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Dois relatos surpreendentes sobre como é ser um professor homem na Educação Infantil

Membros do Time de Autores explicam as dificuldades e os desafios de trabalhar no segmento, que é dominado pelas mulheres

POR:
Wellington Soares
Evandro e Marcos, os únicos professores-autores homens de Educação Infantil, enfrentam situações curiosas como educadores dessa etapa. Foto: Mariana Pekin.

Elas são maioria absoluta: 97,6% dos educadores que atuam com bebês e crianças de até 5 anos de idade são mulheres. São apenas 6.642 homens atuando no segmento no país todo, segundo dados do Censo Escolar de 2017. E no Time de Autores que elaborará os planos de atividades NOVA ESCOLA, eles também são minoria. Dos 49 profissionais que estiveram presentes na Virada de Autores, que aconteceu entre os dias 19 e 22 de julho em Itapeva (MG), apenas dois eram do sexo masculino. "Estou acostumado. Desde a faculdade quase não há homens nos ambientes profissionais", conta Evandro Tortora, que atua na rede municipal de Campinas (SP).

Os motivos pelos quais os homens são minoria já foram bastante discutidos e se baseiam em dois equívocos. O primeiro é a ideia de que o único papel da Educação Infantil é o de prover cuidados. Não é bem assim. Desde a Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), o segmento se consolidou como parte importante da Educação, em que tanto as ações de cuidado (como alimentação, trocas de fraldas e banhos) quanto outras atividades pedagógicas são fundamentais. O segundo equívoco é considerar que apenas as mulheres podem desenvolver os cuidados. "A sociedade mudou e hoje vemos que os homens também precisam se envolver nas rotinas da família, na Educação Integral das crianças, em casa e nas instituições", destaca Marcos Machado, que hoje trabalha com recreação em Salvador.

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Para os poucos professores que se envolvem com o segmento, o cotidiano acaba cheio de desafios e situações curiosas. Leia, abaixo, os depoimentos dos dois educadores.

"É preciso considerar uma nova forma de ver a masculinidade"

Marcos Machado, de Salvador: a afetividade e os cuidados também podem ser desempenhados por homens. Foto: Mariana Pekin

"Em meu primeiro estágio na Educação Infantil, logo que cheguei, uma das crianças notou minha presença e me convidou para brincar com elas. Fiquei encantado e sabia que queria seguir ali. Mas nesse mesmo estágio já entendi algumas das dificuldades: durante uma roda de conversa outra criança correu e se sentou em meu colo. Não sabia o que fazer: será que eu podia deixar que o menino ficasse ali? Ainda hoje, meço muito cuidadosamente a maneira como me porto. Infelizmente, toda figura masculina é vista como um potencial abusador. E as próprias crianças, muitas vezes, passam por situações difíceis com figuras masculinas ausentes, violentas ou distantes. No meu trabalho, gosto de mostrar que é possível que elas tenham relações saudáveis com homens: de afeto, de brincadeira e de aprendizagem. Mas há poucas oportunidades. Com frequência, recebo negativas sobre entrevistas de emprego por ser homem. Um grupo de pais já até fez um abaixo-assinado contra minha contratação."

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"Em sala, minhas dificuldades são as mesmas de minhas colegas mulheres"

Evandro Tortora, de Campinas (SP): ao longo do ano, a desconfiança das famílias vai desaparecendo. Foto: Mariana Pekin

"No começo do trabalho com bebês, me sentia mais sem jeito e tive dificuldades para exercer a rotina de cuidados, para entender a linguagem dos bebês -- o choro, os gestos. Mas minhas colegas sempre foram muito receptivas em me ensinar e me apoiar no meu crescimento profissional como professor. Existe a ideia de que os homens teriam menos aptidão para essas tarefas, mas não vejo assim. Quando professoras mulheres que não têm filhos começam na carreira, enfrentam os mesmos desafios que eu. Para as crianças, também não vejo nenhuma dificuldade no trabalho. Mas os pais às vezes demonstram uma certa desconfiança e resistência quando notam que os pequenos estarão na minha turma. Minha saída é não me justificar como sendo homem. Quando me reúno com as famílias para apresentar as propostas, em nenhum momento faço a ressalva de ser do sexo masculino. Com o tempo, a desconfiança some."

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