Educação Integral mira no desenvolvimento completo do aluno

Boas práticas e desenvolvimento de competências estão entre os maiores ganhos do modelo

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Paula Calçade
Oficina na Escola Municipal Professor Paulo Freire, em Belo Horizonte: modelo de Educação Integral   Foto: Ashoka/Divulgação

O Centro de Formação Paulo Freire, em Hortolândia, interior de São Paulo, oferece a Educação Integral para os alunos do quarto e quinto ano do Ensino Fundamental, que ficam 9 horas na escola. Karin Adriane é a diretora e responsável por esse modelo de ensino e conta que o maior desafio, além dos investimentos em infraestrutura e corpo docente para atender a essa nova realidade na rotina escolar, foi pedagógico. “É necessário pensar o desenvolvimento completo do aluno, o Ensino Integral é um conceito e não apenas um contraturno”, define.

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Hortolândia ampliou a oferta de Educação Integral em 2017, um movimento a favor da demanda de pais e das próprias crianças. “Os responsáveis trabalham o dia todo, os alunos precisam estar em um lugar que os ajude a desenvolver suas competências e habilidades durante todo esse período”, afirma Karin. Com aulas regulares no período da manhã, as crianças participam de atividades pedagógicas à tarde, como as oficinas de vivências, que oferecem orientação de estudo, aulas de arte, dança e jogos. Para integrar e desenvolver essas aulas e oficinas, foram contratados professores com formação específica para cada atividade. “Mas o diálogo com os outros colegas é constante, até porque as disciplinas e experiências desenvolvidas no período da manhã dialogam com o que eles farão no vespertino”, conta.

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Guillermina Garcia é pesquisadora do Núcleo de Educação Integral do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) e enfatiza também o objetivo de colocar o desenvolvimento integral dos estudantes como foco na Educação Integral. Para ela, a construção de um currículo para esse modelo é um desafio ainda no Brasil, uma vez que é necessário estar alinhado à Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e às demandas da comunidade. “Estabelecer a conexão com as competências gerais, a articulação entre todas as disciplinas e entender do que aqueles alunos precisam é importante, não é somente uma extensão da carga horária”, ressalta.

Mais do que carga horária

Na Escola Municipal Professor Paulo Freire, na periferia de Belo Horizonte, a Educação Integral foi adotada como forma de estimular a formação dos estudantes e ampliar o conceito de gestão democrática. Através de parcerias (incluindo o Ashoka, que a incluiu entre as escolas transformadoras) e profissionais de várias áreas, a escola ampliou seu horário e passou a oferecer oficinas que valorizam os saberes da comunidade. Os moradores também participam como intermediadores de atividades, como dança, jogos, esportes, educação ambiental. “Trabalhamos muito em rede com os equipamentos públicos e também com a arte”, afirmou a diretora Socorro Lage, durante o Seminário Internacional de Educação Integral.

Na teoria, o modelo de desenvolvimento integral no ensino pode servir para todos: a oferta fica a cargo das redes municipais e estaduais. Em São Paulo, por exemplo, são 314 escolas com Educação Integral na rede estadual, 1 em cada 18, mas a ampliação parece estar em discussão em algumas redes, a depender de investimentos. “Não classificaria nenhuma idade específica, essa educação pode ser dada para as escolas públicas como um todo”, afirma Guillermina Garcia. Entretanto, a pesquisadora destaca que as particularidades e os desafios mudam dependendo do ciclo de ensino. “Se não é possível ofertar para todos, é importante colocar como horizonte essa possibilidade e a implementação dessa política pode começar também para as classes sociais mais vulneráveis”, afirma.

Escola do Ensino Médio em tempo integral em Santa Catarina, projeto em parceria com o Instituto Ayrton Senna  Foto:  Rafael Rosseti/Instituto Ayrton Senna

Parcerias na Educação Integral

A Secretaria de Educação do Estado de Santa Catarina trabalha em conjunto com o Instituto Ayrton Senna para a implementação da Educação Integral para escolas de Ensino Médio. As escolas seguem uma metodologia desenvolvida pelo instituto, em que as aulas são integradas por áreas de conhecimento e que incentiva o desenvolvimento de competências, como pensamento crítico e trabalho colaborativo.

Simone André é gerente-executiva do Instituto e afirma que depois de um ano de parceria já é possível observar uma mudança na atitude dos alunos, com menor evasão e ganho de aprendizado. Com melhores notas em Matemática e Língua Portuguesa, o número dessas escolas no estado passou para 30 em 2018. “Atuamos com a secretaria apoiando a implementação e a reformulação do ensino e na formação dos professores e gestões escolares para atender a esse novo modelo”, pontua.

As escolas que fazem parte dessa parceria possuem núcleos de atividades de pesquisa e intervenção no período da tarde, e os alunos escolhem quais desejam participar. Para que a formação desses professores atinja a essa demanda, os docentes elaboram e apresentam planos de estudos com metodologias atuais e observam como outros colegas aplicam suas aulas e projetos em outras escolas de Educação Integral da rede.

Ainda que esteja mostrando resultado, há desafios para o modelo. “Primeiro é uma inovação, o que pode causar resistências, mas é preciso experimentar na sua realidade”, afirma Simone. “Os desafios estruturais existem, como o financiamento, mas não tem sido um impedimento para desenvolver as boas práticas”.

O Instituto Natura conta com um projeto de Educação Integral em Pernambuco. Baseado no protagonismo juvenil e nos projetos de vida, os alunos recebem entre 10 e 20 horas semanais extras, com atividades em laboratório, cinema, robótica e empreendedorismo. De acordo com o relatório, o programa conseguiu derrubar a evasão de 5% para 0,5% e a reprovação caiu 40%. A distorção idade-série encolheu 60%.

 

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