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Sala de aula | Arte


Por: Anna Rachel Ferreira

Vá além do desenho clássico de casa e treine a observação da cidade

Ao lançar um olhar novo sobre as moradias e os edifícios da cidade, os alunos foram encorajados a se expressar de maneira autêntica

Crédito: Whebert Costa/Acervo pessoal

"Prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: aqui tem vida... Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.” No poema Casa Arrumada, de Carlos Drummond de Andrade, casa tem história, bagunça, dança. Mas por que elas são sempre representadas da mesma forma? Whebert Costa se fez essa pergunta após constatar que todas as crianças que ele acompanhava, do 1º ao 5º ano, usavam a mesma estrutura para ilustrar seus lares: um quadrado com um retângulo dentro e um triângulo em cima ou um retângulo sob um triângulo.

O professor de Arte, então, propôs aos estudantes do 4º ano um novo olhar sobre suas casas: desenhá-las usando formas e materiais diversos e, principalmente, com vida. Assim nascia o projeto Era uma Casa, um dos vencedores do Prêmio Arte na Escola Cidadã de 2017. “A estrutura metodológica caracterizada por etapas definidas e progressivas é o ponto alto do projeto, pois propiciou aos estudantes não apenas o exercício e construção de conhecimento sobre técnicas, modos de produção e pensamento artísticos, mas, sobretudo, o reconhecimento das relações entre indivíduo e coletivo, assim como prevê a BNCC”, afirma Rita Luciana Berti Bredariolli, professora do Instituto de Artes da Unesp.

A primeira coisa feita por Whebert foi chamar a atenção dos alunos para os tipos de casas diferentes que eles mesmos já conheciam. Para isso, o professor da Escola Municipal Manoel Afonso, em Palmeiras (BA), município 446 quilômetros distante de Salvador, exibiu o clássico filme Os Três Porquinhos, em que os animais constroem uma casa de palha, outra de madeira e outra de alvenaria.

Com base nessa observação, Whebert iniciou uma roda de conversa sobre as casas de Palmeiras. As crianças perceberam que havia diferenças entre as fachadas e as cores e identificaram que, como na fábula, as construções são feitas de diversos materiais. O educador trouxe para a sala um novo recurso: bloquinhos de madeira, em diversos formatos e cores. O desafio era montar uma casa com a combinação que quisessem e, depois, produzir um desenho de observação, criando, assim, soluções para fazer a passagem do formato tridimensional para o bidimensional.

No encontro seguinte, Whebert apresentou as casas desenhadas pelo artista plástico ítalo-brasileiro Alfredo Volpi e pelo arquiteto e designer italiano Federico Babina. As obras abriram um universo de possibilidades e inspiraram desenhos ousados, como telhados feitos com chapéu de bruxa. “A parte mais legal foi desenhar as casas com outras formas, usando a nossa imaginação”, lembra a aluna Hágata Souza Oliveira, atualmente com 12 anos.

Arquitetura e cidade

Para que a aula se aproximasse da realidade das crianças, o professor leu o livro Família Alegria, de Cristina Villaça e Carla Irusta, com a turma. A obra conta a história dos moradores da residência da família Alegria, além de descrever as habitações das redondezas e a vida de quem não tinha onde morar. Durante a leitura, imagens das casas citadas no livro eram mostradas no telão para que os alunos tivessem referências visuais e pudessem compará-las a suas próprias casas.

Em seguida, os pequenos foram desafiados a criar fachadas diferentes para uma casa com a representação tradicional de triângulo e quadrado. “Teve um estudante que fez janelas de vidro, antena de TV a cabo e até sinal de wi-fi”, conta o professor. A atividade precedeu uma nova incursão literária: a leitura de Vizinho, Vizinha, de Roger Mello, Graça Lima e Mariana Massarani. As ilustrações são ricas em detalhes dos cômodos e orientaram a discussão sobre as divisões das casas onde os alunos moram. Foi o ponto de partida para desenharem banheiros, cozinhas, salas e quartos livremente em uma estrutura de casa.

Chegou então o momento de ir do bidimensional para o tridimensional, usando caixas de papelão que seriam jogadas no lixo, restos de papel e materiais de pintura para a criação de maquetes, em grupos. No primeiro ano em que o projeto foi realizado, Whebert apresentou um modelo para as turmas, mas o resultado foi aquém do que ele havia planejado. “Eles acabaram se apoiando demais no modelo. Por isso, no ano seguinte, decidi deixá-los mais livres e o resultado são casas e móveis criativos e únicos”, comenta.

Olhar fotográfico

 

Depois dessa vasta exploração das possibilidades de representação de uma moradia nas artes plásticas, Whebert escolheu a fotografia para fazer uma análise aprofundada das residências de Palmeiras, cidade com cerca de 8.500 habitantes. Ele entrou em contato com o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) e conseguiu imagens que a arquiteta Lígia Larcher utiliza para estudar os estilos arquitetônicos no município. “Eu não sabia o que era platibanda”, diz a aluna Marina Wilson Guimarães França, 11 anos.

A platibanda, faixa horizontal que emoldura a parte superior de um edifício e esconde os telhados, faz parte da arquitetura do centro histórico em Palmeiras, e foi registrada pela carioca Anna Mariani. A fotógrafa, especialista em imagens de fachadas de casas, também motivou as crianças a registrarem as construções das redondezas.

Antes de ir a campo, Whebert deu aulas teóricas sobre história da fotografia, luz, composição e outros aspectos importantes. O enquadramento mereceu atenção especial: com um pedaço de papel com um retângulo cortado no meio, os alunos saíram pela escola “enquadrando” o que viam. “Esse exercício possibilitou que eles visualizassem o que a câmera capta quando você muda de lugar e trabalhassem a composição das imagens”, conta.

Equipados com máquinas fotográficas, doadas pelo Instituto Brasil Solidário (IBS), as crianças foram separadas em grupos e saíram pelas ruas do centro histórico da cidade ao lado de professores e funcionários da escola. Cada um tirava uma selfie, realizava sua sequência fotográfica e passava a máquina para o colega. Desse modo, seria possível saber quem tirou cada foto. As imagens foram avaliadas pelos estudantes, que escolheram as melhores para a exposição do Festival de Arte Cândido Portinari, realizado pela escola.

PASSO A PASSO

Inspire-se e leve o projeto para a sua sala de aula

1) Da realidade ao desenho

Discuta as possibilidades de representação de uma casa, propondo atividades de desenho de observação e livre. Apresente obras artísticas para ampliar o repertório.


                     

  

2) Da superfície à maquete

Discuta as funções das casas e suas divisões em cômodos. Proponha que transformem desenhos bidimensionais em maquetes tridimensionais.

 

           

    

 

3) Da casa à cidade

Debata a importância afetiva das moradias e do patrimônio histórico. Estude composição e enquadramento e conduza uma saída fotográfica.

Da casa para a cidade: As histórias que as edificações contam

Se a casa é o lugar que acolhe as famílias, a cidade é o local onde estão todos esses lares e, portanto, ela deve ser valorizada como se fosse a nossa casa. Essa foi a premissa que o professor Whebert Costa utilizou para trabalhar, no projeto Era uma Casa, a importância do patrimônio histórico e as histórias contadas pelas edificações. A arquitetura dos casarões do centro histórico da cidade remonta ao século 19 e conta um pouco sobre os garimpeiros e donos de garimpos que se instalaram na Chapada Diamantina. Assim como as antigas construções contam histórias do passado, as casas atuais narram o presente e os alunos puderam analisar essas duas perspectivas. Essa sequência permite que eles entendam seu lugar no mundo e valorizem sua identidade. “Devemos incentivar os alunos a olhar para o espaço de suas casas, vivências e histórias não só para tornar a experiência escolar significativa mas também para que suas produções artísticas sejam expressões genuínas de quem eles são” diz Monique Deheinzelin, coautora do livro Aprender com a criança.


NA BNCC

Experimentar diferentes formas de expressão artística, fazendo uso sustentável de materiais, instrumentos, recursos e técnicas convencionais e não convencionais. Experimentar a criação em artes visuais de modo individual, coletivo e colaborativo, explorando diferentes espaços da escola e da comunidade. Dialogar sobre a sua criação e as dos colegas, para alcançar sentidos plurais. Habilidades EF15AR04, EF15AR05, EF15AR06