Bola dentro

Levar em conta a maneira como os jogos são praticados na vida real pelos grupos sociais é essencial para mostrar o lado cultural de todo esporte

POR:
Beatriz Santomauro
CESTA DIFERENTE A turma da EMEF Airton Arantes Ribeiro entendeu a origem das regras do streetball. Foto: Marcos Rosa
CESTA DIFERENTE  A turma da EMEF Airton Arantes Ribeiro entendeu a origem das regras do streetball
Foto: Marcos Rosa

O basquete é um dos esportes mais populares no Jardim São Luís, bairro de periferia na Zona Sul paulistana. Mas não é qualquer tipo de basquete: o que faz sucesso por lá é um jogo em que o que conta não é só fazer a cesta, mas criar jogadas de efeito, caprichando na ginga e nas enterradas. As regras são menos rígidas: em termos de formação, vale desde o "um contra um" até o "cinco contra cinco", usando uma ou as duas tabelas. E, de vez em quando, a torcida não se limita a incentivar as equipes com gritos e aplausos, mas curte um rap e dança o break durante as partidas. Convenhamos: é algo bem distante do jeito tradicional de ensinar a modalidade nas aulas de Educação Física...

Mas o que acontece com esse esporte, o streetball ("basquete de rua", em português), acontece com muitos outros na vida real, pois as práticas corporais estão imersas em cultura. São produtos de grupos específicos, que recriam o movimento de acordo com suas condições. Considerar essa premissa nas aulas é algo muito positivo - na verdade, a chamada perspectiva cultural é hoje a dominante no ensino da disciplina. "Os movimentos representam a maneira de viver de um povo, são resultado de uma cultura e fazem parte da história. Focar apenas a técnica é simplificar manifestações muito mais complexas e ricas", argumenta Fábio D?Angelo, coordenador pedagógico do Instituto Esporte e Educação, de São Paulo, e selecionador do Prêmio Victor Civita - Educador Nota 10.

Foi com essa teoria em mente que a professora Cleide Sueli Viana Milaré apresentou o basquete de rua para sua turma de 6º ano na EMEF Airton Arantes Ribeiro. "Apresentou" é modo de dizer porque boa parte dos alunos já praticava a modalidade nas quadras públicas que existem na região. "O que eles não sabiam era que o jogo faz parte de um conjunto de atividades que inclui o grafite das paredes, a dança do break e a música do rap", explica ela.

O primeiro passo é identificar as práticas corporais da turma

Essas constatações, é claro, não surgiram espontaneamente. Cleide descobriu-as fazendo um mapeamento das práticas corporais da sala para conhecer os gostos da moçada (o interesse pelo streetball), o que já era conhecido (a adaptação das regras) e o que era preciso ensinar (as manifestações do grafite, do break e do rap, que em conjunto compõem a cultura hip-hop, fortemente associada à modalidade). Quais as atividades feitas no bairro? De que maneira são praticadas? Com que equipamentos? Quais são as regras? Além de ouvir todas essas respostas, ela pediu que a turma mostrasse sua experiência no contato com a bola e com o som da música que acompanha as partidas. Com muita conversa e observação atenta, conseguiu mais pistas sobre a realidade da classe. Você, aliás, pode realizar o mesmo procedimento: ele é essencial para identificar como seus alunos se relacionam com o movimento no dia-a-dia, escolher o esporte a ser trabalhado e planejar que intervenções devem ser feitas na aula.

Para começar a abordar as manifestações do hip-hop, Cleide dividiu a sala em grupos e distribuiu funções específicas: enquanto um pesquisou filmes que mostram o basquete de quadra e o de rua, outro estudou as regras de cada modalidade, um terceiro listava as principais manobras e seus significados e um quarto investigou a história do esporte e a ligação com a música e a dança. Por meio de apresentações, o conhecimento foi socializado e os estudantes avançaram. Descobriram, por exemplo, que o streetball e o movimento hip-hop surgiram nos Estados Unidos, em redutos negros e pobres, que enfrentavam a discriminação racial e social. Sem contar com quadras bem equipadas, os grupos adaptavam o basquete para sua realidade.

Na etapa seguinte, foi a hora de convidar a comunidade para uma demonstração. Times de streetball exibiram movimentos, rappers ensinaram como elaborar rimas e dançarinos de break deram oficinas. Já era o momento da experimentar tudo aquilo na prática - afinal, o movimento segue sendo o fio condutor da Educação Física. Ao organizar a partida, os alunos já sabiam que a versão de rua do jogo inclui improvisar manobras e caprichar no estilo de jogo. Perceberam que a maltratada quadra da escola até que serve bem para o propósito: bastam uma bola e um aro para um pequeno espaço ser palco de uma disputa (e constataram que a realidade deles, nesse sentido, é tristemente parecida com a dos pioneiros do basquete de rua...). Tudo acompanhado por raps criados e interpretados pelos que preferiram cantar e dançar em vez de arriscar a sorte nas manobras e nos arremessos.

As atividades práticas devem garantir a participação de todos

Contemplar essa diversidade de habilidades é outra necessidade. Em vez de apostar na repetição de jogadas (o que, na prática, só acaba servindo para alguns alunos e exclui quem não tem tanta aptidão para o esporte), é muito mais importante garantir uma prática corporal inclusiva, incentivando a participação de todos. A Educação Física escolar não tem a pretensão de formar atletas, mas propiciar a diversidade de experiências. A técnica é importante, mas não essencial em uma situação em que outras habilidades (algumas delas não físicas) são levadas em conta.

Essa mudança de visão impacta também a avaliação. Conteúdos procedimentais (a técnica do esporte), atitudinais (a forma como o trabalho é realizado, se é individual ou em equipe) e conceituais (o estudo das características históricas e sociais das manifestações corporais) ganham o mesmo peso. No caso da professora Cleide, o envolvimento da turma foi tão grande que venceu as barreiras da escola. "Quando terminamos a sequência didática, vários alunos que antes não conheciam o streetball ou viam o esporte com preconceito começaram a participar das atividades na comunidade", conta. E quem já praticava certamente passou a enxergar os aros das quadras do bairro com outros olhos, percebendo toda a cultura que eles carregam.

Quer saber mais?

CONTATOS
EMEF Airton Arantes Ribeiro
, R. Frei Luis Beltrão, 5, tel. (11) 5511-3687, 04905-022, São Paulo, SP
Fábio D?Angelo, dangelo.tln@terra.com.br

BIBLIOGRAFIA
Educação como Prática Corporal
, João Batista Freira e Alcides José Scaglia, 184 págs., Ed. Scipione, tel. 0800-161-700, 43,90 reais
Pedagogia da Cultura Corporal: Críticas e Alternativas, Marcos Garcia Neira e Mario Luiz Ferrari Nunes, 296 págs., Ed. Phorte, tel. (11) 3141-1033 , 29 reais

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