Marina Silva: “Nenhum brasileiro acha que se deve ficar 20 anos sem investir em Educação”

Candidata à presidência pela Rede defendeu que metas do Plano Nacional de Educação sejam prioridade da Educação

POR:
Paula Peres
Crédito: Todos pela Educação

Plano Nacional de Educação, Educação Infantil e valorização da carreira docente: eis as três prioridades citadas por Marina Silva, candidata à presidência pela Rede, ao falar sobre Educação durante sabatina realizada nesta segunda-feira (13/08) em São Paulo. Em encontro promovido pelo Todos Pela Educação, em parceria com a Folha de S. Paulo, Marina afirmou que seu governo trabalharia na articulação para criar um sistema integrado com os estados e municípios.

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“O Plano Nacional de Educação (PNE) foi um processo aberto, democrático e compartilhado. Traduzir essa implementação em ações práticas durante quatro anos de governo é o selo desse compromisso”, afirmou Marina. Segundo ela, é importante a integração para garantir a formação dos professores. “Ter professores bem formados é uma boa tradução da prioridade que o setor terá”.

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De acordo com a presidenciável, hoje um professor brasileiro ganha cerca de 39% do que ganha um professor de países desenvolvidos (ela não citou a fonte desses números ou quais países entrariam na comparação), e isso deve ser revisto. Para a candidata, valorizar o docente também passa por estruturar as escolas adequadamente e pensar em um plano de carreira adequado. “Dizendo de uma outra forma: ter uma Educação que seja capaz de formar as pessoas, dando a elas a oportunidade de desenvolver em plenitude suas potencialidades para que a escola seja um lugar bom de se ficar. É preciso que se tenha o desejo de aprender, e é algo que se inscreve na pessoa”.

Para a senadora, a Educação Infantil é fundamental justamente nessa missão de inserir nos pequenos a vontade de aprender. “Essa inscrição acontece quando você tem um atendimento correto, em uma fase precoce que vai dos 0 aos 3 anos, e depois dos 5 aos 6 anos. É aí que a criança adquire o desejo de aprender a aprender, e isso é uma estrutura, é uma linguagem”. A candidata afirmou que crianças que não passam por essa etapa de ensino podem ser prejudicadas no futuro. “Você pode ter uma linguagem para aprender inibida, profundamente traumatizada pela falta do estímulo precoce, e quando uma criança tem acesso a creche de qualidade, Educação de qualidade, isso se traduz em uma possibilidade muito maior de aprendizagem”, disse.

Na conversa, que durou pouco mais de duas horas, Marina Silva recordou o processo de sua alfabetização aos 15 anos e o momento em que entrou em sala de aula. “Fui uma criança altamente estimulada pela minha avó nos conhecimentos ligados à minha realidade. Entrei na escola pela primeira vez aos 15 anos, eu não sabia ler e escrever, mas por dominar as estruturas narrativas que minha avó me contava histórias em cordel, em 15 dias eu aprendi a interpretar aquele código de escrita para formar as palavras. Eu tenho que falar tecnicamente sobre Educação por ser candidata, mas antes disso, a Educação é um propósito que muda vidas”.

Formada em História, Marina diz que só percebeu que não estava preparada pedagogicamente para lecionar quando entrou pela primeira vez em sala de aula. “Eu queria ser pesquisadora, mas não tinha dinheiro para investir em mestrado e doutorado, então fui ser professora. Descobri, quando fui para a sala de aula, que não estava preparada”, admitiu. “Tive que buscar uma formação suplementar”. Para a senadora, é necessário ter um foco, “um direcionamento, para que as pessoas que vão dar aula tenham uma base”. “Para ensinar alguém a aprender, você tem que ser alguém que aprende na mesma condição do aluno”.

Governança e orçamento

A formação docente permitiu que a candidata falasse com propriedade sobre o processo de ensino e aprendizagem, apesar de não fugir das questões mais técnicas sobre governança e orçamento em seu governo. “Nada se resume única e exclusivamente a recursos. O governo federal tem o papel de fazer com que o Sistema Nacional de Educação funcione, de dar suporte para que os professores e municípios façam seus planos municipais para a primeira infância. Nós detectamos que isso é muito importante no processo de formação dos professores, mas não temos a pretensão de criar uma espécie de Sistema Único de Saúde (SUS) da Educação”.

Educação Básica X Ensino Superior

Sobre a distribuição dos recursos do governo entre Educação Básica e Ensino Superior, a candidata disse que uma etapa de ensino deve alimentar a outra. “O Ensino Superior de qualidade é a base para para a formação de bons professores na Educação Básica. Estamos falando de formar biólogos, matemáticos, geógrafos. Quem coloca essas pessoas para dar boas aulas são as universidades. Precisamos criar uma equação em que haja um processo de retroalimentação entre a base, a Educação Básica, e o topo da pirâmide, o Ensino Superior”, defende.

Ensino Médio

A candidata defendeu que o Ensino Médio ofereça formação tendo em vista o mercado de trabalho, mas que não se limite a isso. “Não acho que as pessoas tenham de ser limitadas a uma formação profissionalizante. O estudante tem que ter acesso a disciplinas que o ajudem a se colocar no mundo, para uma capacidade de maior interpretação dos eventos do mundo, uma formação mais crítica, mas é preciso dar esse sentido prático”, afirmou.

Ideologia de gênero e PEC de gastos

Durante uma breve entrevista coletiva ao final do evento, a senadora defendeu a escola como um espaço aberto ao debate contra qualquer forma de discriminação. “A Educação é o espaço no qual a gente tem a possibilidade de trabalhar para que todas as pessoas sejam respeitadas, e isso pode e deve ser feito sem proselitismo”.

Ao ser questionada sobre o Projeto de Emenda Constitucional que congela o investimento em áreas como Saúde e Educação pelos próximos 20 anos, Marina Silva escapou das investidas contra o governo de Michel Temer. “Nenhum brasileiro em sã consciência acha que se deve ficar 20 anos sem investir em saúde, Educação, segurança pública e infraestrutura em um país que está perdendo 30% de sua produção por falta de uma série de coisas”, disse sem citar nominalmente o presidente.

Apesar de criticar duramente a proposta aprovada, a candidata não disse que pretende revogá-la. “Vamos discutir para que o Brasil não tenha que ficar com a Educação e a Saúde que tem, a menos que você advogue que ela continue do mesmo jeito”, afirmou. Confira, abaixo, o vídeo da sabatina na íntegra:

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