Rússia não é só Comunismo: saiba mais sobre o país sede da Copa do Mundo

País enorme e gelado? Povo muito parecido? É possível fugir dos estereótipos e mostrar a diversidade cultural na Rússia

POR:
Naiara Albuquerque
Foto: Shutterstock

A imagem da Rússia para quem apenas se deu ao trabalho de sintonizar a TV e ver torcedores com bandeirinhas está longe, muito longe de representar o povo russo. Filmes, livros e séries de TV exploram a imagem romântica da Revolução Russa, da vida opulenta dos czares e, mais tarde, dos espiões infalíveis durante a chamada Guerra Fria. Mas a Rússia possui uma história, geografia e contexto político que merecem ser descobertos.

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Para começar, Brasil e Rússia são muito diferentes. As diferenças territoriais, culturais, políticas e religiosas da Rússia podem ser explicadas pelo processo que seu território viveu séculos atrás. Diferentemente do Brasil, que teve sua área explorada e colonizada pelos portugueses, por exemplo, a Rússia passou por um processo distinto, como explica a socióloga e pesquisadora russa Svetlana Ruseishvili. “A Rússia sempre foi um país imperialista que conquistava os territórios historicamente povoados por povos de outras origens culturais e religiosas”, afirma. O que gerou, segundo ela, repúblicas autônomas que são unidades administrativas com seus próprios direitos e constituição dentro do território.

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São diferenças que, de acordo Svetlana, têm impacto na variedade e multiplicidade cultural do país. Quando se fala em religião, a imagem que muita gente ainda tem é do domínio da Igreja Ortodoxa, com seus rituais em latim. De acordo com o censo de 2002, há 14,5 milhões de russos muçulmanos, o que representa 10% de toda sua população. Budismo, cristianismo e judaísmo também estão entre as principais religiões da região.

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Para a pesquisadora russa, o principal estereótipo a ser desmistificado pelos brasileiros é a ideia de que o povo russo é uniforme e não múltiplo em sua riqueza cultural. Ideia que, segundo ela, ainda está ligado ao período da Guerra Fria (o período em que Estados Unidos e a então União Soviética lutaram para se manter à frente no mundo). Svetlana explica que o cinema pode ajudar a construir esses estereótipos. Exemplo disso são os filmes de super-heróis que costumam colocar agentes da KGB (Serviço Secreto Soviético) como vilões da história. “Nos filmes, os russos são representados da mesma maneira: usando o Ushanka [chapéu típico russo] e com aquele sotaque carregado”.

Revolução Russa e Comunismo
Além das diferenças climáticas e culturais, a discussão de temas políticos sobre a Rússia, como a Revolução Russa e o Comunismo, também deveriam ser abordados em sala de aula. A Revolução Russa foi um período de protestos turbulentos iniciados em 1917 que culminou na queda do czar Nicolau II, na ascensão ao poder de Vladimir Lênin e do Partido Bolchevique – transformando a Rússia de monarquia absolutista em república socialista. Foi o ponto de partida para a criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) – formada por Rússia, Lituânia, Estônia, Látvia, Bielorrússia, Ucrânia e Moldóvia – superpotência que disputou o domínio político, militar e ideológico por mais de quatro décadas.

“Precisamos desmistificar a ideia da Revolução Russa como sinônimo de um comunismo que ‘não deu certo’. O movimento em si foi muito mais complexo do que a instalação ou não desse sistema”, afirma Svetlana.

Temas contemporâneos e que têm relação com a Rússia, como o conflito na Síria e Oriente Médio, também podem ser abordados em sala de aula de maneira complexa. “Há a necessidade de entender esses acontecimentos de forma processual, ou seja, o caráter histórico das relações entre os Estados”, afirma Denizart Fortuna, geógrafo e professor associado da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF). Políticas de monitoramento e, principalmente, as pesquisas científicas realizadas em águas profundas, como a Geopolítica do Ártico, são também alguns dos temas que devem constar nos planos de aula.

“Este cenário está estritamente articulado com as mudanças climáticas. O derretimento da calota até então presente neste oceano tem gerado expectativas para a sua exploração econômica (gás natural e petróleo), além de seu uso para o transporte interoceânico”, explica o professor.

Poster de Vladimir Lênin como grande líder da Revolução Russa   Foto: Wikimedia Commons

Qual a diferença entre socialismo e comunismo
O filósofo e economista Karl Marx (1818-1883) defendia que os trabalhadores se unissem em uma revolução para acabar com o poder da burguesia e a propriedade privada dos meios de produção. O objetivo era instalar um sistema político voltado aos interesses dos trabalhadores (ou proletários, termo do Manifesto do Partido Comunista, de 1848), em que o dinheiro não fosse o foco. No socialismo, o governo controla a produção e a distribuição dos bens.

No livro “O Ano I da Revolução Russa”, o historiador Victor Serge explica como Josef Stalin isolou a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), dizendo que ela logo chegaria à etapa do comunismo, de justiça e de abundância. Essa imagem encontrava ressonância no imaginário russo, que via o país como o "sal da terra", e Moscou, sede do cristianismo ortodoxo, como a "Terceira Roma". Stalin chamou esse processo de "construção do socialismo em um só país".

Para saber mais sobre aspectos históricos e geográficos da Rússia:

- "Os russos", de Angelo Segrillo

- “Rússia: Europa ou Ásia?”, de Angelo Segrillo

- “A revolução das mulheres: emancipação feminina na Rússia soviética”, de Graziela Schneider

- “Vida e destino”, de Vassiliy Grossman

- “Doutor Jivago”, de Boris Pasternak

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