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Especialistas | Entre colegas


Por: Felipe Bandoni

A falta que a reunião pedagógica faz

Sem a troca entre os pares que enfrentam os mesmos desafios, professores cultivam a sensação de impotência e isolamento.

Ilustração: Adriana Komura

Sempre atuei em escolas nas quais os professores se reuniam regularmente. Idealizados para discutir o cotidiano pedagógico, nesses encontros há espaço para conversar sobre os alunos e combinar os encaminhamentos coletivos. É também quando nos aperfeiçoamos por meio da análise de nossas práticas ou do acesso à teoria. Tais encontros foram determinantes para a organização do meu trabalho e para a construção de uma visão mais crítica sobre minha prática.

Por isso, é surpreendente descobrir que existem escolas que não realizam reuniões pedagógicas. Ao dialogar com os colegas que atuam nesses espaços, percebo que o trabalho fica muito prejudicado. A consequência imediata é o isolamento dos professores e o impedimento dos trabalhos coletivos. Sem a reunião, é difícil organizar, por exemplo, qualquer proposta interdisciplinar.

Outro problema são as repetições de conteúdos: já presenciei alunos avisando docentes que o assunto da aula já havia sido abordado anteriormente. Tais problemas poderiam ser evitados por meio da realização de encontros de professores, nos quais se discutiria a organização dos conteúdos de maneira progressiva.

A falta de encontros entre os docentes gera descompromisso com a aprendizagem dos alunos e com a escola em geral. Conheci um professor de Química que dava aulas em três instituições diferentes, nas quais não havia reuniões pedagógicas. “Entrava, dava minhas aulas e ia embora”, contou esse professor, que não estava a par dos projetos ou dos conteúdos em andamento nas outras disciplinas. Na realidade, nem conhecia muitos de seus colegas. Obviamente, não se sentia parte de nenhuma das escolas e os alunos queixavam-se de sua indiferença.

Há ainda a questão da formação em serviço, que idealmente deveria acontecer nas escolas: os avanços são mais efetivos quando se reflete sobre a própria prática, já que cada turma requer estudos específicos. Sem a oportunidade para trocar com os pares que enfrentam os mesmos desafios, muitos professores cultivam a sensação de impotência e isolamento. É comum que se sintam ilhados em suas próprias turmas e repitam práticas nas quais não acreditam, simplesmente porque não há interlocutores para ajudá-los a pensar em alternativas.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação garante a existência das reuniões pedagógicas nos sistemas de ensino. Penso que precisamos garanti-las e valorizá-las, inclusive nas escolas privadas.

Afinal, são nessas reuniões que nós, os professores, aqueles que efetivamente implementam o projeto pedagógico de uma escola, podemos refletir, aperfeiçoar nossas práticas e encaminhar soluções para potencializar a aprendizagem dos alunos. Sem essas oportunidades, cria-se uma sensação de descompromisso e uma tendência ao isolamento e à estagnação. Sem as reuniões, perde-se muito, enfim, na qualidade do trabalho docente. 

Felipe Bandoni é professor de Ciências na Educação de Jovens e Adultos (EJA) do Colégio Santa Cruz, em São Paulo