década de 1990, o senhor vem falando sobre uma dimensão mais ampla dos benefícios oferecidos pelo tráfico e que acabam atraindo os jovens. Que benefícios são esses?
São os óbvios, materiais, que todos reconhecem, que é o acesso a algum dinheiro para sobreviver, consumir, melhorar sua qualidade de vida e de sua família. Mas também, e eu diria sobretudo, benefícios imateriais, que têm um impacto extraordinariamente importante. O reconhecimento, a valorização, o acolhimento. Esses que se sentem perdidos, sem lugar e invisíveis socialmente, passam a compartilhar uma identidade, a vivenciar o pertencimento a um grupo.

E mesmo aqueles bens materiais, como uma camisa que protege o corpo, ou um calçado que protege os pés, além de proverem vantagens propriamente materiais, têm um valor simbólico, psíquico, subjetivo e intersubjetivo. São fetiches de status que diferenciam positivamente, status que também proporciona um reconhecimento. E, por outro lado, são indicadores de pertencimento a um grupo que assim se qualifica. O tênis de marca não é apenas um calçado que protege os pés, mas uma marca que atribui um status ao seu detentor. Então, essa marca, esse fetiche, esse símbolo de valorização de status e de pertencimento são elementos de grande importância nesse contexto de vulnerabilidade.

Por que políticas públicas de cultura são tão importantes?
Porque na cultura, particularmente nas artes, a realização é individual, mesmo sendo coletiva eventualmente, ela tem uma dimensão individual. Ela tem essa parte de sua realização que é expressiva. Diz respeito especificamente àquela criatividade que se realiza. Ela não se esgota nisso, é claro, mas ela abre também a possibilidade de que, por linguagens distintas, de dança, música, dramaturgia ou o que quer que seja, a individualidade se realize mesmo em atividades coletivas. Uma dimensão não anula a outra.

A cultura é uma dessas áreas que precisam ser privilegiadas. E é claro que ela não pode prescindir da educação. O esporte também oferece muitas possibilidades importantes. E o fato é que, havendo políticas multidimensionais, ou seja, intersetoriais, as diversas áreas acionadas, atingidas, mobilizadas pela violência, que são as áreas da subjetividade e da objetividade ––que vão desde a família, educação, meio ambiente, mobilidade, saneamento, perspectivas de integração no mercado de trabalho, entre outras –– podem ser objeto de ação consertada por políticas também intersetoriais. Então o problema é complexo, intersetorial, que requer políticas também intersetoriais, para dar conta dessa complexidade.

Então o Estado precisa disputar os jovens com o tráfico por meio de políticas públicas?
No eixo disso tudo está essa perspectiva. A perspectiva correta é a de competição com o foco de recrutamento do crime, para que nós nos tornemos, como sociedade e como Estado democrático de Direito, capazes de atrair, cooptar, recrutar esses jovens, oferecendo-lhes benefícios. É claro que, para concluir, eu lembro que o benefício tem o sentido aparentemente positivo no mundo do crime, mas acaba levando ao desastre, à morte precoce, ao desespero, desamparo. Acaba sendo destrutivo e autodestrutivo. O benefício que nós oferecemos é um benefício real, que é produtivo, construtivo e saudável.

Tags

Guias

Tags

Guias

Tags

Guias