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Por: Leonor Macedo

O reforço pode ser divertido

Como planejar o acompanhamento e deixar o lúdico entrar na aprendizagem dos alunos

Aulas de balé são uma das atividades desenvolvidas em Coruripe durante o reforço escolar. Crédito: Itawi Albuquerque

Com a chegada do segundo semestre, soa o sinal de alerta para aqueles que precisam correr atrás de uma melhora no desempenho escolar. Na zona rural de Coruripe, em Alagoas, mais do que um momento de recuperação das notas, o reforço escolar é também diversão para os alunos. Na EMEB Santa Sofia, além do empurrãozinho extra nos conteúdos escolares, são oferecidas atividades lúdicas como balé, judô, xadrez, badminton e música. “Qualquer investimento supervisionado cujo foco esteja na melhoria da aprendizagem dos alunos é válido, seja ele a longo, médio ou curto prazo”, garante Aline dos Santos, diretora da escola. “Aqueles que frequentam o reforço conquistam avanços significativos não só na aprendizagem mas também na recuperação da autoestima”, ressalta a gestora.

Para que o período de recuperação não seja o único recurso para evitar a reprovação de crianças e adolescentes das redes pública e privada de ensino, muitas escolas realizam os chamados reforços escolares no decorrer do ano letivo. O ideal é que os professores identifiquem quem não está conseguindo aprender desde o início do ano, mas ainda dá tempo de correr atrás do prejuízo.

A Santa Sofia é uma das 18 escolas municipais da cidade litorânea de 52 mil habitantes que possuem jornada ampliada. Juntas, elas atendem mais de mil alunos do 1º ao 9º ano do Fundamental no contraturno – os que querem ficar na escola o dia todo e os que precisam de uma atenção especial em Língua Portuguesa e Matemática. “Esse programa deriva de um trabalho de correção de fluxo que começou ainda em 2000, quando tínhamos um índice altíssimo de distorção idade-série e analfabetismo aqui em Coruripe”, conta Maria Marques, gerente administrativa e pedagógica da Secretaria Municipal da Educação (Semed).

Cada um dos alunos da rede possui uma ficha para que professores e coordenadores acompanhem sua evolução na escrita, leitura e em Matemática. Todo mês, o corpo docente e gestor da escola cruza os dados para conferir se as crianças e os adolescentes estão no mesmo ritmo. Do contrário, são encaminhados para o reforço escolar. Para alcançar os resultados positivos, que colocam o município acima da média estadual nas notas do Ideb e do Enem, foi preciso investimento. “Além das capacitações regulares, desenvolvemos um material extra para o reforço escolar”, pontua Maria Marques, da Semed. As aulas de reforço são dadas pelos docentes do ensino regular, que ganham um adicional salarial. “O reforço tem que ser divertido para que as crianças e os adolescentes queiram participar”, resume Maria.

Ensinar de forma lúdica também é um dos atrativos do Programa Municipal de Intervenção Pedagógica (Promip), desenvolvido em Formiga (MG). Implantado desde o começo de 2018 nas 14 escolas desse município, ele tem como objetivo conquistar um nível satisfatório de aprendizagem dos alunos e já apresenta bons frutos.

“Muitos alunos que tinham dificuldade na alfabetização agora conseguem acompanhar as turmas regulares no mesmo ritmo dos que não tinham”, ilustra a professora Lucilete Almeida, dedicada somente ao reforço dos pequeninos do 1º ao 3º ano do Fundamental 1 na EM Professor Franklin de
Carvalho. A alfabetização é feita por meio de jogos, leitura e contação de histórias, mas sempre acompanhada também pela escrita. “No reforço escolar, você não compara a criança com a turma, mas com ela mesma para saber quanto avançou”, diz.

Assim como nas escolas de Coruripe, em Formiga há acompanhamento constante do processo de aprendizagem do aluno na sala de aula regular. Quando diagnosticada a defasagem, o aluno é encaminhado ao reforço. Reuniões semanais entre o coordenador pedagógico, o professor regular e o docente encarregado do reforço também ajudam no desenvolvimento do trabalho. Por fim, uma psicopedagoga também visita mensalmente todas as escolas do município.

Conteúdo próximo ao aluno

 Aulas de judô no reforço também ajudam a capturar o interesse dos alunos na EMEB Santa Sofia, em Coruripe (AL). Crédito: Itawi Albuquerque

Acompanhamento, inclusive, é como Silvia Colello acha que o reforço escolar deveria chamar. Para a professora da Faculdade de Educação da USP, o termo “reforço escolar” traz uma ideia enviesada de que “falta força ao aluno”.

“Você parte do princípio de que ele está errado, o enxerga pelo que falta e não pelo que ele é capaz”, explica. A professora da USP aponta que, antes de programar qualquer atividade extra, a escola precisa olhar para si mesma e compreender os motivos pelos quais os alunos não estão aprendendo. “A criança pode, inclusive, achar que aquele conhecimento não é necessário”, comenta. Caberia ao professor levar a aula para a realidade do aluno. “Como uma criança pode aprender a andar de skate, jogar videogame e não consegue aprender a ler e a escrever? Às vezes o ensino da escola é tão distante da realidade que ela boicota essa aprendizagem de maneira inconsciente” , aponta Silvia.

Ensinar de forma lúdica é um dos caminhos apontados pela especialista para que os alunos se interessem e aprendam. “A brincadeira é linguagem da infância. Desde muito cedo o brinquedo é uma forma de conhecer o mundo e ativar o pensamento simbólico”, diz. Esse clima descontraído, significativo e envolvente também deve ser usado para ensinar adolescentes e jovens. “Nesse caso, é preciso levar em conta as especificidades dos alunos, como a origem social, a idade e os interesses.”

Mas por que esperar que isso só aconteça no reforço? “A cultura escolar está errada, o lúdico tem que estar no dia a dia da escola. Por que não fazer dela um espaço de alegria?”, diz a professora da USP.

Outra forma de estimular o desenvolvimento das competências e habilidades necessárias é conectar o conteúdo com a vida dos alunos. “Na escola é o inverso: o estudante precisa entender e decorar um assunto para depois aplicá-lo”, diz Silvia.

Seja na sala de aula regular, seja no reforço, é preciso levar em conta o tempo que cada um leva para aprender. “Meus alunos têm ritmos diferentes, uns mais rápidos, outros mais devagar. Mas todos aprendem”, garante a professora Lucilete.

COMO FAZER O REFORÇO ESCOLAR FUNCIONAR? MAS E QUANDO FALTA RECURSO PARA O REFORÇO ESCOLAR?


? Olho na aprendizagem dos alunos: desenvolva metodologias de acompanhamento diário para saber quem está com defasagem em relação à turma. É o professor da sala de aula quem pode fazer a diferença.
? Professores e gestores devem conversar: reuniões periódicas ajudam a identificar quais são os alunos que possuem dificuldade para aprender.
? Gestão deve traçar um plano para o reforço: quais serão os profissionais que farão o acompanhamento escolar? Ele será no contraturno da escola? Terá um material próprio? Uma sala especial?
? Não desista se a escola não tiver recursos: juntos, professores e gestores podem pensar em soluções pedagógicas no decorrer das aulas regulares para ajudar os alunos.
? Tente abordar a disciplina de uma maneira diferente: se o aluno já não aprendeu daquele jeito, não adianta repeti-lo.
? Não trate o reforço escolar como punição: caso contrário, o aluno já vai predisposto a não dar uma chance para a aprendizagem.

Nem todas as escolas possuem meios de oferecer um reforço no contraturno, com espaço dedicado, um professor exclusivo e material próprio. Mas as alternativas existem, inclusive no dia a dia. “O professor regular é determinante na correção da defasagem dos alunos. É quem percebe o problema e pode agir na hora”, diz Silvia Colello, da USP. Ela explica que, em geral, o docente guia a sua aula pela média da sala: quem tem mais facilidade fica entediado e quem não tem acaba se complicando ainda mais. “O professor pode diversificar atividades pensando nesses perfis de alunos. E, então, dividir a turma em grupos de cinco para dar mais atenção aos que precisam, enquanto os que estão mais avançados fazem atividades mais desafiadoras”, propõe. Colocar alunos que sabem mais com outros que avançaram menos é uma boa ideia, bem como envolver a família. “A lição de casa com o auxílio dos pais é um instrumento do reforço, mas as atividades devem ser diferentes dentro das turmas, respeitando o perfil dos alunos”, diz. Vale lembrar de não tratar o reforço como uma punição, mas como mais uma chance de aprender.